Título: O Atelier da Noite
Autor: Ana Teresa Pereira
Editor: Relógio d’Água
Páginas: 104
Preço: 14,50€

Na primeira metade d’O Atelier da Noite, Ana Teresa Pereira mistura de forma extraordinariamente competente duas histórias: o bizarro e controverso desaparecimento durante onze dias de Agatha Christie, em dezembro de 1926, e o enredo de And Then There Were None, o maior best-seller da autora britânica, escrito em 1939.

Após saber que o seu marido estava apaixonado por Nancy Neele, Agatha Christie abandonaria o seu carro junto a um lago a cinquenta quilómetros de Londres, tendo permanecido de seguida em parte incerta durante os onze dias seguintes até ser finalmente encontrada hospedada num hotel perto de York com o sugestivo nome de Teresa Neele (composto pelo primeiro nome da escritora d’O Atelier da Noite e pelo apelido da amante do marido de Agatha Christie, permitindo assim a Ana Teresa Pereira acrescentar subtilmente ainda mais uma camada à narrativa). O seu desaparecimento fez, à data, correr muita tinta e iniciou uma fervorosa busca por Agatha Christie, que era já por essa altura uma das mais populares escritoras britânicas.

Treze anos depois, Christie escreveria o seu maior sucesso, um policial que viria a vender mais de cem milhões de cópias em todo o mundo e onde se conta a história de oito personagens que, a convite de dois misteriosos anfitriões, ficam presos numa ilha e que vão morrendo, um a um, ao ritmo da nursery rhyme “Ten Little Niggers” (Ten Little Niggers é, aliás, o título original do livro no Reino Unido, mas, como se compreende, foi alterado na edição estadunidense, onde obteve o nome pelo qual é hoje conhecido).

No meio de tanta intriga e mistério, seria de esperar que a narrativa de Ana Teresa Pereira fosse repleta de ação e volte-faces. Não é, no entanto, isso que encontramos em ‘O Atelier da Noite’. O que fascina a escritora nas duas histórias narradas acima não é o que nelas é bigger than life, mas o que existe em ambos os casos de subtil, por ser nos pequenos gestos que tudo se concentra. A atenção de Ana Teresa Pereira não recai, por isso, na infidelidade, no crime, na loucura, mas antes na forma como Agatha Christie desce as escadas do The Old Swan Hotel, num movimento oposto ao da protagonista de And Then There Were None, Vera Claythorne (“a rapariga no hotel desce sempre as escadas, a rapariga na ilha sobe sempre as escadas” (p. 14)). E, provavelmente, Ana Teresa Pereira terá razão. Provavelmente, aquilo que nós somos está muito mais condensado na forma como despimos as nossas roupas, na forma como subimos e descemos escadas do que na vez em que desaparecemos durante uma semana para o interior sem dar justificações a ninguém.

Como se compreende em momentos como este, para a escritora está sempre tudo a começar de novo, as ações repetem-se perpetuamente, o que leva a que o presente se povoe do passado e dos gestos subtis que, mais do que as ações grandiosas, definem as personagens. A escritora aponta, aliás, nesta direção quando explica que talvez o que distinga as boas histórias seja estas estarem sempre a começar “uma e outra vez, mesmo depois de nos irmos embora” (p. 14). O livro de Ana Teresa Pereira tem, como se terá já tornado claro, a característica de refletir sobre si mesmo e sobre o que é, afinal, a literatura, esse sítio onde as personagens sobem e descem escadas para sempre mesmo quando não estamos lá para as ver.

O que O Atelier da Noite tem a dizer sobre esta coisa estranha que são os livros não se fica, no entanto, por aqui. Pela voz de Agatha Christie, Ana Teresa Pereira escreve que “recriei tantas vezes o que acontecera entre mim e Archie e Nancy Neele. Tantas combinações possíveis. Se continuar a escrever a história, uma e outra vez, talvez um dia fique tudo certo” (p.46). Em momentos como este, percebemos que a escritora encara a literatura como uma forma de corrigir a vida, de fazer algum sentido de tudo o que nos rodeia. Ana Teresa Pereira parece escrever até que as coisas fiquem certas. Mas mais do que esse esforço, parece interessar-lhe a impossibilidade do seu sucesso.

É decisivo, sob este ponto de vista, o episódio de Charles Laughton, o primeiro ator a desempenhar o papel de Poirot, que, durante as filmagens de “I, Claudius”, “chegava ao local de trabalho com a roupa de Claudius, a maquilhagem, e sentia-se perdido. Procurava Merle [Oberon] no camarim, deitava a cabeça no colo dela e chorava, porque não encontrara Claudius dentro de si” (p. 25). Mais do que a possibilidade de redimir a vida através da literatura, Ana Teresa Pereira está interessada na impossibilidade de se transferir o mundo da vida real para o campo da arte, de se fazer sentido de tudo isto. Daí que, tal como Ana Teresa Pereira diria, por certo, da sua personagem Agatha Christie, Agatha Christie diga sobre Teresa Neele (a personagem Christiana que Agatha criou não nos seus livros, mas na sua própria vida):

“Eu tinha de encontrar dentro de mim a personagem que ia representar. Charles Laughton e Claudius. Ele não encontrara Claudius dentro de si. Eu encontrara Teresa. Não sei se Charles se perdeu a si mesmo pelo caminho, eu perdi Agatha” (p. 57).

É sobre isto também O Atelier da Noite, sobre como ao procurar encontrar-se com as personagens, a escritora se perde a si mesma, como ao escrever os seus romances está sempre, de alguma forma, a moldar-se, à procura de um qualquer consolo que tarda em chegar, à procura de voltar a um período feliz que está já irremediavelmente perdido. Ou, como diz Ana Teresa Pereira: “Há sempre uma rapariga bonita nos meus livros. É a forma de ser bonita de novo” (p. 15).

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