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Tó Trips: “Há profissionais das artes que estão a passar mesmo mal, que não têm dinheiro para comer“

O músico escreveu um post no Facebook revoltado com a situação de quem vive do setor das artes, uma indústria "em risco". Em entrevista, diz-nos que “as pessoas precisam de ajuda agora".

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Dos Lulu Blind aos Dead Combo, entre trabalhos a solo e agora também com os Club Makumba, Tó Trips tem um percurso na música portuguesa com mais de 30 anos

Gerardo Santos

Dos Lulu Blind aos Dead Combo, entre trabalhos a solo e agora também com os Club Makumba, Tó Trips tem um percurso na música portuguesa com mais de 30 anos

Gerardo Santos

Os Dead Combo teriam, em 2020, o ano da despedida. O conjunto que Tó Trips tem com Pedro Gonçalves anunciou o fim e tinha 60 concertos programados para este ano, todos para dizer adeus em condições. Deram sete, até que a pandemia cancelou o fim da banda. Calma, eles vão acabar, sim, mas agora, em princípio, só em 2021.

Apesar de tudo, Tó Trips (António Manuel Gonçalves, 54 anos) é um dos que ainda consegue subsistir numa área que enfrenta dificuldades. Por vários cantos da internet há relatos de gente em situações limite. O post que o músico escreveu no Facebook, há poucos dias, foi mais um grito de revolta, um grito motivado sobretudo pelo que vê à sua volta, pelas consequências graves que batem à porta de outros colegas de profissão.

Esta meia-parte dos Dead Combo sugere que se crie um estatuto de intermitência como aquele que existe em França, não só para artistas, mas também para outras profissões cujas possibilidades de trabalho não são estáticas. E pede que se acabe com a burocracia que só faz tardar a ajuda a quem dela precisa agora. Entretanto, continua a fazer música em casa. E a discutir com a família por coisas insignificantes.

[leia o post de Tó Trips no Facebook:]

Comecemos pelo início. Como é que está?
Estamos bem, somos privilegiados porque estamos numa casa numa zona mais de campo, saí de Lisboa há três anos. Sim, por enquanto estamos bem.

Estão em quarentena desde quando?
As aulas acabaram numa segunda-feira e na quinta-feira anterior ao anúncio já estávamos de quarentena, os meus miúdos [o músico tem três filhos] já não foram à escola na quinta. E, se não me engano, eles anunciaram nessa sexta que iam fechar as escolas.

Sim, dia 13 de Março.
Acho que é isso, sim, estamos em quarentena desde então. Damos aqui umas voltas pela mata, uma caminhada até à praia e voltar, mas não vamos todos. E pronto, ir ao supermercado e essas coisas.

E que outras coisas tem feito? Cozinha, livros, séries?
Vimos a série da “Amiga Genial”, baseada nos livros [de Elena Ferrante]. Tenho feito música, tocado guitarra, cozinhado, tenho tentado estar ocupado. Ficámos sem alguns azulejos, estamos ali a fazer com os miúdos um patchwork…

Aquelas coisas que nunca se fazem, não é?
Claro, pintar, desenhar, um bocado de jardinagem também, temos aqui uma horta.

Antes disto, passava muito tempo em casa ou nem por isso?
Nunca fui gajo de casa. O facto de termos leva a passar muito tempo fora de casa. Sou mais de andar em contacto com as pessoas, andar de um lado para o outro, gosto de estar ocupado. Mesmo agora, como temos espaços, meto-me sozinho a fazer as minhas coisas e o resto da malta fica a fazer a cena deles. Somos cinco aqui em casa.

Nesse sentido, tem sido mais difícil lidar consigo mesmo?
Há dias… Mas, sinceramente, estou farto desta situação, saturado, já estamos aqui há 40 e tal dias. E até temos espaço e estamos ao pé da praia e do campo, mas realmente a falta de estar com os outros é séria, sem os outros não somos nada, até podemos viver num palácio, mas sem o resto das pessoas, sem o lado social, chega a uma altura que é cansativo. E notamos aqui em casa que, às vezes, implicamos uns com os outros por coisas que à partida não implicávamos. Tretas, discussões que começam por coisas de nada. Aquele efeito de estarmos juntos demasiado tempo. O mais difícil nas viagens interplanetárias é essa parte, o confinamento e sermos sempre os mesmos ali juntos. Ou nos submarinos…

“Para profissões deste tipo, que estão dependentes de várias condicionantes para que a atividade seja desempenhada, devia haver um estatuto”, diz Tó Trips

Falando mais especificamente do post que fez no Facebook. Pediu, como empresário a título pessoal, o lay off e foi-lhe negado. O que é que tinha em curso antes da pandemia?
Como era o último ano, íamos ter cerca de 60 concertos com Dead Combo. Uma data de pessoal queria ver os Dead Combo em despedida. O que vale é que no início do ano ainda tivemos uns sete concertos e é esse dinheiro que agora dá para estar a aguentar. Também uns balões de oxigénio da GDA e da SPA, de resto não tenho mais nada. Em relação ao post, houve muita malta que me telefonou e mandou mensagens, a perguntar se precisava de ajuda monetária ou assim, fiquei super emocionado com isso, não estava à espera. Mas não é o meu caso, felizmente ainda não é o meu caso, só se isto se prolongar muito tempo, mas esse post até foi mais um lado de revolta. Acho que qualquer cidadão, no Estado de Direito, tem obrigações e deveres para com o Estado. E o Estado, em situações destas, excecionais, devia apoiar as pessoas e não é preciso cá burocracia. Sejam elas quem forem e não é só os portugueses, é toda a gente que vive aqui. É uma questão humana.

