A terceira temporada de “The Crown”, que chega à Netflix este domingo, 17 de novembro, começa com a Rainha Isabel II, agora interpretada por Olivia Colman, a olhar para os novos selos, um com a rainha mais nova (com a cara de Claire Foy, a Isabel II das duas primeiras temporadas) e outro com a que na nova temporada é a atual. Uma cena óbvia que tinha de acontecer, marcando a passagem de testemunho entre uma atriz e outra enquanto se avança do tempo para uma nova fase do reinado na cronologia de “The Crown”. Podia não estar lá, o glamour da passagem do tempo é parte essencial da produção.

A cena em questão vai além da passagem de testemunho. Vira momento clássico da série criada por Peter Morgan, estreada em novembro de 2016, e faz esquecer que passaram quase dois anos desde que a segunda temporada chegou à Netflix. Foram dois anos para fazer o espectador esquecer Claire Foy, dois anos a preparar novos atores para as personagens de sempre – e abrir espaço para outras novas. Mas não passam dois anos entre uma temporada e outra. A segunda temporada acabou em 1964, com o nascimento do Príncipe Eduardo, e recomeça precisamente no mesmo ano de 1964.

[o trailer da terceira temporada de “The Crown”:]

A rainha tem agora 38 anos. Os mesmos 38 anos que tinha quando Claire Foy a interpretou pela última vez. Mas agora é tempo de avançar e ter uma atriz que faça a transição para os anos que estão para vir. Com um tipo de humor e disposição bem diferente. Olivia Colman, atualmente com 45 anos, foi a escolhida para interpretar a Rainha Isabel II nesta cronologia – e, provavelmente, para uma futura temporada. Ou seja, entre 1964 e 1977, dos 38 aos 51 anos. Colman que na verdade já interpretou o papel de Rainha Mãe em “Hyde Park On Hudson” e que já foi a Rainha Ana, papel que lhe valeu no início deste ano o Óscar de Melhor Atriz pela sua prestação em “A Favorita”.

Volte-se à primeira cena desta terceira temporada. Um momento cerimonial, em que dois quadros são mostrados com muita formalidade à Rainha. E ela antecipa o seu envelhecimento com humor. Uma das muitas situações em “The Crown” preenchidas com protocolo e formalidade que servem para fingir que se sabe mais do que realmente se sabe. Simulam a invasão da privacidade da família real, uma realidade, ou um passado, que não pode ser confirmado mas que Peter Morgan e a sua equipa criam com o à-vontade de quem recria o real. O espectador fica convencido deste “conta-me como foi” que vence o presente, os secretismos e as narrativas da família real nas últimas duas décadas.

[veja aqui mais imagens da nova temporada de “The Crown”:]

“The Crown” tem esse aspeto de telenovela, como algumas das melhores séries britânicas da última década, como “Downton Abbey” ou “Line Of Duty”. A grande diferença é que é uma “telenovela” sobre a família real britânica, fala de algumas pessoas que ainda estão vivas e torna a história da segunda metade do século XX absolutamente magnética. Conta essa história obedecendo a formalidades, retrata eventos históricos com o devido cuidado e uma atenção ao detalhe magnífica, tornando eventos secundários em histórias de televisão majestosas (o primeiro episódio desta nova temporada é logo um desses). Também torna acontecimentos que importam ser lembrados em deslumbres de ficção: lembremo-nos de “Act Of God”, o quarto episódio da primeira temporada, sobre o nevoeiro em Londres em dezembro de 1952.

“The Crown” surgiu num momento oportuno. Em novembro de 2016, meses após o referendo do Brexit, a primeira temporada, que acontece entre 1947 e 1955, tinha como uma das suas grandes bandeiras a relação entre a rainha e o primeiro-ministro Winston Churchill. As reuniões e as soluções entre os dois contavam nas entrelinhas os dramas do pós-guerra – que ainda surgem nesta terceira tranche de episódios – e as razões do surgimento de uma Europa unida. De certa forma, apanhou-nos todos desprevenidos. Curiosos ou não sobre a família real, “The Crown” ficou muito acima das expectativas aos olhos de todos.

[entrevista com Helena Bonham Carter e Olivia Colman:]

Não se fica pelas regras óbvias do drama histórico, mas obviamente gosta de fazer um figurão na forma como retrata a época. O que não seria para menos, tratando-se da família real britânica e de toda a mediatização que é gerada à sua volta. Supera-se também à mera rotina de ser um retrato, é perfeitamente possível colocar o real de lado e ver “The Crown” como um excelente drama puramente ficcional. Essa é uma das suas belezas: permite-se a isso. Pelo modo como cruza história e ficção ou como eleva o privado desconhecido da família real a algo de concreto. Por exemplo, não há grande interesse em ver a rainha Isabel II na cama (só isso, na cama, sem qualquer jogo de português), mas em “The Crown” isso torna-se primordial para criar relações com aquela personagem e as que a rodeiam.

“The Crown” não esquece também a Princesa Margaret: outrora interpretada por Vanessa Kirby, agora é Helena Bonham Carter que lhe dá corpo. É o elemento de instabilidade num cenário que se quer seguro e certinho. E o que importam as manias de uma princesa quando há um país para salvar? Muito, mesmo muito. E a verdade é que a importância de Margaret nunca pode ser menorizada.

A ingenuidade e as incertezas da rainha Claire Foy passam agora para uma mais dura e ácida Olivia Colman. Tal como Foy, Colman parece um peixe dentro de água na pela da monarca que lhe calhou interpretar. Nesta terceira temporada, “The Crown” continua a ser uma das melhores séries da atualidade. A estreia num domingo é perfeita para devorar boa parte dos episódios. Não tem de ser assim, mas passaram-se dois anos desde a segunda temporada. Dois longos anos. E agora há Olivia Colman e Helena Bonhan Carter a servir shots de humor ácido na história mais formal de todas. Real ou ficção, pouco importa. “The Crown” já conta a sua própria história.