Inaugurado em 1913 como Salão Jardim da Trindade, o espaço incluía uma sala de espetáculos com cinema, um salão de festas, café, bilhares e um terraço. Depois de ter sido remodelado algumas vezes, o Cinema Trindade não conseguiu sobreviver ao declínio da zona histórica do Porto e acabou por fechar portas em 2000. Seis anos depois reabriu ao público, no mesmo edifício do Bingo da Trindade, pela mão de Américo Santos, fundador da distribuidora Nitrato Filmes.

“O cinema nunca deixou de existir no Porto, mas acontecia sempre de forma pontual e dispersa. Há três anos mudámos o paradigma do cinema na baixa ao introduzirmos uma proposta que consistia numa média de oito a dez sessões diárias e uma programação baseada em estreias tradicionais”, começa por dizer o responsável em entrevista ao Observador.

Oferecer cinema diariamente numa sala isolada foi uma aposta arriscada, principalmente numa altura em que “o modelo concorrencial dos centros comerciais estava muito implementado”. Ainda assim, o programador acredita que conseguiu apresentar uma sala singular, confortável, familiar e acolhedora, com uma programação plural. “Um dos fatores que muito contribuiu para o sucesso do Trindade foi o Rivoli. Quando surgimos, há três anos, o Rivoli já tinha feito todo um trabalho de valorização de público e hábitos de cultura na baixa. Acompanhamos essa mudança que já estava em curso, contribuímos para essa dinâmica e beneficiamos com isso.”

Aberto todos os dias da semana com duas salas, de 169 e 183 lugares, o Trindade fidelizou o público e consolidou-se. “A sala tem tido uma tendência gradual de crescimento de público, vemos isso em diversas sessões esgotadas”, sublinha Américo Santos. Os espetadores, que já ultrapassam os 60 mil por ano, dividem-se entre os mais velhos, que têm memória e afeto pelo espaço, os mais jovens, que chegam muitas vezes em grupo, e os estrangeiros, que estão de passagem ou a viver na cidade. Esta heterogeneidade faz com que ver filmes nesta sala histórica seja também “uma experiência social”.

A afirmação do projeto passa também pela programação, que se baseia num cruzamento entre as estreias tradicionais, ou seja, aquilo que é novo a nível nacional e internacional, e uma curadoria própria numa lógica dos festivais de cinema. “A curadoria é subjetiva, pois não há uma regra clara para se escolher determinados tipos de filmes. Interessa-nos acompanhar a obra de certos autores, estarmos atentos ao cinema independente e emergente, exibir filmes de grandes estúdios e provocar conversas entre o público e os realizadores.

Para Américo Santos, hoje o Porto vive “um momento extraordinário” no que diz respeito a propostas culturais e a criatividade, por isso vê com bons olhos projetos vizinhos como a recuperação do Cinema Batalha ou a concessão do Coliseu do Porto. “Não conheço o projeto do Batalha, mas creio que não irá chocar com o o que desenvolvemos no Trindade. Penso que a ideia é valorizar o cinema clássico, fazer grandes retrospetivas, coisa que não temos capacidade financeira nem técnica para fazer, pois não exibimos em formato analógico”, explica.

A moda das séries e o sucesso das produções da Netflix também não o assustam. “Não tenho qualquer problema em exibir uma série, aliás já o fizemos com “Roma”, uma produção da Netflix, e podemos continuar a fazê-lo.” O programador assegura que não existem barreiras nesse sentido e que a sala de cinema continua a ser o palco privilegiado para se ver um filme. “A experiência de ver um filme em sala continua a ser algo superior.”

Um cartaz de aniversário com os filmes que “provavelmente vão marcar o ano”

O aniversário é um dos pontos altos da programação anual do Cinema Trindade e este ano não é exceção. De 5 a 16 de fevereiro haverá uma antestreia diária com filmes que vão chegar às salas em 2020. “A Vida Invisível”, do brasileiro Karim Aïnouz, é o filme de abertura e irá contar com a presença da atriz Carol Duarte. Karim Aïnouz é também o realizador em foco desta edição e terá direito a uma retrospetiva quase integral da sua obra, com cinco filmes. Conhecido por desenvolver uma cinematografia próxima às artes visuais, composta de dramaturgias mínimas, o realizador, natural de Fortaleza, uso o poder cénico para “revelar dilemas universais em situações íntimas e particulares”.

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Portugal Cinema é a secção dedicada ao cinema nacional, onde os quatro filmes apresentados terão a presença do realizador para uma sessão de conversa. É o caso de “Patrick”, de Gonçalo Waddington, “Mosquito”, de João Nuno Pinto, “Alis Ubbo”, Paulo Abreu e “Yama Mo Anata/Para Além das Montanhas”, de Aya Koretzky. “Além das antestreias, aproveitamos para resgatar filmes que nunca exibimos e que nos interessa mostrar”, refere Américo Santos.

No segmento Doc’s Cinema há documentários sobre o universo do cinema, “que constroem uma visão singular sobre obras e autores fundamentais da história do cinema”. “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”, de João Botelho, ou “Jogo Duplo: James Benning e Richard Kinklater”, de Gabe Klinger, são apenas alguns exemplos de um calendário de sete filmes.

Em 2020, o Cinema Trindade quer “continuar a emocionar” e não irá fazer “nenhuma alteração de fundo”, nem apostará em sugestões direcionadas ao público infantil. “É uma das grandes lacunas da nossa parte. Em tempos equacionamos ter um serviço educativo, mas nunca demos esse passo porque as características das nossas salas não o permitem. Há um desgaste grande do espaço”, justifica Américo Santos.

Consulte aqui toda a programação. O preço dos bilhetes é de 6€.