Castelo de Caernarfon, 1 de julho de 1969. A data é um marco na história recente da família real britânica, em particular do longo reinado de Isabel II. Diz respeito à cerimónia de investidura de Carlos, primogénito e sucessor direto da monarca, como Príncipe de Gales. A rainha coroou o próprio filho, com apenas 20 anos, cercada pelos restantes membros do núcleo real — o príncipe Philip, na altura com 47 anos, a rainha-mãe, a princesa Margaret e o marido, Antony Armstrong-Jones, conde de Snowdon, e a jovem Anne, de apenas 18 anos.

O quadro, pintado em tons vibrantes e onde quase se sentem as texturas de pérolas e plumas, é recriado na terceira temporada da série “The Crown”, que chega à plataforma de streaming da Netflix no próximo domingo, após dois anos de espera. É legítimo assumir que será um dos momentos altos dos novos episódios, que retratam os bastidores (mas também a vida pública) da realeza britânica entre os anos de 1964 e 1976.

A rainha Isabel II, após a cerimónia de investidura do filho, em julho de 1969 © Bettmann Archive

Nada foi deixado ao acaso, sobretudo no que toca ao guarda-roupa, que já nas temporadas anteriores tinha saltado para a linha da frente, como se ele próprio fosse uma personagem viva e fiel aos momentos que a memória do século XX tratou de cristalizar. Os prémios reconheceram-no — dois Primetime Emmy Awards e um BAFTA só para distinguir os figurinos de época das magistrais Michele Clapton (primeira temporada) e Jane Petrie (segunda temporada). Estes têm sido, aliás, alvo de grande investimento por parte da Netflix, que, no caso da terceira e da quarta temporadas, terá ultrapassado os 115 milhões de euros. Assim, “The Crown” continua a ter o guarda-roupa mais caro da história da televisão.

De volta à realidade, foi uma década de transição para Isabel II, a rainha que tanto assume os tons pastel como uma espécie de segunda pele como parece entrar na década de 70 com um peculiar gosto por extravagância. À sua volta, tem uma filha adolescente (a princesa Anne), à mercê da ditadura protocolar, mas também das referências de uma swinging London. Margaret, a irmã mais nova da rainha, é a socialite dentro da realeza — silhueta dramática e permeável às tendências internacionais. A partir de domingo, a ficção volta a ser espelho da realidade. À roupa cabe, mais uma vez, ajudar a contar a história, a da família real britânica e a da moda do século passado.

Amy Roberts, a nova mestra do guarda-roupa

“O realizador quase fez chichi nas calças quando ela entrou em cena”. O desabafo é de Amy Roberts, a mulher ao leme do guarda-roupa da nova temporada da série. Voltamos à famosa cerimónia de investidura do Príncipe de Gales, clímax de uma pesquisa histórica exaustiva e de um rigoroso exercício de recriação do que cada membro da família real vestiu em cada uma das suas aparições públicas. A personagem em questão é a rainha-mãe, agora interpretada por Marion Bailey. De verde, com um vestido rendado, luvas brancas e um chapéu redondo, coberto de penas de águia, a imagem da matriarca a 1 de julho de 1969 condensa todos os sentimentos desencadeados pelo clã real naquele dia, num dos raros momentos em que a realidade superou a criatividade de quem monta a ficção.

Os atores Erin Doherty, Marion Bailey, Helena Bonham Carter e Ben Daniels nos papéis de princesa Anne, a rainha-mãe, a princesa Margaret e Antony Armstrong-Jones, respetivamente, durante a cena que recria a cerimónia de investidura do príncipe Carlos, a 1 de julho de 1969 © Netflix

“Nunca me passaria pela cabeça fazer aquilo, juntar aqueles tons todos. Mas é emocionante. Acho a família real fascinante com todo aquele mau gosto… Mas de uma forma incrível”, admitiu Roberts, à conversa com o Finantial Times. Além das personagens principais, a designer vestiu à volta de 8.000 figurantes — 800 só na cena da cerimónia de investidura. O período da ação pode ser de apenas 12 anos, mas as analepses pontuais transportam a história para os anos 30. Cerca de 600 figurinos foram feitos de raiz, com o apoio de uma equipa composta por costureiras, alfaiates e técnicos de corte e modelagem. O número incluiu todas as peças usadas pelos Windsor.

