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Muito boa tarde, Filomena.
Olá, Rita.
Já sei que nos trazes boas notícias, mas também depende do ponto de vista, por acaso para mim até são boas. A chuva vai regressar a Portugal no próximo fim de semana?
Tudo indica que sim.
Não sei se acredito.
Tão vais começar a acreditar depois do que eu te vou dizer.
Conta.
Porque depois de vários dias desse tempo seco e dessas temperaturas muito acima do habitual para esta época, os modelos, todos eles, já coincidem e já mostram essa mudança no Atlântico. A primeira frente de chuva pode aproximar-se de Portugal por volta de quinta-feira, dia 5. Mas é depois, sobretudo na sexta, dia 6, e no domingo, dia 8, que a probabilidade de chuva aumenta e vai mesmo acontecer, porque isto já não há muitas dúvidas, já estamos muito perto, ainda que a três dias é que é garantido, mas estamos muito perto. E não estamos a falar apenas agora de uma mudança no céu, estamos mesmo a falar de uma mudança de alterações da circulação atmosférica e que poderá abrir o caminho à passagem de várias frentes, de várias depressões atlânticas, até mesmo da possibilidade de um comboio de tempestades.
Oh, céus! E essa chuva vem acompanhada de uma dessas tempestades?
Neste momento, há sinais de depressões muito ativas no Atlântico, mas é preciso distinguir dois momentos. O primeiro destes momentos é a aproximação de uma frente, que vem de uma dessas depressões, mas que não vai passar por aqui, traz só uma frente que nos atinge e que será entre os dias 5 e 6. Está associada, sim, a essas circulações de depressões no Atlântico. Depois, é o regresso da chuva, claro, embora a intensidade e a distribuição da precipitação ainda esteja por definir. O segundo momento, lá pelos dias 10 e 11 de novembro, o tal dia de São Martinho, apontam para a formação e um aprofundamento de uma depressão a oeste ou a sudeste da Madeira, com possibilidade de influenciar Portugal a partir do sul, portanto, a partir da região do Algarve e do Alentejo. A insistência, a intensidade e a trajetória desta segunda depressão ainda não estão oficialmente confirmadas. É preciso ver como é que vamos acompanhá-la, como é que se vai desenvolver. E aqui neste cenário, sim, estamos a falar de uma tempestade que atingirá diretamente Portugal.
E o frio também está a chegar?
Pois sim, senhora, as temperaturas vão descer, mas há situações diferentes também aqui. Em Portugal, a descida vai começar a notar-se a partir desta terça-feira, dia 3. Lisboa passa dos 26 °C de segunda-feira para 22 °C na terça e depois para 20 °C na quinta.
Ainda assim, não está mau.
Está ameno. Santarém vai descer dos 28 °C deste domingo para 21 °C na quinta. No interior Norte, Vila Real poderá passar dos 21 °C de domingo para 15 °C na terça e na quarta.
Aí sim, já se sente.
Já se sente.
Mas eles também já estão habituados.
Sim, mas na Europa vai ser muito diferente, porque os modelos estão todos a apontar para uma circulação capaz de transportar ar frio continental, ou seja, aquele ar frio que vem da Sibéria, que é aquele que até parece que se entranha nos ossos. Isto é tudo por causa de um bloqueio anticiclônico ali no Atlântico Norte e nas proximidades das Ilhas Britânicas, e o ar frio vem por aí abaixo.
As negociações de paz não estão a correr bem.
Não estão a correr bem. Não há ainda facilidade de perceber se toda essa mancha de ar frio vai chegar a Portugal. Normalmente, não chega, chega só aqui um bocadinho ao norte, mas ainda não é preciso dizer se vem cá chegar tudo ou se vem só apanhar ali o norte.
Ou a fronteira.
Sim.
Mais norte.
O que está muito definido é que o fim deste ar adicionalmente quente e o regresso das temperaturas mais próximas de novembro vai acontecer.
