Sensivelmente uma hora antes de falar connosco por telefone, J Balvin fazia, na sua página oficinal de Instagram, repost de um vídeo de Nastya Nass, uma modelo ucraniana, influencer, guru fitness e rainha do twerk, que já em 2018 tinha surpreendido o mundo com uma coreografia inesperada ao som de uma música de Balvin. Desta vez, fá-lo com “Negro”, sétima e talvez – as opiniões, estimados leitores, podem divergir, não se zanguem – melhor canção do seu novíssimo disco Colores.

É um ritmo lento, grave pesadão a piscar o olho a uma sirene de polícia, um instrumental a fazer lembrar reggaeton de tempos idos, mas de cara lavada. A forma como Nastya Nass o baila parece ter animado um J Balvin, em quarentena. Prova de que esta pandemia é para todos, até para as grandes estrelas da música mundial:

“Estou em quarentena, sim, estou com a minha gente e muito feliz por ter uma casa em que posso estar neste momento, nem toda a gente tem. Sinto-me muito agradecido por ter esta possibilidade e por conseguir estar perto daqueles que amo, é um tempo complicado, obviamente”, esclarece o astro colombiano.

E por falar em maus momentos, é por aí que seguimos. Em tempo de quarentena – além de termos que nos distrair com leituras, vídeos de twerk, discos de reggaeton, séries de todo o tipo – é normal que nuvens mais densas nos surjam no pensamento, que desesperemos, que nos interroguemos sobre que mundo é este, o que para aqui andamos a fazer.

[“Rojo”:]

Coisa que não é nova para J Balvin, uma vez que o artista já por mais do que uma vez falou abertamente dos seus “dark moments” no Instagram, no fundo, a sensibilizar os seus ouvintes que ninguém está livre da sua própria mente e que a ajuda profissional da psicologia lhe foi muito útil várias vezes, ainda que seja um artista de renome internacional, de conta bancária cheia e por isso sem espaço para coisas menos positivas na sua vida.

“Sim, fi-lo porque acho que é uma realidade enorme, que toca a muita gente no planeta, ansiedade, depressão, é algo muito concreto e ninguém fala sobre isto porque continua a ser a um tabu. Quero mudar isso, quero que seja um assunto mais falado, quero que as pessoas percebam que podem falar sobre os seus momentos mais duros, que não precisam de passar por isso sozinhas, se não ficam loucas”, conta.

Será que é por isso – um pedido, um desejo – que em “Amarillo”, primeira canção de Colores, diz: “Y yo no me complico”? “Sim, exatamente, ainda bem que percebeste. Acho que há uma tendência para dramatizarmos, o que estou a tentar dizer nessa canção é para vivermos a vida sem grandes dramas. E perante este momento que estamos a passar acho que o melhor mesmo é não nos queixarmos muito, se não vai ser pior”, garante.

[“Amarillo”:]

Estamos perante o sétimo disco de J Balvin, um homem que, na adolescência, como tantos outros, começou a ser influenciado pelo hard-rock dos Metallica e pelo grunge dos Nirvana, e que depois de umas experiências nesse campo se decidiu pelo rap, ao qual se sucedeu o reggaeton, numa escola mais pop e de orgulho latino. Embora só há uns poucos anos tenha atingido o estrelato mundial, já desde 2011, altura em que editou o seu segundo disco (El Negocio) que J Balvin é uma figura de proa na Colômbia, e mais precisamente em Medellín, cidade de onde é natural.

Colores é um reforço da dimensão pop na música de Balvin, um homem que quer chegar a todos, que tem particular gosto pelo resgate da energia inicial do género musical que habita: o reggaeton. É impossível não ouvirmos Daddy Yankee e Hector “El Father” por estes temas. E traz também heranças vindas do conjunto de canções que nos preencheu as noites do verão passado – mais umas dores de pernas na manhã seguinte –, editou a meias com Bad Bunny (Oasis), em junho de 2019.

O mesmo porto-riquenho Bad Bunny que no último dia de fevereiro também editou o seu mais recente disco: YHLQMDLG. Não há como não perguntar se isto é uma competição entre amigos.

“Somos família. Sabia há muito o dia em que ele ia editar, ele sabia o meu. Não é uma competição porque não competimos, nós divertimo-nos, adoro que tudo lhe esteja a correr bem e ele adora que me esteja a correr tudo bem, o disco dele é muito bom. E o meu foi editado mesmo agora durante o pior período do coronavírus, portanto espero que faça bem às pessoas”, afirma Balvin.

[“Negro”:]

Mais precisamente em relação ao disco (que é também uma nova linha de roupa que vai lançar com a marca Guess, e que comprova o quão a moda é importante para J Balvin, basta verem-se os vídeos e a forma como costuma aparecer vestido em público), que é o motivo desta entrevista, diz-nos que quis “fazer algo simples, mas poderoso”. Acrescenta: “As cores são uma linguagem universal para me conectar com as pessoas, como a música ou como os números. Cada música representa uma cor, e tem o seu próprio vídeo, e cada um tem uma vibe diferente em si, são todas diferentes, estou muito contente com o resultado”.

Está ele, estamos nós e está o mundo inteiro, ainda que em quarentena. Só não estamos muito contentes com o facto de na nona faixa do disco, “Arcoíris” ter optado por colocar um sample da mítica música “Chan Chan”, do trovador cubano Compay Segundo – mais tarde regravada pelo Buena Vista Social Club – mas apenas por uns breves trinta segundos e já no fim da canção, quando o sample começa a música acaba e isso é injusto para o ouvinte.

“Pois, percebo isso, mas foi assim que decidimos fazer. Mas o que quis foi voltar a trazer essa incrível canção cubana, que adoro profundamente. É fantástico poder utilizar um sample do Compay Segundo e mostrá-la aos miúdos e às pessoas que me seguem, achei importante. É uma homenagem à cultura latina”, conclui.

E é, de certa forma é. Aliás, praticar J Balvin é sempre praticar uma homenagem à cultura latina, mas neste caso, no caso de Colores, o disco parece mais uma homenagem ao início do movimento reggaeton, Panamá e finais dos anos 90 em perspetiva. É um pedaço de festa que nos invade os glúteos e os tornozelos, um manancial de agitação que tanto quer que rebolemos no fim de um dia na praia, como quer duche rápido – e não se esqueça de jantar, já sabe, depois diz que não percebe como é que ficou assim. Quer uma boa indumentária e o volume do auto-rádio no máximo para dar nas vistas assim que se chega à discoteca. Em não podendo sair de casa, esta é das melhores razões possíveis para fazer de várias divisões da nossa casa pista improvisada. E só por isso lhe devemos um agradecimento, J Balvin man.