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INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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“A Comporta será primeira habitação em cinco anos.” Dietrich Rogge, a vida em Portugal e o luxo das cabanas na natureza

O empresário alemão responsável pelo recém inaugurado Atlantic Club, com design de Jacques Grange, defende praias públicas, emprego local e uma Comporta que cresça "na direção certa".

O caminho de carro entre Lisboa e Comporta traduz um pouco do que o público internacional procura neste reduto da costa portuguesa. Se levámos quase trinta minutos para atravessar a Ponte Vasco da Gama, depois de passar pelo trânsito intenso da segunda circular, aos poucos a paisagem transforma-se. Retas completamente sem carros, cercadas por sobreiros ou campos de arrozais. Da loucura, para o silêncio. Dietrich Rogge chega poucos minutos depois do combinado, vindo direto de Lisboa. Desculpa-se pelo atraso com simpatia e apresenta-se pronunciando o nome com o sotaque alemão, o qual repetimos, e ele agradece “o esforço”. O aperto de mão formal é substituído por dois beijinhos e acenos calorosos direcionados aos poucos funcionários a trabalhar naquele momento na club house do Atlantic Club, um dos novos empreendimentos de luxo na Comporta, que abriu portas em abril, depois da primeira fase pronta — com 10 vilas, club house, ginásio e receção. A entrada tem ar de condomínio privado, enquanto nos bastidores a construção continua, com tipologias que vão de T4 a T8, na forma de cabanas modulares com piscinas privativas. Em até um ano e meio serão 24 vilas e os campos de ténis e padel, quando deve arrancar a terceira fase do complexo, avançando para o members club, o spa, a horta e o restaurante. Design, localização e serviços de luxo, com valores a partir dos quatro milhões de euros, e estadias de curta duração num valor a começar nos 13 mil euros.

O que mais difere o Atlantic Club dos outros empreendimentos que têm sido falados internacionalmente — com a presença de celebridades desde o príncipe Harry à ganhadora do Óscar Nicole Kidman — é o design fiel à tradição de décadas na Comporta. O conceito é de Dietrich Rogge, CEO da Rockstone, que investiu 150 milhões no projeto, tem outros dois empreendimentos a caminho em Melides, e investimentos em território nacional que devem ascender aos 250 milhões de euros nos próximos anos. Num fato escuro aberto com camisa branca, calças cáqui e mocassins sem meias, deixa à mostra várias pulseiras em couro e prata, e um estilo que — assim como o seu cumprimento ao chegar — transita naturalmente do escritório para a beira da praia. Mostra-nos uma das suas cabanas, com o estilo imortalizado no design de Jacques Grange e do conhecido paisagista norte-americano Madison Cox. O designer francês, garante Rogge, foi a “escolha perfeita”, e “o mais próximo que eu podia chegar de um dos ‘padrinhos’ do design da Comporta”, os quais considera serem Pedro Espírito Santo e Vera Iachia, os primos que há quarenta anos, inspirados pelo ambiente local, transformaram as próprias propriedades em cabanas de pescadores hippie-chic, com fachadas em caniço e telhados em colmo, e interiores recheados com tapetes marroquinos, móveis de madeira de Bali e têxteis estampados do Peru.

Foi a convite de Vera Iachia que Grange conheceu a região, há cerca de 40 anos — e também foram os Espírito Santo a receberem Rogge há aproximadamente 18 anos. “Sou pessoalmente muito grato, porque essencialmente abriram-me as portas a tudo o que passei a amar aqui em Portugal. Na verdade sou muito feliz por cada pessoa que conheci cá, porque esse foi o ponto de partida para tudo o que passei a desfrutar e a desenvolver”, diz-nos o empresário, licenciado em engenharia civil com mestrado no MIT e um percurso de duas décadas na gestão de empreendimentos imobiliários na Alemanha. Em 2013 fundou a promotora e desenvolvedora imobiliária Rockstone, que além da Alemanha e de Portugal, está presente em Espanha, Quénia e Etiópia.

▲ Dietrich Rogge divide o seu tempo privado entre o Estoril e a Comporta, onde também tem uma cabana tradicional do empreendimento

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

“Portugal é um país de navegadores que está a ser redescoberto pelo mundo”, assume, sobre o momento que o país vive. Considera mesmo que, com a vizinha Espanha, Portugal atravessa um “grande boom”. “Nos anos de 2010 a 2015 este era um país muito complicado. A Alemanha estava em forte crescimento, e isto provavelmente mostra que a vida tem sempre altos e baixos. Atualmente, o meu país de origem está a passar por uma fase muito difícil e, felizmente, Portugal e Espanha estão a ir muito bem”. Foi também o que o motivou a ultrapassar a complicação de transformar o destino de férias em local de trabalho — e fazer a casa de verão ser, afinal, só casa. Aposta que o interesse internacional na Comporta pode ter o mesmo comportamento: “Tornar-se-á uma primeira habitação, tanto como já é um destino de segunda habitação, dentro de cinco anos, não tenho dúvidas”.

