“Temos expectativas elevadas e não temos medo delas, embora todos saibamos que o sofrimento é maior quando as expectativas são exageradas e as coisas não correm bem. Temos de ser valentes e fazer com que essa expectativa seja positiva para nós e, depois, teremos o resultado que merecemos”. Na fase final de preparação para o Europeu, que começou com um estágio em Rio Maior, Paulo Pereira era um treinador confiante nas capacidades de Portugal mesmo sabendo que marcaria presença numa espécie de “grupo da morte”. E tinha razões para isso.

Numa exibição que em alguns pontos roçou a perfeição, com Quintana a encher a baliza com 31% de defesas (fora as ocasiões em que conseguiu quase “assustar” os adversários), Portugal voltou a repetir a surpresa frente à França que já acontecera na fase de qualificação e venceu por 28-25, naquele que foi o encontro da primeira jornada do Campeonato da Europa que mais atenções prendeu. Quando se pensava que a segunda partida com a Bósnia seria quase uma “consolação” num grupo dominado por gauleses e Noruega, a Seleção partia numa posição privilegiada para fazer história. Mais história. E bastava ver as participações anteriores para se perceber isso.

Portugal estreou-se numa fase final de um Campeonato da Europa e como país organizador em 1994, numa competição entre Porto e Almada onde perdeu os cinco jogos realizados (Dinamarca, 24-17; Espanha, 24-18; Hungria, 19-18, Suécia, 26-21; e Eslovénia, 23-22). Em 2000, na melhor presença de sempre (na Croácia, que acabou com um sétimo lugar), a Seleção começou a ganhar à Eslovénia (28-27) e à Islândia (28-25), perdendo de seguida com Suécia (29-21), Rússia (24-20) e Dinamarca (28-26), antes de vencer ainda a Noruega (30-27). Em 2002, na Suécia, a vitória com Israel logo a abrir (26-15) permitiu chegar à segunda fase apesar dos desaires com Dinamarca (27-20) e Rússia (28-19), onde Portugal ganhou à Ucrânia (28-23) e perdeu com a Suécia (27-22) e com a Rep. Checa (29-27). Em 2004, na Eslovénia, as derrotas com Dinamarca (36-32) e Espanha (33-27) traçaram a eliminação antes do empate com a Croácia (32-32). Por fim, na última presença antes de 2020, a Seleção averbou três desaires com Croácia (24-21), Rússia (35-32) e Noruega (37-27) na Suíça.

Contas feitas, Portugal somava apenas cinco triunfos e um empate em 23 encontros. Com a França, alcançou a sexta vitória contra o adversário mais forte em termos históricos que ultrapassara. Com a estreante Bósnia, novo sucesso daria a passagem de forma automática caso os gauleses não conseguissem vencer a anfitriã Noruega (o que aconteceu) e da parte da Seleção a possibilidade não foi enjeitada, com novo triunfo por 27-24.

Com algumas alterações iniciais, Paulo Pereira mostrou na primeira parte a força do coletivo nacional através das apostas iniciais em comparação com o jogo inicial: no plano ofensivo, o central Rui Silva e o pivô Alexis Borges foram os únicos jogadores que se mantiveram, alinhando agora com os pontas António Areia e Fábio Vidrago e os laterais Alexandre Cavalcanti e Belone Moreira de início. E depois de um arranque equilibrado e com vantagens máximas de apenas um golo, um parcial de 3-0 alcançando com dois ataques rápidos de João Ferraz depois boas situações defensivas deram um avanço de três golos com que se chegaria aos 15 minutos iniciais (8-5).

O encontro entrou depois na toada do “golo cá, golo lá” até à recuperação da Bósnia, aproveitando alguns erros do ataque nacional para empatar o encontro a dez antes de Paulo Pereira usar a sua pausa técnica. Que, tal como no jogo com a França, funcionou: Portugal voltou a assumir o comando e chegou ao intervalo a ganhar por 12-11, apesar de ter marcado apenas dois golos contra quatro do adversário nos últimos dez minutos. António Areia, com três golos de sete metros, era o melhor marcador da equipa e do jogo, a par de Panic, num jogo equilibrado quer na eficácia de remate (55%-52%), quer no número de turnovers cometidos (4-3).

No segundo tempo, a Bósnia até começou melhor e passou para a frente, fruto não só da melhoria defensiva do seu 6:0 como das combinações ofensivas com 7×6 que criaram dificuldades ao conjunto nacional mas mais uma paragem de Paulo Pereira acabou por inverter em definitivo o rumo da partida, com Portugal a apostar no 7×6 para empatar o encontro e mais tarde nos ataques rápidos após defesa de Quintana (que terminou a partida com uma eficácia de defesas de 36%) ou roubos de bola para se distanciar em definitivo no marcador, entrando nos cinco minutos finais com um avanço de quatro golos (25-21) com Pedro Portela, jogador que atua hoje na liga francesa, a ser o grande destaque no plano ofensivo (dez golos) apesar da boa reação da equipa bósnia nos instantes finais que colocou o jogo a dois golos de diferença (26-24).

A Seleção Nacional, que soma por triunfos os dois jogos realizados, ficou à espera do resultado entre Noruega e França para saber se tinha já assegurada passagem à fase seguinte, algo que se confirmou depois de nova derrota dos gauleses (28-26) que ficaram já eliminados. Na terça-feira (19h30), Portugal volta a entrar em campo para defrontar precisamente a equipa anfitriã norueguesa em Trondheim, numa partida que em caso de triunfo dará o primeiro lugar do grupo D ao conjunto nacional, que parte ainda assim como outsider contra os visitados.