Aos 70 anos, a designer britânica é versada em produções de época, sobretudo para televisão, numa carreira que arrancou há mais de quatro décadas. Em 2011, a série “A Família Bellamy” valeu-lhe uma nomeação para os Primetime Emmy Awards. Também na categoria de guarda-roupa, foi com “Oliver Twist” e com “A Rainha Virgem” que conquistou dois prémios BAFTA, em 2008 e em 2007, respetivamente. A primeira estatueta britânica a vir parar-lhe às mãos foi em 1984, com as produções “An Englishman Abroad” e “The Tale of Beatrix Potter”.

A carreira de Amy Roberts sobe agora uns quantos degraus de visibilidade. À sua frente, além de um desafio à altura do currículo, teve sempre dois caminhos — reproduzir os visuais exibidos publicamente pela realeza (e que, ao contrário dos diálogos palacianos, oferecem a infalível oportunidade de colar a obra ficcional à realidade) ou criar pequenas e subtis variações, enquadradas pelo contexto histórico e pela dimensão narrativa das personagens. A partir do momento em que assumiu o guarda-roupa de “The Crown”, uma das mais ambiciosas produções da Netflix, Roberts percebeu que teria de se equilibrar nos dois métodos.

Olivia Colman no papel de Isabel II e Tobias Menzies como príncipe Philip © Netflix

“Acho que existem momentos-chave em que tens de seguir os factos. As últimas duas temporadas estiveram muito semelhantes. Houve uma formalidade, na minha opinião, lindamente conseguida pela primeira designer. Mas também houve uma exatidão absoluta. Achei que, nesta série, era possível ir além disso”, referiu Amy Roberts.

Sobre o contacto direto com a protagonista, a designer ressalva o pouco interesse da atriz no guarda-roupa. Falamos da oscarizada Olivia Colman, que, aos 45 anos, interpreta o papel de Isabel II, entre os 38 e os 50 anos. “Ela é completamente instintiva”, confessou. “Nas provas, ela não quer saber qual a finalidade da roupa ou em que cena a vai usar. Não quer dizer que não se importa. Obviamente, importa-se. Simplesmente, não é um trabalho dela”, explicou Roberts ao Finantial Times. Ao contrário da Colman, Helena Bonham Carter envolve-se muito mais no tema, fazendo questões e alimentando a conversa com os aderecistas. É o lado mais visual de Bonham Carter, que agora veste a pele de Margaret.

O branco, o cintilante e o rural: a rainha de todas as cores

Voltamos ao mesmíssimo dia 1 de julho de 1969. Isabel II era uma rainha há mais de 15 anos no trono. Para a cerimónia de aclamação do Príncipe de Gales, vestiu-se de amarelo pálido. Na cabeça, um acessório que, nos dias de hoje, se tornaria viral. Um chapéu? Um elmo medieval? Na série, Roberts não hesitou em reproduzir o extravagante acessório, coberto de pérolas. A completar o conjunto, um guarda-chuva completamente coordenado com o vestido, hábito que, segundo já revelou Angela Kelly, a mulher que veste a rainha, é mantido até hoje.

Tons doces, leves e vibrantes, fatos de duas peças, os primeiros vestidos-casaco, uma boa dose de chapelaria criativa e a inabalável regra de vestir branco nos banquetes de estado — em traços gerais, foi esta a fórmula seguida ela responsável do guarda-roupa, moderada pelo protocolo, temperada pela silhueta em voga nos efervescentes anos 60. Na terceira temporada, a série recria momentos marcantes do reinado de Isabel II e, com eles, roupa que ficou para sempre no imaginário coletivo.