Com os holofotes internacionais cada vez mais fortes sobre este destino da costa portuguesa, serão os futuros moradores, porventura, celebridades ao estilo Harry e Meghan? Rogge garante que estes são “uma parte muito pequena” da comunidade da zona, mas que mesmo as figuras públicas mais conhecidas ainda têm um perfil similar ao dos que há anos decidiram aqui viver. “O bonito é que as pessoas em geral vêm para cá porque gostam de ter uma vida privada, não são daquelas que querem ter uma vida ruidosa. Portanto, a Comporta é maravilhosamente auto-seletiva.” A privacidade de pessoas como o filho do Rei da Inglaterra não é garantida, contudo, por acessos privativos às praias, que Rogge defende serem “públicas” e pertencerem “ao povo”. Na visão do investidor, a Comporta “está a crescer na direção certa”, com a ressalva de que se deve “garantir que continua a ser um lugar para todos.” Aposta nos empregos gerados pelos novos empreendimentos da região e no desenvolvimento de infraestruturas que continuem a respeitar o ambiente para que a comunidade local e os novos residentes coexistam em harmonia. E para que o fluxo das metrópoles até às daybeds à beira da piscina na Comporta seja, cada vez mais, o “novo normal”.

Pode falar-nos sobre a sua primeira experiência em Portugal? Quando e como foi?
Vim pela primeira vez a Portugal há cerca de 18 anos, em 2008. O ponto de partida foi estar à procura de um novo local para ir de férias com a minha família. Tínhamos ido a muitos locais na Europa. Como sabe, sou alemão; fomos a França, fomos a Espanha. E percebi que a maioria destes locais para onde ia já recebia pessoas há muito tempo, eram muito conhecidos. Portanto, estava a tentar encontrar algo que não conhecesse e que a maioria das pessoas também não conhecesse tão bem. Perguntei a alguns amigos meus e eles deram-me algumas recomendações sobre países, regiões e cidades a visitar. Um amigo meu tinha um amigo português, que fez a recomendação: “Deves ir a Lisboa e, ao contrário de toda a gente que vai para o Algarve, ficar na costa atlântica. Vá para a zona à volta de Cascais e depois desça até à Comporta”. E foi assim que começou a minha relação de amor com Portugal e a Comporta.

Veio para Portugal, apaixonou-se, e depois?
Vim para cá de férias algumas vezes durante o verão. Fui apresentado a pessoas que se tornaram bons amigos meus, que viviam e ainda vivem na Comporta, pelos quais sou muito grato. Fazem parte da família Espírito Santo, à qual sou pessoalmente muito grato, porque essencialmente abriram-me as portas a tudo o que passei a amar aqui em Portugal — na verdade sou muito feliz por cada pessoa que conheci cá, porque esse foi o ponto de partida para tudo o que passei a desfrutar e a desenvolver cá. Digo desfrutar e trabalhar porque é a combinação de eu vir de férias, mas também eu ter sido sempre um promotor imobiliário e ter uma empresa de construção na Alemanha. Sempre evitei trabalhar onde vou de férias — é preciso pensar duas vezes, pode ser complicado; mas, a certa altura, a minha paixão por fazer projetos levou-me também a trabalhar efetivamente aqui. Portanto, esses 18 anos têm sido uma combinação de ter parte da minha vida privada aqui em Portugal, mas também passar a ser parte da minha vida profissional. E na verdade é ótimo ter ambas, porque em última análise é preciso ter um equilíbrio na vida.

