Começa na segunda-feira e prolonga-se até inícios de março a rodagem de “Bem Bom”, filme e série com base na história das Doce, o quarteto feminino que marcou a música portuguesa na primeira metade da década de 1980. A realização é de Patrícia Sequeira, o argumento pertence a Filipa Martins e a Cucha Carvalheiro, com consultoria histórica de Helena Matos, sendo a produção assegurada pela Santa Rita Filmes, empresa de que Patrícia Sequeira é diretora criativa.

O filme terá pouco mais de 100 minutos e estreia-se nas salas a 25 de junho, estando prevista a exibição na RTP1 no último trimestre de 2021. Quanto à série, estará dividida em sete capítulos e será uma das estreias da rentrée da estação pública a partir de setembro. O filme e a série terão ângulos “completamente diferentes”, disse a realizadora ao Observador, e abrangem apenas o período de 1979, ano da criação das Doce, e 1982, quando venceram o Festival da Canção.

No filme vamos ver a história de superação de uma banda de quatro mulheres, os altos e baixos, o preconceito, as difamações de que foram alvo, as grande vitórias e derrotas”, explicou Patrícia Sequeira. “Quanto à série, vai entrar na vida de cada uma das artistas, olhar as relações com os homens, a crueza da vida das artistas fora do palco. Foram quatro mulheres extraordinárias que ousaram desafiar o Portugal daquela altura.”

“Bem Bom” vai buscar título à canção homónima que as Doce levaram ao festival da Canção da RTP em 1982 e que representou Portugal no Festival da Eurovisão daquele ano — um tema escrito por Tozé Brito, António Pinho e Pedro Brito. De resto, foi Tozé Brito o mentor da banda, em 1979, a primeira girl band portuguesa, como hoje é conhecida, composta por Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo, que se manteve no ativo até 1987, alcançando enorme êxito popular. “Amanhã de Manhã” (1980) e “É Demais” (1981) foram outras canções que marcaram a época.

A apresentação do projeto à imprensa decorreu nesta quinta-feira à tarde numa sala de concertos da zona do Beato, em Lisboa, com a presença do elenco e das equipas. O nome das atrizes que fazem o papel de Doce foi revelado pela primeira vez. Juntas em palco, interpretaram “Bem Bom” e “É Demais”, demonstrando que no filme e na série serão as vozes delas a fazer reviver os êxitos da Doce e não as gravações originais, que apenas surgem em excertos com base em imagens de arquivo da RTP.

O elenco é composto por Bárbara Branco (Fátima Padinha), Lia Carvalho (Teresa Miguel), Ana Marta Ferreira (Laura Diogo) e Carolina Carvalho (Lena Coelho). Foram escolhidas através de um casting em abril do ano passado a que compareceram 84 atrizes. Os atores Nuno Nolasco e Eduardo Breda vão fazer respetivamente de José Carlos, o estilista que vestia as Doce, e de Tozé Brito, o mentor da banda.

Ana Marta Ferreira explicou que Laura Diogo já não vive em Portugal há muitos anos (está nos EUA), mas tiveram oportunidade de a conhecer pessoalmente. “Acho que ela está feliz com este projeto, porque vamos mostrar um lado das Doce que ninguém conhece na verdade.” Bárbara Branco acrescentou que os ensaios decorreram durante dois meses, até ao Natal, e que tem sido “um processo muito intenso, uma construção muito profunda”.

Sonho com este projeto desde há três anos, ou talvez desde criança, porque tudo isto me remete para uma memória feliz. Foi esse o ponto de partida: lembro-me de cantar e dançar, de imitar as coreografias das Doce e acho que todos as associamos as memórias felizes e de festa”, disse Patrícia Sequeira nesta quinta-feira, perante os jornalistas. “À medida que fui conhecendo as verdadeiras Doce, e falando com cada uma delas, percebi a dimensão humana que havia nesta história. Por isso, isto é já muito mais do que a memória de infância, é matéria humana, mostra o outro lado da fama.”

Segundo Patrícia Sequeira, a “ideia estética” por detrás de “Bem Bom” não é tanto o revivalismo, mas “fazer um trabalho intemporal”. “Se as Doce originais fossem hoje subir a um palco para serem filmadas com os meios técnicos que temos ao dispor, seriam ainda mais estrelas. É a isso que chamo intemporalidade. Quero fazer um filme e uma série que não cheiram a mofo, que não retratam os anos 80 no seu pior, mas naquilo que ele tem de mais vistoso e que está aí hoje outra vez nas lojas, nas tendências da moda, nos cabelos”.

Em conversa com o Observador, a realizadora classificou 2020 como “o ano Doce”, referindo-se à estreia do filme e da série, mas também ao projeto musical paralelo que nascerá a partir dos dois objetos audiovisuais. As canções terão uma roupagem atualizada, em busca do som original, e serão “apresentadas ao vivo como forma de promoção do filme e da série”, disse. “Eu tenho vontade, as atrizes também, e há um movimento muito intenso para que sejam feitos espetáculos ao vivo”, acrescentou.

O projeto candidatou-se em 2018 a um apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual no valor de 500 mil euros, que não foi aprovado. Em fevereiro do ano passado, a RTP tinha adiantado que uma das séries que estavam em preparação iria ser sobre o grupo musical Doce.

Patrícia Sequeira, de 47 anos, trabalha em audiovisual há mais de duas décadas e estreou-se nas longas-metragens em 2014 através de “Jogo de Damas”, com as atrizes Ana Nave, Ana Padrão, Fátima Belo, Maria João Luís e Rita Blanco. Tornou-se conhecida do grande público com o filme biográfico “Snu”, protagonizado por Inês Castel-Branco e baseado na história de amor entre a editora Snu Abecassis e o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro.

Como realizadora da SP Televisão, Patrícia Sequeira assinou diversas séries e telenovelas (“Conta-me Como Foi”, “Depois do Adeus”, “Sol de Inverno” ou “Mar Salgado”), uma das quais venceu um Emmy: “Laços de Sangue”, coproduzida pela SIC e pela Globo.

Artigo atualizado às 12h35 com a correção de que o apoio financeiro não foi aprovado