Para um filme sobre um divórcio, “Marriage Story”, de Noah Baumbach, começa de forma estranha, com as duas personagens principais, Charlie, o marido (Adam Driver) e Nicole, a mulher (Scarlett Johansson) a fazerem uma lista das coisas que mais gostam um no outro. Dir-se-ia estarmos numa comédia romântica, mas é uma ilusão. Charlie e Nicole estão a fazer a lista para que o processo de divórcio possa começar de uma forma positiva. Mas nada feito, porque se eles a princípio decidiram separar-se amigavelmente, uma vez que os advogados entram em cena, o caldo está entornado. E o que podia ter sido uma rutura difícil, mas consensual – sobretudo porque têm um filho de oito anos, Henry (Azhy Robinson), e ambos querem que ele sinta o menos possível a separação dos pais – transforma-se numa batalha devastadoramente dolorosa.

[Veja o “trailer” de “Marriage Story”:]

Se “Marriage Story” fosse um filme de obediência #MeToo, Charlie seria apresentado como um crápula e Nicole como uma vítima. Mas Baumbach está a falar da vida real (o argumento é inspirado no seu divórcio da atriz Jennifer Jason Leigh) e era difícil ser mais justo e equilibrado com as suas personagens, ele um encenador de vanguarda novaiorquino em ascensão, ela uma atriz que abandonou uma carreira em Hollywood para trabalhar na companhia de teatro do marido. O título do filme está no singular, mas a história funciona no plural. Não há só uma narrativa, uma visão, uma verdade deste casamento que se desfaz, mas duas; a razão não está toda do lado de Charlie nem do de Nicole. Ambos têm motivos de queixa da relação e as suas razões para se separarem, e o realizador dá-lhes o mesmo tempo de antena. E não escolhe um lado, nem nos convida ou convence a fazê-lo. No fim, ninguém ganha, porque ambos perdem muito ao perderem-se um ao outro. “Marriage Story” é “no win/no win”. 

[Veja uma entrevista com Noah Baumbach:]

O diabo aqui são os advogados. Nicole é convencida pela família a contratar uma causídica especializada em divórcios, Nora (Laura Dern), uma rapace empática e atenciosa que usa vestidos justos, saltos altíssimos e manda bolachinhas às clientes. Charlie começa por contactar Jay (Ray Liotta), que cobra uma fortuna e tem ar de quem, além de divórcios, também trata de crimes de mafiosos. Depois opta por Bert (Alan Alda), que é muito mais barato e boa gente, já se separou quatro vezes e sabe do que fala, tem um gato e defende a dignidade e a humanidade das pessoas nestes cruéis casos de divórcio tal como acontecem na Califórnia. Só que Charlie percebe que Nora vai fazer picadinho deles, larga Bert e volta a Jay. É que precisa de um tubarão devorador, não de um ursinho conciliador.

[Veja uma entrevista com Scarlett Johansson:]

“Marriage Story” é também um filme sobre Nova Iorque contra Los Angeles, e o teatro “Off Broadway” contra Hollywood. Por se ter casado em Los Angeles, e a mulher e a família dela serem de lá, e Nicole e Henry se terem mudado para casa da mãe (Julie Hagerty), o caso tem que ser julgado num tribunal de Los Angeles. E assim o pobre Charlie tem de andar num virote entre Nova Iorque, onde tem uma companhia de teatro para gerir e uma peça para estrear, e Los Angeles, onde o divórcio está a decorrer e se vê obrigado a alugar um apartamento para poder estar com o filho. E o facto de Charlie ser um encenador  “intelectual”, que trabalha nas margens do teatro comercial, é depreciado pelo pessoal do cinema que rodeia Nicole, que entretanto arranjou um suculento papel no episódio-piloto de uma nova série de ficção científica (e que Baumbach, como bom realizador “indie” novaiorquino, ridiculariza).

[Veja uma entrevista com Adam Driver:]

O filme consegue mesclar comédia nas margens da farsa com a maior crueldade emocional, e Noah Baumbach faz com que estes dois tons se complementem de forma lógica e realista, em vez de se contradizerem. Uma das cenas mais cómicas do filme é aquela em que a atarantada irmã de Nicole, Cassie (a ótima Merritt Weaver, de “Unbelievable”), tem que entregar formalmente a Charlie os papéis do divórcio e mete os pés pelas mãos. E uma das mais terríveis é a que põe Charlie e Nicole frente-a-frente, numa escalada de brutalidade verbal, a dizerem as piores coisas um ao outro, para se magoarem até ao mais fundo do coração, enquanto percebemos perfeitamente que não sentem o que estão a dizer e que esta descontrolada dilaceração mútua é muito mais fruto da tensão e do desespero, do que de ódio real. Porque ainda há amor entre ambos e eles sabem-no.

[Veja uma cena de “Marriage Story”:]

Adam Driver e Scarlet Johansson são ambos extraordinários de verdade e visceralidade de sentimentos, fazendo-nos compreender Charlie e Nicole, interessar por ambos, ouvir as suas justificações para a separação e tentar perceber porque é que chegaram onde chegaram sem tomarmos partido por um ou por outro, antes lamentando que se separem e que o sistema legal os transforme em inimigos. Há muito tempo que Johansson não tinha um papel que puxasse pelas suas qualidades de atriz como este de “Marriage Story”. O que é mais um demérito para os filmes de super-heróis, que a têm reduzido a andar metida num uniforme “sexy”, a fazer carinhas e a envolver-se em batalhas apocalípticas ao lado do Capitão América e de Thor.