O que o fez decidir mudar a sua vida para Portugal?
Viajo muito. O meu negócio é a Rockstone, e está em cinco países. Começou na Alemanha, está na Península Ibérica: temos escritórios aqui em Lisboa, e também em Madrid, em Espanha. E, para um alemão — um pouco invulgar e louco — também em África, na Etiópia e no Quénia, o que é outra história. Sou muito afortunado por estar tanto aqui em Lisboa como em Madrid neste momento porque, para ser claro, Portugal e Espanha estão atualmente a atravessar um grande boom. Estão a correr muito bem. O meu país de origem, a Alemanha, não tanto. Neste momento acontece exatamente o inverso de quando cheguei em 2008 e 2009. Sabe muito bem que nos anos de 2010 a 2015 este era um país muito complicado e a Alemanha estava em forte crescimento, e isto provavelmente mostra que a vida tem sempre altos e baixos. Atualmente, o meu país de origem, a Alemanha, está a passar por uma fase muito difícil e, felizmente, Portugal e Espanha estão a ir muito bem, o que me deixa muito feliz, porque eu já estava cá quando era muito difícil. Estão a correr bem as coisas agora e o mundo está a vir para cá. Uma frase que gosto por vezes de dizer é que, para mim, Portugal é um país de navegadores que está a ser redescoberto pelo mundo. É uma bela mistura, diria eu, que está a ser criada, o que me deixa muito feliz pelo país.

"As pessoas falam muito que a mudança é demasiado rápida; eu contestaria essa visão. Digo sempre que, se for à Comporta, há três acessos à praia: Comporta, Pego e Carvalhal. Havia dois restaurantes em cada uma há 18 anos; continuam a existir dois restaurantes em cada uma. Agora há outros problemas, de estacionamento, acessos e tudo isto — eu compreendo —, mas em última análise não há 16 ou 60 restaurantes agora, continuam a ser apenas seis. Portanto, acho que está a crescer na direção certa. Obviamente, é importante garantir que continua a ser um lugar para todos."
Dietrich Rogge

Pode descrever um pouco a infraestrutura que encontrou quando veio pela primeira vez à Comporta?
Especificamente quanto à Comporta, é como uma bênção e uma maldição. Digo sempre que procurava descobrir algo novo, um pouco de aventura, onde os meus pais e avós não tivessem estado. Era isso que procurava. Isso significa apaixonar-se por uma natureza intocada, pela beleza pura, mas também que faltam algumas coisas; por exemplo, infraestruturas: não se têm todos os hospitais ou todas as escolas. A vida não é perfeita, mas, para ser justo, normalmente apaixona-se pela imperfeição, porque essa é a beleza da terra. A beleza da terra é tão fenomenal na Comporta que acho que traz 90% das pessoas para cá e é por essa vertente que se apaixonam. Obviamente, faltavam infraestruturas e provavelmente ainda faltam, mas estão a melhorar substancialmente e acho que a um ritmo que também é o correto. As pessoas falam muito que a mudança é demasiado rápida; eu contestaria essa visão. Digo sempre que, se for à Comporta, há três acessos à praia: Comporta, Pego e Carvalhal. Havia dois restaurantes em cada uma há 18 anos; continuam a existir dois restaurantes em cada uma. Agora há outros problemas, de estacionamento, acessos e tudo isto — eu compreendo —, mas em última análise não há 16 ou 60 restaurantes agora, continuam a ser apenas seis. Portanto, acho que está a crescer na direção certa. Obviamente, é importante garantir que continua a ser um lugar para todos. Esse é um desafio que também precisa de ser superado, o que nem sempre é fácil, como sabemos, sendo igual em qualquer parte do mundo. Mas acho que é algo que ainda é gerível.

Esse é um assunto muito falado neste momento: a questão dos acessos às praias. Qual é a sua posição sobre o tema?
As praias são, com razão, públicas. Pertencem ao povo. Isto é óbvio, e é assim na maior parte da Europa, creio, e também em muitas partes do mundo. Penso que o problema é que o acesso à beleza e à paisagem se tornou cada vez mais difícil ao longo das décadas porque protegemos muito. Na verdade, a mudança de paradigma para a preservação ecológica criou também, não intencionalmente, alguns destes problemas, porque, com razão, não queremos de repente dizer que temos outros 10 acessos à praia porque queremos proteger e preservar as dunas. Portanto, há um conflito que não é facilmente resolúvel. E o passo seguinte é que toda a gente adora estas praias; e, se toda a gente adora, vivemos numa sociedade onde infelizmente os preços também aumentam até certo ponto. Mas é preciso encontrar um bom equilíbrio, obviamente. E a minha sensação é que as entidades públicas e os municípios com quem trabalhamos, especificamente aqui em Grândola, estão todos a tentar fazer um bom trabalho na gestão dessa mudança. Se fosse fácil… Mas estas coisas não são fáceis. Acho que estão todos geralmente a tentar gerir essa mudança para garantir que a Comporta continue a ser um lugar para os locais, para os pescadores locais, para os artesãos locais, para aqueles que vivem aqui há décadas, mas também para aqueles que chegam, investem dinheiro e, consequentemente, criam postos de trabalho. E penso que esse equilíbrio precisa de existir, essa mistura precisa de ser equilibrada, mas acho que todos estão a tentar de forma genuína.

