O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou esta sexta-feira que a desigualdade entre homens e mulheres é “estúpida” e “inaceitável” e enumerou cinco áreas que necessitam de igualdade de género para “mudar o mundo”.

Tal como a escravatura e colonialismo foram manchas dos séculos anteriores, a desigualdade de géneros devia envergonhar-nos a todos no século XXI. Porque não só é inaceitável, é estúpida”, disse Guterres na noite de quinta-feira (sexta-feira em Portugal), ao receber um doutoramento honorário na universidade New School.

O português enumerou cinco áreas que vão “mudar o mundo”, se oferecerem oportunidades e segurança iguais para homens e mulheres: conflitos armados, alterações climáticas, economia, divisão digital e representação política.

Em termos de conflitos, António Guterres disse que existem “homens a travar guerras contra as mulheres”, com “táticas de guerra”, como violações e escravidão sexual, e acrescentou que, em média, 137 mulheres são mortas diariamente por um membro da família.

Revogar leis que discriminam mulheres e meninas; aumentar a proteção contra a violência; preencher a lacuna na educação e tecnologia digital das meninas; e acabar com as disparidades salariais entre homens e mulheres são apenas algumas das áreas para que apontamos”, explicou o chefe da organização internacional.

Já ao nível do clima, considerou que “a crise existencial” que o mundo enfrenta “é resultado de decisões tomadas pelos homens, mas que têm impacto desproporcional nas mulheres e meninas”.

Lamentando que as “iniciativas para reduzir e reciclar sejam predominantemente comercializadas para mulheres”, Guterres alertou para o “risco de que salvaguardar o planeta seja visto como trabalho de mulheres, tal como qualquer tarefa doméstica”.

O antigo primeiro-ministro português disse que desfrutou de muitos privilégios, sendo um homem nascido na Europa ocidental. “Mas a minha infância numa ditadura militar em Portugal abriu-me os olhos para a injustiça e opressão. Como estudante fazendo trabalho voluntário nos bairros de Lisboa, ao longo da minha carreira política e como líder da agência de refugiados das Nações Unidas, sempre me senti compelido a lutar contra a injustiça, a desigualdade e a negação dos direitos humanos”, declarou.

Guterres congratulou-se por já ter cumprido um objetivo do seu mandato como secretário-geral da ONU antes do prazo: a equidade entre homens e mulheres em posições de liderança na organização, contando com 90 homens e 90 mulheres na liderança desde 1 de janeiro, num ano em que se assinala o 75.º aniversário da organização internacional.

Engenheiro de profissão, Guterres fez uma promessa, para os próximos dois anos que lhe restam no mandato como secretário-geral: “aprofundar o compromisso pessoal para destacar e apoiar a igualdade de género”, bem como “contactar os governos que têm leis discriminatórias para defender mudanças”.

Prometeu ainda “terminar com o pensamento masculino padrão nas Nações Unidas”.

No discurso em Nova Iorque, o português condenou o “abuso de poder que prejudica as comunidades, economias, o ambiente, as relações e a saúde” e defendeu mais participação de mulheres nos quadros corporativos para serem “mais estáveis e lucrativos”.

O secretário-geral chamou a atenção para o facto de a desigualdade de género não ser um problema novo e destacou “novos modelos de liderança” criados pelas jovens Malala Yousafzai, ativista paquistanesa que recebeu o prémio Nobel da paz aos 17 anos, ou Nadia Murad, iraquiana vítima de rapto por um grupo terrorista e vencedora de vários prémios, incluindo o prémio Nobel da Paz.

Chamando a atenção que este não é um problema novo, António Guterres lembrou que a rainha Nzinga Mbandi do Mbundu opôs-se ao colonialismo português naquele que é atualmente o território de Angola, ainda no século XVII.

Guterres saudou ainda as mulheres de Hollywood e do cinema que “corajosamente” falaram e lutaram contra a discriminação ou os assédios: “Nem Hollywood protege as mulheres dos homens que exercem sobre elas poder físico, emocional e profissional”.

“A igualdade de género é, fundamentalmente, uma questão de poder”, defendeu o secretário-geral da ONU.