E o que é que se passa no Mediterrâneo?
Aí muita coisa, porque enquanto nós estamos com este tempo, mesmo assim está estável, o Mediterrâneo está uma confusão. Os mapas mostram várias depressões com chuva intensa entre Itália, os Balcãs, a Grécia e a Turquia. O caos. E também temos de acompanhar mais uma Dana prevista para a região da Catalunha neste fim de semana, com mais um episódio de chuva muito forte.
Isso é que é pior. E antes de tudo isso, como é que vai estar o tempo no fim de semana de Halloween e de Todos os Santos, portanto, já amanhã? Eu já sei, porque já estive aqui a dizer o tempo nestas últimas horas. Calor!
Vai continuar tempo seco, muito sol, temperaturas muito elevadas para o final de outubro e início de novembro. Ontem, por exemplo, bateu-se um recorde, bateu-se os 30 °C em Sabóia, Odemira, 30,4 °C.
Uau!
No sábado, dia 31, portanto, amanhã, estão previstos 27 °C em Santarém, Setúbal 26 °C, Lisboa e Portalegre 24 °C. Portanto, é simpático. Depois à noite vai ficar fresquinho, as bruxas têm de pôr aquela capa com capuz. No domingo, dia de Todos os Santos, Santarém também pode voltar aos 28 °C, Lisboa aos 26 °C, Setúbal aos 25 °C e Porto e Viana do Castelo aos 23 °C. As noites estão fresquinhas, já disse.
Acho que devíamos mudar o Carnaval para novembro.
Na sexta-feira, dia 30, há possibilidade de nevoeiro e nuvens baixas, amanhã, mas depois dissipam-se ao longo do dia. Eu disse sexta-feira? Não, era sábado.
É sábado. E na Madeira e nos Açores?
Sim, aí temos um fim de semana diferente, a Madeira, aliás, já está sob aviso amarelo por causa da chuva e probabilidade elevada de precipitação no sábado e no domingo. As máximas andam ali sempre temperadas, 23 °C, 24 °C. Nos Açores, há previsão de chuva e aguaceiros, mas o pior já passou.
E já agora, vamos agora ao fenômeno. O que é o vórtice polar e qual é a sua importância?
Vamos explicar isto bem, porque quem entre neste momento ou tenha o algoritmo nas redes sociais um pouquinho virado para as temperaturas e para estes fenômenos, vai lhe aparecer que o vórtice polar está a dividir, está a enfraquecer e que vem aí muito frio, vem aí um derrame de frio para a Europa. Todos os anos, quando o outono avança, nós começamos a ouvir falar de um gigante invisível sobre o Ártico, que é este vórtice polar. O que é isto? Uma tempestade, um furacão, o Super-Homem, uma massa de ar gelado prestes a cair sobre nós?
Isso não será, certamente.
Não.
Porque o furacão não bate assim.
Não. É mesmo uma enorme circulação de ventos que gira em torno da região polar, sobretudo durante o inverno.
E a que altitude está?
Tens de subir bastante na atmosfera. A camada onde vivemos, onde se formam as nuvens, a chuva, chama-se troposfera. Nas nossas latitudes, normalmente está a 10, 12 km de altitude. Por cima, começa a estratosfera, que se prolonga até aos 50 km. E é aí que encontramos o vórtice polar estratosférico. Costuma ser estudado normalmente aos 30 km, embora ele ocupe uma região mais extensa.
E a que velocidade é que gira? Já estou a perceber que gira. E a que velocidade?
No inverno, que é quando deve estar mais intenso, os ventos que circulam em torno do polo podem atingir velocidades entre os 100 e os 200 km/h e quando está muito intenso, pode passar os 300. Estamos a falar de uma circulação atmosférica gigantesca, não é de uma tempestade isolada, aquilo anda para cima e para baixo, muito à volta.
Mas não existe também uma corrente de jato polar?