Como menciona, antes dos grandes empreendimentos imobiliários começarem, existia e continua a existir uma comunidade. O que acha que os promotores podem fazer para melhorar a vida dos locais?
Acho que tudo começa por compreender e apreciar, como disse antes, que um dos ingredientes pelos quais as pessoas adoram vir é o habitat natural intocado, a beleza da natureza juntamente com a comunidade local e a cultura local. E a cultura local é não só o ambiente, mas as pessoas. A grande razão pela qual as pessoas adoram vir para cá é realmente o convívio com as pessoas, com os portugueses. Raras vezes vivi num país com pessoas tão bondosas e agradáveis de conviver como em Portugal. E esse também é o caso, obviamente, aqui na Comporta. E penso que é preciso estar disposto a conviver com a comunidade local. Pelo lado positivo, a maioria das pessoas que vêm para cá quer realmente conviver com os locais; por isso, provavelmente todos concordam que se quer envolver e manter aqui o máximo de pessoas possível. Especificamente, acho que é preciso garantir que, ao empregar pessoas, se tente empregar o máximo possível da comunidade local. E nós estamos a fazer isso nos nossos projetos, também aqui no Atlantic Club, por exemplo, onde tentamos empregar o máximo de locais possível e dar-lhes formação para funções nas quais provavelmente não trabalharam nos últimos 20 anos. Mas a postura, a simpatia e a disponibilidade para ser acolhedor — que a maioria aqui demonstra de forma admirável — valem mais do que tudo. E especificamente também patrocinamos atividades locais, como eventos culturais na Casa da Cultura todos os verões e trabalhamos em conjunto com a Fundação da Herdade da Comporta, para citar apenas algumas.

"A habitação a preços acessíveis é provavelmente a maior questão social da década no mundo ocidental. [...] Os promotores, o dinheiro, os investidores podem ajudar, mas também é preciso que existam as condições para que esses investimentos sejam rentáveis; caso contrário, não se pode esperar que os investidores resolvam um problema que é social — mais uma vez, cabe obviamente ao governo criar o enquadramento para a habitação."
Dietrich Rogge

Considerando a crise habitacional que se vive em Portugal, e que estes empreendimentos imobiliários são para clientes de luxo, de que forma os promotores também podem ajudar na questão da habitação para as pessoas que estão a trabalhar?
Acho que é preciso reconhecer que há uma crise de habitação na maioria das partes do mundo ocidental, e provavelmente até além do mundo ocidental. A maioria das pessoas muda-se para as cidades, que já não crescem tanto porque, essencialmente, quem tem uma casa nas cidades quer manter as cidades como estão, não quer que mudem muito. Isso cria um problema. Precisamos de mais habitação. Para criar mais habitação, é preciso haver o ambiente económico adequado para construir casas. E, como todos sabemos, existem atualmente fortes desafios para tornar possível a construção de novas casas. Ou é demasiado caro porque a inflação cria custos de construção elevados, ou a regulamentação torna muito difícil obter uma licença de construção, ou demora uma eternidade a obter um licenciamento. As restrições às rendas também dificultam, e com razão, a viabilidade de um modelo económico. E tudo isto é um problema que não existe de todo apenas em Portugal. Quer dizer, no meu país de origem, a Alemanha, é um enorme problema. Como sabe, na vizinha Espanha, o problema é semelhante; é literalmente em todo o lado. Precisa de ser resolvido. A habitação a preços acessíveis é provavelmente a maior questão social da década no mundo ocidental. Ter medo e não saber se tem um apartamento ou onde dormir é inaceitável para qualquer democracia. Agora, a culpa é de alguém? Não é culpa de ninguém em específico. Os promotores, o dinheiro, os investidores podem ajudar, mas também é preciso que existam as condições para que esses investimentos sejam rentáveis; caso contrário, não se pode esperar que os investidores resolvam um problema que é social — o que, mais uma vez, cabe obviamente ao governo criar o enquadramento para a habitação. A beleza da Europa e das cidades europeias, para alguém que viveu nos EUA e noutros lugares, é que todos, independentemente da sua origem, podem mais ou menos viver juntos nestas cidades, o que acho muito encantador. Noutras partes do mundo — EUA, Ásia ou noutros locais —, diria que normalmente está mais segregado quem vive onde. Isso é algo que precisamos de preservar e pelo qual precisamos de lutar, o que inclui, obviamente, resolver a questão da habitação. Mas tudo tem a ver com sermos capazes de construir mais e de ser também um investimento rentável.

