O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, pediu esta quinta-feira “limites” a ordens policiais “absurdas” ao defender aliados que são alvo de uma investigação por suspeitas de disseminação de notícias falsas nas redes sociais, acrescentando que o “gabinete do ódio” foi inventado.

Não são bandidos, não são marginais, não são traficantes, muito pelo contrário. Sãos cidadãos, chefes de família, que foram surpreendidos pela Polícia Federal. Nunca tive a intenção de controlar a Polícia, pelo menos isso ficou evidente ontem [quarta-feira]. Mas, obviamente, ordens absurdas não se cumprem e temos de colocar um limite nessas questões“, afirmou Bolsonaro em declarações à imprensa, em Brasília.

Bolsonaro defendeu assim alguns dos seus apoiantes que foram alvo de mandados de busca e apreensão na manhã de quarta-feira, no âmbito de um inquérito que investiga uma alegada organização criminosa responsável pela disseminação de notícias falsas nas redes sociais.

A operação foi desencadeada pela Polícia Federal, por determinação do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, no seguimento de um inquérito aberto em março de 2019, ainda em segredo de justiça, para investigar ameaças, ofensas e notícias falsas difundidas contra magistrados do Supremo e familiares.

Na decisão que autorizou as buscas contra apoiantes do Presidente, o juiz Alexandre de Moraes invocou a existência de um “gabinete do ódio” que, alegadamente, se dedica à disseminação de notícias falsas e ataques a cidadãos e autoridades.

“As provas colhidas e os laudos periciais apresentados nestes autos apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares [na comissão parlamentar das ‘fake news’, em curso no Congresso brasileiro] como ‘gabinete do ódio’, dedicada à disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às instituições”, afirmou o juiz.

Para Bolsonaro, o “gabinete do ódio” é uma invenção.

“Inventaram o nome de ‘gabinete do ódio’. Alguns acreditaram e outros foram além, abrindo processos contra isso. Um processo não pode ser aberto em cima de ‘fake news’ [notícias falsas]. Respeitamos os poderes, mas não abrimos mão de que nos respeitem também”, disse, exaltado, o chefe de Estado.

Jair Bolsonaro endureceu o discurso, declarando que “alguns idiotas criaram esse gabinete do ódio, outros imbecis publicaram matérias a respeito”.

Entre os alvos da operação de quarta-feira está o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, que, nos últimos meses, se tornou um fiel aliado do Presidente do Brasil.

Outros aliados de Bolsonaro envolvidos nesta operação são o empresário Luciano Hang, o deputado estadual de São Paulo Douglas Garcia, o ‘blogger’ Allan dos Santos e a ativista Sara Winter.

Os empresários são suspeitos de financiar a divulgação de conteúdos falsos e viram o sigilo fiscal e bancário levantado. Os restantes citados nos mandados judiciais estão a ser investigados por fazerem de forma constante publicações suspeitas em redes sociais de mensagens contendo graves ofensas e conteúdo de ódio.

O magistrado determinou ainda o bloqueio das contas nas redes sociais de todos os investigados, como Facebook, Twitter e Instagram, justificando a decisão como necessária “para a interrupção dos discursos com conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”.

Jair Bolsonaro classificou a decisão como um atentado à liberdade de expressão, afirmando que foram precisamente essas redes sociais que o levaram à presidência.

“A liberdade de expressão é sagrada e coloco-me no lugar de quem teve a Polícia Federal a bater à porta. (…) Essa história de querer inventar, de querer criminalizar o crime de ódio, é um artifício para querer censurar as ‘media’ sociais. Foi essa media social que me trouxe à presidência, sem ela não estaria aqui”, declarou o chefe de Estado, referindo-se às campanhas virtuais feitas a seu favor em 2018.

O Presidente do Brasil criticou ainda aquilo que considerou como “decisões monocráticas” tomadas por um só juiz, em referência à decisão do magistrado Alexandre de Moraes, acrescentado que a situação não se voltará a repetir.

“Democracia acima de tudo. Não podemos falar em democracia sem o poder judiciário e o legislativo independente, para que possam tomar decisões, mas não monocraticamente. O coletivo tem de ser ouvido”, argumentou Bolsonaro, em declarações à imprensa, na presença de um grupo de apoiantes.

“Desculpem o desabafo, mas acabou! Não dá para admitir mais atitudes de certas pessoas, tomando certas ações como se fosse de uma forma pessoal. (…) Não vamos admitir que individualmente alguém tome decisões em nome de todos. Respeito o STF, respeito o Congresso, mas para continuarem a receber respeito da minha parte, têm de respeitar o poder executivo também”, acrescentou.