E irrita-me, porque sempre cumpri com as minhas obrigações e acho que as pessoas devem pagar impostos. O Governo até se tem portado muito bem na área da saúde, mas este lado da Cultura, que é uma coisa que vem de trás, aí está mal, não tem feito nada. Não tem ideias. Há profissionais das artes que estão a passar mesmo mal, que não têm dinheiro para comer, tenho falado com amigos e há atores, músicos, técnicos, que estão a passar mal a sério. Nos Dead Combo somos 18 pessoas, na estrada somos uns 11, eu ainda tenho direitos de autor, a GDA e assim, mas e estas outras pessoas, técnicos profissionais, que andam há anos nisto, como é que eles vão viver? Com famílias e miúdos…

No fundo, os concertos de Dead Combo eram uma parte significativa do orçamento anual.
Sim, e com Club Makumba tínhamos uma tour por vários clubes, tinha coisas a solo, tinha cinco concertos com o Rodrigo Areias… A maior parte das coisas foram adiadas, mas outras foram canceladas. Foram adiadas e vamos lá ver como é que isto se vai desenrolar.

Diz também que não houve nenhum tipo de justificação para terem recusado o pedido de lay off.
Não devo nada à Segurança Social, não tenho dívidas, nada, cumpri tudo. E, assim sendo, a única coisa que se pede é uma justificação. Se me disserem que não dá para apoiar por esta razão e aquela, posso até não concordar, mas é o que é, agora sem explicação? Isso não. Como foi feita uma reclamação, haverá uma resposta. Mas as pessoas – e não é o meu caso, atenção, volto a dizer – estão mal é agora, se precisam de apoio é agora. Quando alguém se está a afogar, é nesse momento que tem de ser salvo. Nem estava à espera do impacto deste post, também não sou assim um gajo tão conhecido, se estivéssemos a falar de um Camané, de um Pedro Abrunhosa… mas isto teve impacto. O pessoal das artes tem que arranjar um estatuto.

Como existem os intermittents, em França.
Exatamente. E não falo só dos artistas, este é o exemplo que me é mais próximo. Mas para profissões deste tipo, que estão dependentes de várias condicionantes para que a atividade seja desempenhada, devia haver um estatuto. Espero que depois disto tudo, nós – artistas – e quem tenha um trabalho intermitente, pensemos nisto, se não vamos estar nisto eternamente. E este post foi mais um cansaço deste tipo de situações que vejo desde o tempo em que ainda nem tinha bandas, nos anos 80. Estamos na segunda década do século XXI e continuamos nisto, sempre uma pedinchice, por favor deem-nos isto e aquilo… isto é miserável. Se calhar é porque estivemos metade do século XX aqui fechados e ainda temos este preconceito em relação à Cultura. É claro que há áreas prioritárias, tudo bem, não vou dizer o contrário, mas a Cultura tem que estar incluída, há muita gente a trabalhar nesta área, isto é uma indústria.

Haverá a ideia instalada de que os artistas aproveitam-se do Estado para ganhar a vida? Falta consolidar a noção de Cultura como um direito?
Isso vem de longe, há sempre aquela conversa de que os artistas não querem trabalhar. É lógico que as coisas estão melhores, mal seria se não estivessem, mas essa perceção prevalece e a prova disso é que ainda não se chegou sequer a 1% do Orçamento para a Cultura. Seja este Governo, seja outro que lá estiver. Esse estigma, assim, não vai acabar. Sei que há áreas que são primordiais para a existência de um país, mas uma delas tem que ser a Cultura, não pode ser renegada nem excluída, é a identidade de um país. Quando viajo quero ver as coisas do país que vou visitar. Isto é fundamental. E cada vez mais há malta a trabalhar nisto: desde a senhora que limpa o chão do teatro ao artista que lá vai tocar.

No fundo, o que se passa é que muita gente percebe o que está em causa, mas o dinheiro não aparece.
Nem mais.

No meio disto tudo, dizia há pouco que tem feito música em casa…
Bom, em relação a Dead Combo, decidimos acabar e agora não podemos acabar. Estamos a pensar adiar o último ano da banda para o próximo ano. Sobre Club Makumba, temos o disco feito, vai ser distribuído pela Sony, era para ser lançado em maio, mas provavelmente vamos adiar. Vamos esperar. Até porque se isto realmente voltar a uma certa normalidade e começarem a acontecer espectáculos dos Dead Combo, torna-se tudo uma grande confusão. E vamos ter uma travessia do deserto, concertos com lotação reduzida, portanto vamos ver. Pelo meio fiz aí uns 12 temas com a minha mulher, mais numa onda de dub e spoken word, não sei o que vamos fazer com isso…

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