Quando começou a trabalhar no conceito do Atlantic Club?
Na verdade, remonta um pouco à minha própria biografia pessoal. Tínhamos uma segunda casa em França e lembro-me perfeitamente do trabalho que dava. Era lindo ter, obviamente, mas também dá trabalho a pôr a funcionar e depois a fechar quando se parte. Por isso, o que me moveu no Atlantic Club foram realmente três coisas: apaixonei-me pela Comporta — pela paisagem, a comunidade, mas também pelo charme dos edifícios. Apaixonei-me pela cabana; acho que a cabana é uma tipologia de edifício tão bonita. Portanto, pensei: vamos manter o charme português, mas vamos fazer casas a sério, adicionar alguma qualidade de construção duradoura em termos de edificação. E o terceiro ingrediente é aquilo em que o mundo anglo-saxónico, o mundo norte-americano, é muito bom, que é organizar serviços e comodidades. Tornar confortável a posse de uma casa. É bom viver numa casa, mas não é assim tão confortável possuir uma casa, porque há bastantes coisas a fazer. E o que estamos a fazer aqui é essencialmente ter um pequeno clubhouse, empregamos funcionários que, de outra forma, o proprietário da casa teria de empregar, o que torna a casa fácil e agradável de viver.

O projeto de interiores é de Jacques Grange
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
O estilo mistura o minimalismo das paredes brancas com peças de mobiliário em materiais naturais e cor
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As peças de cerâmica são de Bela Silva
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Nas paredes, obras de José e Isabel Canudo
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Pode falar sobre a escolha de Jacques Grange para o projeto?
Como disse, o estilo das cabanas são a chave do que amo aqui. E analisei muito cuidadosamente o motivo pelo qual a Comporta é um sucesso. Além da paisagem, também a família que começou a Comporta, os Espírito Santo, há muito tempo, há 30 ou 40 anos, que trouxe personalidades muito interessantes de todo o mundo, muitas delas do mundo do design. Poderíamos nomear muitas delas; uma foi Jacques Grange. Mas também há duas a nomear da família deles, que são Pedro Espírito Santo e Vera Iachia. Quero nomear os três porque tive a sorte de os ter conhecido. Infelizmente, o Pedro e a Vera já tinham falecido na altura em que comprei a propriedade aqui. E o Jacques foi a minha escolha perfeita porque trabalhou com a Vera, e ela apresentou-lhe a Comporta há provavelmente 40 anos. Portanto, ele é o mais próximo que eu podia chegar de um dos “padrinhos” do design da Comporta. E como ele é uma figura internacional, quando comprei o terreno abordei-o e perguntei: “Veja, vive aqui perto, adoraria construir uma homenagem ao estilo de vida clássico da Comporta com uma aldeia de cabanas assim aqui, e adoraria que trabalhasse comigo”. E, num tom divertido, também lhe disse: “E se ainda não está convencido porque não me conhece, devia estar, porque precisa de proteger o seu quintal; afinal, quem sabe o que aconteceria se fosse outra pessoa a realizar o projeto?” E ele riu-se para mim e disse: “Vamos fazer isto juntos”. Sou um afortunado por ele o ter feito, e tem sido uma história de amor fazer este projeto com ele. E ele também trouxe a bordo — o que é igualmente importante — no lado do paisagismo, Madison Cox. Porque o estilo de vida da Comporta e o estilo de vida português, diria eu, é viver ao ar livre. E o paisagismo, os jardins e a ligação com a natureza é o que é tão fulcral.

Apresentou-lhes algum tipo de referências sobre o tipo de casa que estava à espera?
Na verdade não. O Jacques Grange vive numa cabana linda aqui na Comporta. Almocei na casa dele e disse apenas: “Adoro isto, vamos repetir, mas ali”. É tão simples quanto isto. E por vezes as histórias mais convincentes da vida são simples. “Adoro a forma como vivem aqui, gostaria de fazer isto, talvez com uma qualidade de construção mais duradoura, e precisamos de adicionar serviços em redor”. Tão simples quanto isto.