Existe, e é importante não confundir as duas coisas, são muito diferentes. A corrente de jato polar é uma faixa de ventos muito fortes, circula bastante mais abaixo, entre os 9 e os 12 km de altitude, onde andam os aviões.
Era isso que eu te ia perguntar, onde é que andavam os aviões.
É nesta.
É na troposfera?
Não, é na do jato polar. Andam aqui.
Não é bom.
Aliás, a corrente do jato polar muitas vezes faz com que os aviões, o exemplo mais comum que se usa, que vai de Nova Iorque para Londres, ganhem às vezes mais de uma hora e antecipem a viagem mais de uma hora porque apanham esta corrente.
Ok, e muita turbulência à partida, ou não? Não necessariamente.
Depende, porque isto é um corredor de ventos, pode não fazer turbulência.
Ok.
Portanto, é ótimo. Esta corrente, o jato polar, anda nos 150 a 300 km, também pode chegar aos 400. Mas é ela que normalmente dirige, que faz as autoestradas para as tempestades, para as depressões, as frentes de chuva, as massas de ar frio ou ar quente. Quando faz grandes curvas para norte e para sul, altera profundamente o tempo numa determinada região.
E qual é a diferença essencial, então?
Um e outro? O vórtice polar estratosférico é uma circulação muito extensa, a grande altitude. Se organiza em torno do polo durante a estação fria. A corrente de jato polar está mais abaixo e é uma faixa de ventos mais concentrada, que influencia diretamente a trajetória dos sistemas meteorológicos.
Então, por que se forma o vórtice polar?
Durante o inverno, o Ártico passa longos períodos sem luz solar. O ar sobre a região polar arrefece muito, enquanto a atmosfera mais a sul fica mais quente, permanece mais quente. Essa diferença de temperaturas ajuda a criar os ventos fortes que circulam de oeste para leste. É como uma pista circular, sabes aquelas dos velocípedes, das bicicletas?
Sim.
Com vento que se a correr à volta dessa região mais fria do planeta.
E temos campeões portugueses.
Temos, sim senhora. É uma comparação simplificada, mas permite visualizar mais ou menos o fenômeno. É como se estivessem sempre a correr ali à volta.
E o que acontece quando enfraquece? Caem. Eu estava a pensar nos ciclistas.
É verdade, quando eles às vezes mudam a velocidade, caem, ou como um peão a girar, quando gira muito depressa, está sempre ali estável, quando começa depois a perder velocidade, começa a oscilar. O vórtice polar também pode perder a organização, deslocar-se para fora da região polar e dividir-se em dois centros. Só que não é um objeto circular, isto é uma circulação de ventos.
Então por que enfraquece?
Porque as grandes ondulações atmosféricas podem propagar-se desde as camadas mais baixas e perturbar a circulação em torno do polo. A temperatura da estratosfera polar sobe rapidamente em poucos dias e chama-se a isso aquecimento súbito estratosférico. E não significa que vá fazer calor à superfície. Estamos a falar de um aquecimento a dezenas e dezenas de quilómetros de altitude, mas nos episódios mais intensos, como um que parece estar a vir de forma muito extemporânea já em novembro, normalmente durante todo o inverno isto mantém-se quieto e muito regular. Neste momento parece estar a acontecer já. Estes ventos habituais do vórtice podem enfraquecer tanto que chegam até a inverter o sentido ou rodar em sentido contrário.
Eu espero que haja pássaros a ouvir este podcast, porque dá-nos imenso jeito saber essas coisas dos jatos e as correntes. E o que tem isso a ver com a corrente jato, lá está, e com o tempo?
Uma perturbação importante no vórtice lá em cima pode, em determinadas circunstâncias, influenciar gradualmente a circulação nas camadas inferiores. Essa influência pode alterar a posição ou as ondulações da corrente jato e, por consequência, os caminhos da distribuição e a distribuição do ar frio. Não acontece sempre, não acontece de forma imediata, mas pode acontecer.