Isabel II após um espetáculo da Kwa Zulu Dance Company, na Royal Variety Performance, em novembro de 1975 © Hulton Archive/Getty Images

Em 1966, a rainha recebeu o rei da Bélgica no Palácio de Buckingham. À ocasião, Amy Roberts respondeu com um vestido estampado e com a faixa usada no ombro oposto. No mesmo ano, a monarca visitou Aberfan após o desabamento que matou mais de 100 crianças. Aqui, o chapéu de pelo e o casaco terracota foram praticamente decalcados das fotografias. Sem margem para variações, também a roupa usada por Isabel II no funeral de Winston Churchill, em janeiro de 1965, foi reproduzida ao detalhe na série. Fora de Londres, o drama ficcional continua a acompanhar a vida rural da rainha. À semelhança das temporadas anteriores, a vida em Balmoral, retiro favorito dos Windsor, faz-se acompanhar de saias de lã, muito xadrez, casacos robustos e lenços delicados.

A terceira temporada de “The Crown” avança pelos anos 70, década em que o guarda-roupa de Isabel II regista alguns dos seus momentos mais memoráveis. A rainha rende-se aos chapéus ao estilo touca cobertos de flores e pétalas, turbantes, padrões florais, vestidos de lantejoulas e estolas de pelo. Ainda sem certezas (até porque é sempre bom não exagerar nos spoilers), há momentos que poderão ou não estar incluídos na nova leva de episódios — a visita ao Canadá, em 1970, as bodas de prata, em 1972, a presença numa noite de antestreia em West End, em 1973, a visita ao México, em 1975, ou a visita à Finlândia, no ano seguinte.

Carlos, Anne e Margaret: a moda na família real

Josh O’Connor é o jovem Carlos, na passagem da adolescência para a idade adulta. Para a personagem, Amy Roberts elaborou um guarda-roupa, ora composto por fatos pesados e antiquados, impostos pelo peso da sucessão, ora pontuados pelos momentos ligados à prática desportiva, como se torna evidente nas partidas de polo. Camilla Shand surge na trama, interpretada por Emerald Fennell, no romper da década de 70 e, com ela, o maior desafio da figurinista, que chegou mesmo a admitir ter sido a personagem mais difícil de vestir — “uma miúda chique mas sem gosto”, “super confiante” e “o tipo de rapariga que não é bonita, mas que os homens adoram”, tudo palavras de Roberts. As saias curtas e os looks sem soutien foram algumas das opções tomadas para vestir a personagem na casa dos 20.

Josh O’Connor no papel de Príncipe de Gales © Netflix

Anne, a irmã mais nova do príncipe herdeiro, surge dividida entre um estilo mais rígido e tradicional de vestir e as tentadoras tendências dos anos 60 e 70, entre elas as go-go boots e as silhuetas em forma de A. Face ao conservadorismo dos vestidos, restou-lhe brincar com as cores — quase sempre bem vivas — e resumir arrojo a comprimento das bainhas. A personagem interpretada por Erin Doherty casa com Mark Phillips, em novembro de 1973. No verão de 1976, a princesa de 25 anos foi o primeiro membro da família real a competir nos Jogos Olímpicos. Em Montreal, montou o cavalo da rainha, mas trouxe nenhuma medalha para casa.

Margaret está, nesta terceira temporada, mais complexa do que nunca. A sua imagem é muito mais um produto da moda e das tendências do que a da sua irmã mais velha. Por um lado, a personagem de Helena Bonham Carter ganha vida com estampados exuberantes, decotes ao estilo Bardot e penteados inspirados por Audrey Hepburn. Mas a princesa também mostra um lado menos fulgurante em relação às temporadas anteriores. Amy Roberts fez com que isso se refletisse numa paleta de tons beringela, verdes azeitona e azuis petróleo. Margaret continua a ser a irmã rebelde e com estilo, embora sobre ela pesem as preocupações de um casamento conturbado.