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Este é o som do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é alguém que pensa pela própria cabeça.
É raro, não é?
Pois.
Mas sim, o meu bom é Francisco Assis. Ontem o Parlamento Europeu aprovou uma resolução onde se rejeita a fraude eleitoral na Venezuela, onde se reconhece Edmundo González Urrutia como presidente legítimo e democraticamente eleito do país e onde se condena o regime por ter emitido um mandado de detenção para Edmundo González Urrutia, o que o levou a exilar-se em Espanha. A resolução foi negociada com os socialistas europeus, mas no final eles acabaram por votar contra. Só que não foram todos. Francisco Assis e outros quatro eurodeputados portugueses do PS apoiaram a resolução. Ao Observador, Assis comentou a decisão dizendo isto: "Nem hesitei, era um imperativo de consciência." Quem optou por alinhar com a família socialista europeia foi, por exemplo, Marta Temido. Mas ao longo destes muitos anos de vida política, Francisco Assis seguiu invariavelmente a própria cabeça. Ele nunca mandou no PS, mas sempre mandou nele mesmo e eu diria que é um bom princípio.
Sim, não tem vida fácil em alguns momentos por causa disso, de facto.
Sim.
Como acontece, por regra, às pessoas que pensam pela própria cabeça.
Quando foi da geringonça, por exemplo, foi apupado num congresso de PS. Eu estava lá. Não vale a pena agora fazer de conta que as pessoas não se lembram. Foi apupado.
Quem é o teu mau, Miguel?
Olha, é a ministra da Saúde. Se bem se lembram, alguns deputados perguntaram a Ana Paula Martins em que ponto é que estava a regulamentação da lei da eutanásia. Foi uma pergunta formal do Parlamento a um membro do governo. A ministra respondeu também formalmente e por escrito que essa regulamentação estava a ser feita. E depois, ao fim de uns dias, um outro membro do governo assumiu que afinal a regulamentação não estava nada a ser feita, porque nada ia avançar antes do Tribunal Constitucional se pronunciar sobre a lei. E perante isto, o Bloco de Esquerda fez o óbvio, pediu que a ministra fosse ao Parlamento para se explicar. Afinal, esteve a dar uma informação ao Parlamento que não está correta, quer dizer, o que se passa aqui? Numa primeira fase, o PSD e o Chega votaram contra e desta maneira protegeram Ana Paula Martins, mas agora o Bloco decidiu, e muito bem, impor a audição através de um pedido potestativo, portanto, que não pode ser negado, e por isso a ministra vai mesmo ter de se explicar em direto, ao vivo e a cores, e quer parecer que, se calhar, a coisa é capaz de não correr bem.
A ideia é que o governo não tinha um guião assente para este tema, não é? E, portanto, cada um disse a sua coisa. Ou a ministra disse uma coisa, o governo fez outra. Enfim.
Aqui o grande ponto é: a ministra, de facto, estava a tratar da regulamentação? Disse a verdade ao Parlamento? Ou não estava a tratar da regulamentação e não disse a verdade ao Parlamento? Este é que é o ponto que exige esclarecimentos, diria eu.
Miguel, o teu vilão de hoje foi o teu mau de ontem. A Margarida não lhe corre nada bem.
Não, vai de mal a pior isto. Não é só ao vilão, não é só à ministra da Administração Interna corre mal. Tenho que fazer uma autocrítica a mim também, tenho que fazer aqui um pedido de desculpas. Peço mesmo muita desculpa por ter ontem criticado o facto de Margarida Blasco estar em silêncio sobre a tragédia dos incêndios. Peço imensa desculpa, porque depois de ter ouvido a declaração da ministra ontem à noite, eu percebi que nós tínhamos todos ficado muito melhores se Margarida Blasco tivesse continuado em silêncio. E, portanto, fica aqui apresentado um pedido de desculpas por ter pedido algo de que me arrependi rapidamente. Foi com surpresa e pasmo que o país, ou pelo menos eu, constatou que a ministra tem dificuldade até a ler em público um discurso escrito num papel, até alguém sem nenhuma experiência, treino, jeito para falar a um número razoável de pessoas. E foi com sonolência e com desinteresse que o país, ou pelo menos eu, a ouviu recitar uma longa cronologia de factos. A ministra falou muito da ANEPC e do SIOPS.
Está tudo bem, Miguel?
Está tudo bem, obrigado. É só uma constipação, mas está tudo bem. Falou muito sobre isto, ANEPC e SIOPS, deu ali a cronologia dos factos, mas não conseguiu o mais importante, que é ter uma mensagem que fosse compreensível ou sequer relevante. E neste momento já há poucas dúvidas, parece-me, de que Margarida Blasco atingiu o seu princípio de Peter, que nos diz que todas as pessoas tendem a ser promovidas até ao seu nível de incompetência. Margarida Blasco pode ter muitas qualidades, pode ter sido uma ótima inspetora-geral da Administração Interna, mas não sabe ser ministra e uma de duas: ou aprende rapidamente, mas tem que ser mesmo rápido e começa a melhorar, ou então o governo tem aqui um problema.
O problema é que não se ensina a ser ministro nas faculdades, não é?
Sim, mas a universidade da vida, Paulo.
Essa, claro.
Serve para muito. Agora, aprender enquanto se está a fazer é sempre mais complicado, claro. Vamos ver. Ninguém nasce a saber ser ministro, como é evidente. E a experiência é importante, mas não estamos em tempos para isto.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é Francisco Assis, o mau é Ana Paula Martins, a ministra da Saúde, e o vilão de hoje é a ministra da Administração Interna. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.