Como inseriu outros pormenores portugueses no projeto?
Portugal tem a tradição de ofícios e artesanato, desde o trabalho em artigos de pele, os azulejos, a cerâmica… Portanto, há uma abundância de materiais que usamos no nosso projeto aqui na Comporta: os telhados de colmo, o caniço… Tudo isto é material local. E na verdade também alimenta muito aquilo que é extremamente importante para mim enquanto promotor oriundo do Norte da Europa — onde sinto que é ainda mais importante do que no Sul da Europa —, que é criar projetos sustentáveis. Temos aqui um certificado LEED, que é um certificado de energia e sustentabilidade. E um dos fatores fundamentais é querer usar o máximo possível de materiais locais, porque se cria menos CO2 — conduz-se menos e mantêm-se onde estão. Portanto, uma grande percentagem dos materiais que vê aqui são na verdade material local português, o que é fundamental para construir um projeto sustentável, por oposição a importá-lo de, não sei, do Sudeste Asiático ou de outro lugar qualquer.

Também tem uma casa no empreendimento. Como divide a sua rotina para passar também algum tempo aqui?
Tento obviamente estar aqui o máximo que posso. Acho que um aspeto que adoro na Comporta é estar tão perto de Lisboa. Porque é lá que fica o nosso escritório onde preciso de gerir as minhas equipas, e também preciso de voar muito, porque vou a Madrid, à Alemanha, etc. Portanto, a proximidade de uma grande cidade e de um aeroporto é fundamental para mim. Penso que essa é outra camada e ingrediente do que torna a Comporta tão bem-sucedida. A uma hora de distância de uma capital, na maioria dos países do mundo, é uma deslocação diária. Se perguntar às pessoas em Nova Iorque, Mumbai ou noutros lugares, uma hora é o que fazem diariamente. Portanto, a Comporta tornar-se-á uma primeira habitação, tanto como já é um destino de segunda habitação, dentro de cinco anos, não tenho dúvidas. Obviamente é sempre um vai e vem, mas é uma deslocação muito fácil.

Quando está cá, qual é a sua rotina diária?
Um dos meus locais favoritos em qualquer uma destas casas aqui são as daybeds ao ar livre, perto das fachadas. Essas peças enormes de almofadas onde nos deitamos, seja de manhã ou ao pôr do sol. O que adoro aqui na Comporta é acordar bastante cedo e ir logo para a praia. Sabemos que de qualquer forma há muito pouca gente na praia aqui, mas de manhã, às 7 ou 8 horas, não está ninguém. Ir à praia, dar um mergulho no oceano incrível, voltar, tomar o pequeno-almoço, e depois normalmente jogar uma partida de ténis, padel ou golfe. É assim que normalmente começa, com um belo e longo pequeno-almoço a seguir com a família e os filhos.

Tem algum detalhe na sua casa que tenha trazido para a tornar mais acolhedora? 
Acho que a forma como alguém vive mostra também como a pessoa é, por assim dizer. E acho que o que adoro nos interiores e na decoração é que essencialmente refletem a nossa personalidade — não apenas o gosto, mas realmente a personalidade. Uma peça que coleciono há muitos anos, por exemplo, são mapas. Adoro geografia. Em criança, lembro-me de os meus avós me terem dado um mapa do mundo que estava pendurado por cima da minha cama quando ia dormir. Normalmente ficava a olhar para ele durante mais de uma hora. E ficava tão intrigado… Quanto mais tempo olhava, mais encontrava um pequeno pormenor que parecia representar um sonho ou uma história a inspirar. Por isso adoro colecionar mapas. Tenho mapas lindos da Península Ibérica, Espanha, Portugal, e também partes de toda a região desde Lisboa até à Arrábida, Caparica e aqui até à Comporta. Acho também que, se se olhar num mapa, é visualmente muito bonito com todas estas camadas de linhas de costa.

▲ As peças de mobiliário também são criadas por Jacques Grange

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Quando diz que a Comporta vai ser um destino de primeira habitação em cinco anos, qual é a sua visão sobre o interesse cada vez maior de celebridades internacionais? A Comporta poderá perder o charme associado à privacidade e à natureza?
Acho que continua a ser absolutamente privada da forma que se esperaria. Sim, estas pessoas aparentemente estão aqui, o que é lindo e ótimo — têm de ir para algum lado, por que não haveriam de vir para cá, certo? Mas o interessante é que pouquíssimas pessoas as viram. Portanto, ou não estão aqui ou são muito privadas. Seja o que for, é bom para a região, diria eu.

No último verão Harry e Meghan estiveram cá, por exemplo.
Bem, eu não vi a Meghan e o Harry, por exemplo; provavelmente vi alguns outros famosos. Mas o bonito é que as pessoas em geral vêm para cá porque gostam de ter uma vida privada, não são daquelas que querem ter uma vida ruidosa. Portanto, a Comporta é maravilhosamente auto-seletiva. Porque não é do tipo “onde é a próxima grande festa?”. Se não conseguirem reconectar-se com a natureza, desacelerar, ficarem quietas por um minuto, as pessoas normalmente não ficam. É uma sorte e uma bênção para a Comporta que venham pessoas interessantes, apesar de ser apenas uma parte muito pequena da comunidade aqui. Nenhum dos nomes que provavelmente está a pensar gera reações do tipo “gostava que não estivessem aqui”, o que é bom de dizer.

