Maëlle, 17 anos, até sabia da existência da síndrome do choque tóxico e da associação da patologia, considerada rara mas potencialmente fatal, com a utilização prolongada de tampões menstruais, mas quando no passado dia 6 de janeiro começou a sentir-se mal não lhe passou pela cabeça que pudesse ser isso.

Tinha febre, náuseas e vómitos. Quando o médico lhe disse que estava com uma gastroenterite, aceitou o diagnóstico. Como aceitou no dia seguinte quando a mãe, alarmada com a ausência de melhoras da filha — na verdade, Maëlle até estava pior, com a tensão muito baixa e perturbações na visão —, chamou uma ambulância para a levar ao hospital mais próximo, na cidade belga de Charleroi. “Os paramédicos mantiveram o mesmo diagnóstico: uma gastroenterite. E no hospital foi a mesma coisa”, denunciou agora Laurence Hennuy à RTBF, a televisão pública belga.

“A minha filha estava severamente desidratada, foi internada num outro hospital, nos cuidados intensivos. E só nessa altura é que lhe diagnosticaram um choque tóxico. Já era demasiado tarde”, lamentou a mãe de Maëlle, que tem partilhado publicamente a história da filha, que acabou por morrer no passado dia 9 de janeiro, para alertar outras raparigas e mulheres para o problema.

No caso, nem sequer foi ignorância, apenas incapacidade para reconhecer os sintomas. “Tinha falado sobre isto com a Maëlle 15 dias antes de ela morrer. Ela era obcecada por esta doença. Estava muito consciente do problema e tinha medo. Mudava o tampão regularmente, mas dizia-me sempre: ‘Mãe, e se eu me esquecer?’. Disse-lhe que as vítimas de choque tóxico eram casos isolados e que ela não precisava de se preocupar; que eu própria tinha usado tampões durante 20 anos e não tinha tido problemas…”, garantiu Laurence Hennuy.

Mon ange, ma fierté est partie vers les étoiles. Toi qui rêvais de voyager à travers le monde, te voilà partie vers un…

Posted by Laurence Hennuy on Thursday, January 9, 2020

Considerada muito rara, a síndrome do choque tóxico é provocada por um também raro envenenamento bacteriano provocado por toxinas de dois tipos de bactérias, a straphylococcus aureus e a streptococcus pyogenes, presentes na pele, axilas, fossas nasais e vagina humanas e comuns a cerca de um terço da população mundial. No limite, a síndrome, documentada pela primeira vez em 1978 e rapidamente associada ao uso de tampões absorventes, pode ser fatal — e são conhecidos vários casos, como o de Sara Manitoski, canadiana, morta em março de 2017, com apenas 16 anos.

Segundo estudos publicados, a doença tem vindo a diminuir ao longo dos anos: em cada 100 mil mulheres que utilizam tampões, só entre três e quatro contraem a doença. E não morrem necessariamente dela. Foi o que aconteceu à modelo americana Lauren Wasser, que em 2012, com apenas 23 anos, teve uma perna amputada graças a um choque tóxico, também provocado por um tampão, e que em 2018 não teve outra opção senão amputar também a outra.

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