Muito antes de o PAN propor a distribuição de copos de menstruação nas consultas de planeamento familiar, as mulheres já procuravam alternativas aos tampões e aos pensos higiénicos, simplesmente porque eles ainda não existiam. No Antigo Egito usavam papiros, na Grécia Antiga enrolavam fibra de algodão em pauzinhos de madeira e em Roma recorriam a lã para fazer tampões.

Felizmente, alguém percebeu as suas necessidades e com o tempo tem-se tentado normalizar o tema da menstruação (ao ponto de os anúncios de produtos higiénicos sugerirem que esta é a altura mais feliz do mês). No entanto, e apesar da evolução, os tampões e pensos ainda se veem rodeados de mitos e de mau uso, tornando-os um potencial perigo para a saúde das mulheres. Ambos têm vantagens e desvantagens e o segredo passa, essencialmente, por ter cuidado na hora de utilizar um ou outro.

As desvantagens e contraindicações

Começando pelas más notícias, apresentamos a Síndrome do Choque Tóxico (STC), uma doença pouco frequente e com várias décadas que está associada ao uso prolongado de tampões e a tampões muito absorventes — embora possa aparecer também em homens e crianças — e que em casos extremos pode levar à morte.

Contactada pelo Observador, Oriana Leça, médica de ginecologia e obstetrícia no Hospital Particular do Algarve, começa por dizer que “antigamente os tampões eram feitos com outros materiais, e em 1978 percebeu-se que alguns desses materiais potenciavam a proliferação de estafilococos”. Embora os componentes tenham mudado, o choque tóxico não desapareceu e as marcas de tampões alertam inclusivamente para o seu perigo nas embalagens.

Corria o ano de 2012 quando a modelo Lauren Wasser, na altura com 24 anos, começou a ter sintomas de uma gripe (estava menstruada e com um tampão). Acordou dias depois no hospital entre a vida e a morte, os órgãos começaram a falhar e sofreu um ataque cardíaco. Apesar de ter sobrevivido, perdeu a perna direita e em entrevista à Vice, em junho de 2015, disse que um tampão mudou-lhe a vida.

Por provar fica se a modelo usou o mesmo tampão durante demasiado tempo — ela alegou que mudou de manhã, à tarde e à noite — ou não. E por demasiado tempo entenda-se mais de oito horas. Oriana Leça reforça que o ideal é mudar o tampão “de quatro em quatro horas e nunca o usar mais de oito horas seguidas”.

No entanto, a falta de cuidado ou o esquecimento não são as únicas contraindicações de um tampão. A má formação genital ou a virgindade são outras situações em que é preciso ter cuidado. No caso da primeira, o uso do tampão pode provocar dor e mesmo dificuldade de remoção. No caso da virgindade — e sim, é um mito que quem é virgem não podem usar tampões — algumas mulheres também pode ter dificuldades a retirar o produto. E porquê? Porque há mulheres que têm hímenes imperfurados (aproximadamente uma em cada mil).

Apesar de estas contraindicações não se aplicarem aos pensos higiénicos, também há cuidados a ter na sua utilização, nomeadamente mudá-los de três a quatro horas (dependendo da quantidade de fluxo). Oriana Leça lembra que o uso dos pensos diários por sistema não é aconselhável, porque embora o Síndrome do Choque Tóxico não se coloque neste caso, os pensos também podem ser responsáveis por infeções. “A humidade local e os pelos púbicos formam um ambiente propício a bactérias e fungos.”

As vantagens

Como recorda a Bustle, o tampão evita que uma mulher se sinta húmida e dá-lhe outra liberdade de movimentos. No caso de praticar exercício pode ser mais confortável — até porque a mobilização causa um acréscimo de fluxo –, permite continuar a usar a roupa interior de que mais gosta e é bem mais discreto quando se troca, por exemplo, numa casa de banho pública.

Já o penso higiénico permite evitar as manchas de sangue nas cuecas (não tapasse ele praticamente todo o tecido), é mais fácil e mais confortável de colocar, e é o ideal para dormir, sendo esta a sua principal vantagem.

Resumindo e concluindo: pensos ou tampões?

No fundo, se a mulher for saudável e cuidadosa, acaba por ser uma questão preferencial.

“Em termos gerais, se forem bem utilizados pela mulher — de forma adequada e durante o tempo adequado –, é indiferente usar um ou outro”, remata Oriana Leça.

Ao Observador, o também ginecologista e obstetra António Amado propõe uma terceira opção. Defendendo que “no mundo ideal as mulheres não usariam nada”, até porque o impacto ambiental que os pensos e os tampões têm é enorme e estima-se que as mulheres produzem toneladas de pensos durante os anos em que menstruam –o ginecologista deixa a sugestão: “porque não experimentar o Mooncup?”. Não tem nada de lunar, é mesmo o copo menstrual desenhado no Reino Unido, em silicone e reutilizável.