As pessoas que têm procurado o Atlantic Club têm algum perfil específico?
Portugal é um dos poucos países europeus onde se têm pessoas a vir igualmente da Europa, América do Norte, América do Sul e até de África. Isso não existe com frequência. Provavelmente não me saberia dizer outros dois países na Europa onde essa mistura seja a mesma. Há exemplos em Espanha e provavelmente no Algarve, onde duas ou três nacionalidades normalmente dominam o grupo, o que é normal, porque a maioria dos seres humanos gosta de seguir os seus iguais e ficar entre si. Pessoalmente, adoro que esta seja uma comunidade de cidadãos globais, diria eu, muitos dos quais viram o mundo bastante extensivamente. Viram a maior parte dos continentes e concordam que este é um lugar muito especial. Portanto, provavelmente também gostam de o preservar. Acabámos por estabelecer uma regra engraçada de forma espontânea — surgiu sem planeamento, mas fomos capazes de a manter —, segundo a qual, no caso deste projeto onde nos encontramos, temos “um país, uma casa”. Ao contrário do que se possa pensar, de serem só alemães, só portugueses ou só britânicos, é toda a diversidade da Europa, América do Norte, América do Sul.

A procura pelos arrendamentos de curta duração também segue esta “regra”?
Segue. Isso é algo que eu aprendi estando aqui em Portugal no imobiliário: o mercado é também regulado pela legislação do turismo. Porque se quer garantir que, ao construir, também são criados postos de trabalho, especialmente no setor da hotelaria. Ao contrário de talvez outras pessoas, sou fã de grande parte da regulamentação do turismo que encontro aqui, porque o mundo também procura um mercado imobiliário que seja gerido. É preciso criar comodidades, ter quem ajude as pessoas a alcançarem o estilo de vida que querem. É o que estamos a fazer aqui, para que as pessoas possam usar as suas casas um pouco em modo plug and play: chegam e podem ligar e pedir para encher o frigorífico, ou outras pequenas comodidades da vida. Não é enormemente complicado. Teríamos sempre um sorriso no rosto se pudéssemos ligar a alguém e dizer “podia encher-me o frigorífico com os seguintes artigos numa tarde de sexta-feira antes de eu chegar a casa de uma semana cansativa?”. É agradável, e já agora, não precisa de custar uma fortuna. Paga-se por isso, mas depois é como ir ao supermercado, só que alguém o faz por nós e paga-se um pouco mais — esse é um dos serviços. E é tudo igual do lado do arrendamento, por isso a comunidade que nos procura também acaba por ser tão internacional quanto os proprietários.

▲ O paisagismo é do conhecido designer norte-americano Madison Cox, que se casou com Pierre Bergé em 2017 e é presidente da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Tem mais investimentos preparados para Portugal?
Temos sim. Como disse antes, na Rockstone temos os nossos três escritórios na Alemanha, temos dois em África, abrimos o escritório de Lisboa provavelmente por volta de 2019 e abrimos Madrid por volta de 2022 — ou seja, antes e depois do COVID —, e desde então adquirimos uma série de projetos em Portugal, maioritariamente na zona de Lisboa, seja na área de Cascais e Estoril ou aqui na área da Comporta e Melides. Muito especificamente aqui na área de Comporta e Melides, ao lado do Atlantic Club, temos outros dois grandes projetos na área de Melides, com cerca de 60 e 20 hectares cada. Um pouco mais acima nas montanhas, ao contrário do Atlantic Club, que fica a uma curta distância a pé da praia. Esses projetos ficam nas belas colinas acima de Melides, com vista para o teatro da natureza e o oceano ao redor.

E vão continuar a manter o conceito no que toca ao design?
Pessoalmente, a minha visão é que a cabana é muito Comporta. Por isso, acredito que Melides tem uma arquitetura e uma tipologia diferentes. Onde se pode estar nas montanhas cercado por pinheiros majestosos, etc. Há ótima arquitetura moderna em Portugal. Há obviamente a tradição da casa revestida. Mas acredito que Melides pode absolutamente dar resposta a uma abordagem mais moderna da arquitetura que seja genuína para aquela localização, do mesmo modo que a cabana é para mim tão genuína para a Comporta.

