A lista de capas de discos desenhadas por si é imensa. Foi autor das imagens que apresentaram aos colecionadores e ouvintes de música discos como Treasure dos Cocteaus Twins, Secrets of the Beehive de David Sylvian, Surfer Rosa e Doolittle dos The Pixies, The Serpent’s Egg dos Dead Can Dance, Last Splash das The Breeders, Ask Me Tomorrow dos Mojave 3, The Drift de Scott Walker, Return to Cookie Mountain dos TV on the Radio ou Crazy Clown Time de David Lynch.

Vaughan Oliver, designer britânico que trabalhou sobretudo para a editora discográfica que revolucionou o pop-rock alternativo e a música independente, 4AD — congregando talentos dos anos 1980 em diante, funcionando como selo que garantia o bom gosto dos álbuns editados e promovidos naquela casa —, morreu este domingo, com 62 anos. A notícia foi avançada por um colaborador antigo de Oliver, Adrian Shaughnessy, através da rede social Instagram. No post em que revelou a morte do antigo parceiro e amigo, Shaughnessy escreveu que Oliver morreu “com o seu companheiro Lee ao lado”, mas nenhuma causa de morte foi avançada, apontou o jornal britânico The Guardian.

Nascido no condado de Durham, em Inglaterra, tendo estudado design gráfico no Instituto Politécnico de Newcastle, Vaughan Oliver mudou-se para Londres no final dos anos 1970 e foi no início dos anos 1980 que se começou a evidenciar como designer. A primeira capa de disco que desenhou foi a de Mesh & Lace, álbum de estreia da banda britânica Modern English, editado numa companhia discográfica indie, a 4AD, que nascera no ano anterior — e que maneira mais ambiciosa de assinalar o primeiro ano de existência, 1980, do que apadrinhar o primeiro LP dos Bauhaus, In the Flat Field?

Uma das capas de disco mais conhecidas entre as desenhadas por Vaughan Oliver é esta, para o disco ‘Doolittle’, dos Pixies

A história de Vaughan Oliver não demoraria a começar a confundir-se com a história da própria editora britânica de discos idealizada e criada por Ivo Watts-Russel e Peter Kent. Depois de desenhar a sua primeira capa de um álbum, em 1980 — numa parceria com o fotógrafo Nigel Grierson que durou até 1988, levando-o a assinar os trabalhos até aí com o nome 23 Envelope —, o designer não demorou muito a tornar-se “o primeiro empregado a full-time” da editora de discos.

Dos anos 1980 em diante, Vaughan Oliver tornou-se o principal autor das capas de discos da editora britânica. Até há cerca de dez anos (até 2009) o mais provável é que quem entrasse numa loja de discos para comprar um álbum editado pela 4AD desse de caras com uma capa de disco feita pelo menos em parte por Oliver — nos últimos dez anos já desenhou capas de discos editados por exemplo na editora Bella Union e na Polyvinyl, tendo sido o autor das imagens dos últimos três álbuns dos Pixies, também lançados fora da 4AD. O último disco a ter na capa um trabalho de Oliver foi aliás da banda de Frank Black, Beneath the Eyrie, editado já este ano.

A última capa de um disco em que Vaughan Oliver trabalhou é esta, do álbum ‘Beneath the Eyrie’, lançado este ano pelos Pixies

Além dos discos mencionados anteriormente, Oliver foi o autor ou pelo menos um dos principais responsáveis por capas de álbuns da banda de rock Lush, do grupo norte-americano His Name is Alive, da banda The Psychedelic Furs, do grupo californiano Red House Painters, dos ingleses Bush ou dos This Mortal Coil.

Dizia — como lembra agora o Los Angeles Times — que entre as armas importantes “no arsenal de um designer” estavam “o mistério e a ambiguidade” e que o surrealismo servia-lhe para desenhar imagens que se elevassem acima da banalidade. Garantia que para fazer capas de discos inspirava-se quase sempre na música que neles ouvia, porque o objetivo era “tentar refletir a atmosférica da música” e a estética musical dos álbuns.

Mais uma das capas de discos desenhadas por Vaughan Oliver: neste caso para ‘The Serpent’s Egg’, dos Dead Can Dance

Vaughan Oliver chegou também a explicar que durante a sua carreira tentara que os ouvintes de música e colecionadores de discos pudessem encontrar nos seus desenhos “aspetos inesperados” e “uma identidade diferente em cada banda” — e até chegou a recordar, numa apresentação em palco, os tempos em que andar com um álbum de baixo do braço tinha “uma importância cultural e social”, em que aquilo que se ouvia era quase tão definidor de personalidade quanto o que se vestia. Esses anos, sobretudo as décadas de 1980 e 1990, tiveram como principal banda sonora alternativa os discos da 4AD para os quais Oliver desenhava às capas.

O prestígio no design valeu-lhe ainda exposições, uma condecoração como “Mestre das Artes” concedida pela Universidade (britânica) para as Artes Criativas — de que foi professor convidado —, livros publicados (o último dos quais Vaughan Oliver: Archive, uma antologia das suas obras artísticas) e trabalhos para clientes como a L’Oréal, os Jogos Olímpicos de 2012, a Microsoft, Sony e Harrods.

A capa do álbum ‘Blood’, dos This Mortal Coil, também da autoria de Vaughn Oliver

Na conta oficial de Instagram da editora 4AD, os responsáveis da editora escreveram uma mensagem na qual lamentam a morte do designer. “Não houver mais ninguém como ele. Sem o Vaughan, a 4AD não seria a 4AD e não é dizer pouco referir que o seu estilo ajudou a definir o design gráfico no final do século XX. (…) Deu, tanto a nós enquanto editora como aos nossos músicos, uma identidade e uma voz”.

Também John Darnielle, da banda The Mountain Goats, lembrou na rede social Twitter que o designer foi “uma parte indispensável na identidade da editora. Não há como contornar isso”.