Então o vórtice polar enfraquecido significa uma vaga de frio em Portugal?
Como diria o professor Marcelo, não e sim. Pode aumentar a probabilidade de alterações na circulação atmosférica durante as semanas seguintes, favorecendo descidas de ar frio em algumas regiões, quer da Europa, quer da América do Norte, quer da Ásia. Tudo depende sempre da posição dos anticiclones, das depressões e da corrente jato. Pode estar muito frio no centro da Europa, por exemplo, e Portugal continuar assim muito ameno. Os efeitos de uma perturbação deste gênero podem demorar semanas a manifestar-se na superfície ou acabar por nem ter relevância no nosso país. O que é preciso reter disso é que o vórtice polar estratosférico e a corrente jato polar não são a mesma coisa. Um circula muito mais alto, o outro está mais à superfície e assim influencia o nosso tempo, mas podem interagir. Um vórtice enfraquecido, no entanto, não significa automaticamente vento frio, nem chuva, nem tempestades em Portugal, e não o devemos associar a esta mudança de tempo que vem aí no dia 5 ou 6 de novembro.
Mas virá chuva. A partir de quarta-feira, vá?
Podes começar a não estender a roupa cá fora.
Não sei, só vendo. E agora vamos à curiosidade. Trazes-nos uma bela curiosidade. Sabiam que o Oceano Pacífico está a ficar mais azul?
Sim, mas não é boa.
Não pensei que fosse.
Porque nós quando pensamos no oceano, pensamos imediatamente na cor azul e há regiões do Pacífico que estão a ficar ainda mais azuis, e isso deve-se ao El Niño. Só que não é uma impressão de quem está a olhar para o mar e acha que está mais azul. A NASA consegue medir estas mudanças de cor do oceano a partir do espaço, por causa de um satélite que se chama Space, que foi lançado em 2024 e que consegue distinguir centenas de tonalidades da luz refletida pelo oceano.
Mas porque é que o mar muda de cor, então?
A resposta está nuns organismos que são pequenos, que não os conseguimos ver a olho nu. É o fitoplâncton.
Ia dizer Filoplâncton, porque era da tua família, não é?
Era o que eu ia dizer. São minúsculos seres vivos que flutuam na água e fazem fotossíntese, tal e qual como as plantas terrestres. Muitos contêm clorofila, é um pigmento que ajuda a dar os tons mais esverdeados à água.
E o que aconteceu durante o El Niño?
Em certas regiões do Pacífico Equatorial, os ventos habituais enfraquecem, sobe menos água fria das profundezas, e é essa água profunda que transporta os nutrientes essenciais para o fitoplâncton. Com menos nutrientes, há menos fitoplâncton junto à superfície. Com menos destes organismos, a água pode perder os tons verdes, fica mais azul. É um dos sinais que os satélites conseguem detetar durante o El Niño. E há aqui uma consequência muito importante, além da mudança de cor, porque o fitoplâncton está na base da cadeia alimentar dos peixinhos. O fitoplâncton alimenta outros organismos que servem de alimento aos peixes e a muitos outros animais. E quando este fitoplâncton diminui, tudo muda no ecossistema. Afeta a pesca, afeta a pescaria. E portanto, um oceano mais azul nem sempre é sinal de um oceano mais saudável. Às vezes é exatamente o contrário. Há menos vida microscópica a alimentar o resto do mar e consegues ver essas cores lá de cima do espaço. O oceano muda de cor, os satélites ajudam a perceber porquê e ficas a saber que o mar convém estar mais verdinho.
Portanto, era bom ver aquele verdete, não é?
É.
E fechamos por aqui ou ainda tens mais uma curiosidade? Não, por hoje é tudo. Temos então chuva a partir de quarta-feira, tempo muito quente até lá e depois logo se vê. Temos aqui sempre a Filomena Martins, de segunda a sexta, "Quente e Frio", disponível em podcast. Filomena, até segunda.
Até segunda.