Vai manter os designers franceses?
Não necessariamente. Adoro os franceses e eles foram pioneiros a vir para Portugal e para a Comporta, mas o mundo da arquitetura tem tanto talento espalhado pelo mundo — certamente no meu país de origem, a Alemanha; os americanos têm arquitetos incríveis e, por fim mas não menos importante, os portugueses têm arquitetos premiados, por isso estou muito ansioso por trabalhar em conjunto com alguns deles.

Tem também uma casa no Estoril.
Exatamente. Também há uma casa no Estoril e também viajo muito para Munique. Por isso o meu tempo está um pouco dividido, maioritariamente entre o Estoril e a Comporta, onde vivo com a minha família, e também Munique, onde também vive uma das minhas filhas.

"Acho que aqui as pessoas não se gabam nem levam o marketing demasiado a sério, como noutros países que dizem 'somos os melhores nisto e naquilo'; o que na verdade é bonito, porque chegamos e percebemos 'isto é muito melhor do que eu pensava ou esperava'."
Dietrich Rogge

Quando não está a trabalhar, como é o seu estilo de vida em Lisboa? O que gosta, por exemplo, a nível gastronómico?
Passo muito tempo entre o Estoril e a Comporta, mas também vou muito a Lisboa. Adoro a simplicidade, mas a frescura e o sabor maravilhoso da comida portuguesa, devo dizer. A simplicidade de um robalo grelhado, arroz e legumes; obviamente todos os mariscos; adoro as amêijoas e tudo o que as rodeia. Mas também sou um grande fã do prego, que é algo maravilhoso, ou o arroz de pato. Provavelmente vou ao restaurante do hotel Tivoli há 18 anos para comer o bife tártaro. Quero dizer, os seres humanos adoram repetir certas coisas porque lhes recordam momentos bonitos. Adoro doces, por isso os pastéis de nata e todos os seus amigos, vizinhos, irmãos e irmãs são a minha família. A comida em geral, eu diria que é algo que é outra peça daquilo que provavelmente, como nota final, torna Portugal em geral tão bem-sucedido: é o facto de entregar mais do que promete. Acho que aqui as pessoas não se gabam nem levam o marketing demasiado a sério, como noutros países que dizem “somos os melhores nisto e naquilo”; o que na verdade é bonito, porque chegamos e percebemos “isto é muito melhor do que eu pensava ou esperava”. Incluindo os vinhos — diria que os vinhos portugueses são provavelmente a melhor relação qualidade-preço no mundo neste momento. Adoro principalmente os vinhos tintos portugueses, do Douro ao Alentejo, e tudo pelo meio, desde que o meu estilo de vida a conduzir o permita.

E quanto aos desportos ao ar livre — é verdade que pratica surf?
Pratico um pouco de surf. Adoro desporto, mas também tenho de falar honestamente: provavelmente tenho muito mais talento nos braços do que nas pernas. Talvez por ser alto. Por isso é que o ténis e o golfe são mais fáceis para mim do que o surf. Mas é impressionante o tipo de atividades que se podem ter aqui em Portugal. E uma das coisas que realmente me impressionou ao longo destes últimos 18 anos estando aqui é que o clima ajuda muito a passar a maior parte do ano ao ar livre, o que é um verdadeiro luxo. Acho que agora o mundo inteiro está a acordar para compreender essa beleza.

Menciona o golfe e o ténis, é o que costuma praticar no tempo livre no Estoril?
Sim, é isso mesmo. Acho que quanto mais velho se fica — embora ainda não seja velho, espero eu —, percebe-se que é a única coisa que se pode fazer para sempre. É grátis, gera endorfinas e energia positiva, faça-se o que se fizer. Como viajo muito, também pratico corrida, porque cabe na minha mala onde quer que vá. E estou muito feliz por haver uma bela tradição de desportos de raquete na Comporta. Sinto-me honrado e grato por ser convidado para alguns dos torneios privados aqui na Comporta, onde me perceciono como sendo um dos únicos não portugueses a ser convidado.

Portanto, tem a oportunidade de praticar o português.
Estou a tentar, estou a aprender. Comecei com a desculpa de dizer que os portugueses são tão bons em inglês que torna difícil, o que não é uma boa desculpa, mas ainda a uso por vezes. Mas comecei a aprender, a ter aulas, e para ser justo, é em última análise uma questão de respeito, quando se vive num país, ser-se capaz de falar a sua língua. Por isso estou nisso e estou a melhorar de dia para dia. Para já, fico apenas no “muito obrigado”.

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