A meio de dezembro, numa receção ao Parma, Gennaro Gattuso fazia a sua estreia no comando do Nápoles, que se tinha acabado de qualificar para os oitavos da Liga dos Campeões mas que se mantinha no meio de uma guerra civil que envolveu estágios forçados, renúncias dos jogadores, multas e o fim antecipado de Carlo Ancelotti à frente do clube de Aurelio De Laurentiis, o produtor de filmes que escreveu um guião desnecessário que acabou com mais vencidos do que vencedores. O antigo internacional começou a perder e somou quatro desaires nos seis primeiros jogos entre Serie A e Taça de Itália. Mal tinha acabado de chegar e já era colocado em causa. Deu a volta.

Gattuso. “O Gascoigne borrou-se nos meus calções”

Depois de passagens por Perugia, Rangers e Salernitana, Gattuso fez quase toda a carreira no AC Milan, onde jogou entre 1999 e 2012. Ganhou dois Campeonatos, uma Taça de Itália, duas Supertaças, duas Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias e um Mundial de Clubes, além de um Mundial de seleções e um Europeu Sub-21 por Itália. Como imagem de marca ficou a atitude de guerreiro, a valentia, o lema do “mais vale quebrar do que torcer”. Foi isso que lhe valeu a imagem de marca de bulldog tantas vezes elogiada por companheiros (e outras tantas criticada pelos adversários, acrescente-se). E foi dessa imagem que quis descolar na nova carreira de treinador.

Depois de ser treinador-jogador dos suíços do Sion, onde acabou de jogar, esteve no Palermo, no OFI Creta, no Pisa, na equipa B e e depois A do AC Milan e agora no Nápoles. Com apenas 42 anos, teve as oportunidades que muitos não conseguem ao longo de toda a carreira mesmo sem nunca ter conseguido nenhum título. Com a Serie A em definitivo condenada à luta por um lugar europeu (apesar da série de cinco vitórias nos últimos seis jogos) e a eliminatória dos oitavos da Champions frente ao Barcelona em aberto, era na Taça de Itália que os napolitanos apostavam tudo para ganhar um troféu esta temporada, que seria também o primeiro do treinador. Mas havia mais razões que tornavam o encontro diante do Inter diferente para Gattuso neste regresso do futebol.

Depois do período de confinamento, o treinador voltou aos treinos e foi nesse momento, no início deste mês, que teve a pior notícia em termos familiares: após uma longa luta de vários meses contra uma doença rara, Francesa, a irmã de 37 anos, acabou por falecer numa unidade de cuidados intensivos de Milão. Também por isso, o plantel do Nápoles tinha mais um motivo para defender a vantagem conseguida fora frente ao Inter por 1-0, na primeira mão da Taça da Itália. Aliás, o arrepiante minuto de silêncio em memória de todas a vítimas de Covid-19 com três profissionais de saúde de bata e máscara no meio-campo terminou com jogadores e árbitros a aplaudirem aqueles que estiveram na linha da frente e Gattuso, de lágrimas nos olhos, a enviar um beijo para o céu.

No entanto, o jogo dificilmente poderia ter começado pior para os napolitanos: no segundo canto do jogo, o Inter chegou à vantagem que empatava a eliminatória com Eriksen a bater na esquerda em arco, Di Lorenzo a dar um ligeiro toque na bola e Ospina a deixar passar por entre as pernas de forma atabalhoada (3′). Candreva, dentro do quarto de hora inicial, atirou a rasar a trave num lance que podia ter virado por completo a eliminatória. A equipa de Milão aproveitou da melhor forma o brinde do golo inicial para tomar conta do jogo e dominar por completo, tendo mais situações por Eriksen, Brozovic e Lukaku num domínio que se fazia sentir na zona do meio-campo e não só bloqueava o Nápoles como construía ações ofensivas de qualidade, como aconteceu aos 32′ com Ashley Young a cruzar de pé direito na esquerda para cabeceamento de Lukaku e grande defesa de Ospina.

Só dava Inter, que teve ainda a benesse de ver o ala inglês fugir ao segundo amarelo num lance imprudente onde teve aquela “manha” de se deixar ficar no chão e ser “poupado” a uma sanção muito reclamada pelos jogadores do Nápoles. E só não deu mais porque, na sequência de mais uma grande jogada em transição do conjunto de Milão, Candreva apareceu isolado na área descaído sobre o lado direito para um remate ao ângulo defendido pela mão esquerda de Ospina, a mão salvadora que iria evitar o segundo golo dos visitantes e também lançar o empate numa saída rápida das unidades mais adiantadas com Insigne a assistir Mertens para um golo histórico que colocou o belga como melhor marcador de sempre dos napolitanos à frente de Hamsik e Maradona.

Estava tudo em aberto para mais 45 minutos de um jogo que, ao contrário do que aconteceu no Juventus-AC Milan da véspera, mais parecia ter duas equipas sem paragem devido à pandemia: o Nápoles não conseguiu manter o mesmo nível coletivo apresentado na melhor série de resultados da temporada, entre fevereiro e março, mas em termos de intensidade e qualidade foi sempre o encontro interessante com o Inter a manter-se mais presente no encontro mas os visitados a conseguirem também alguns bons lances ofensivos. No final, e apesar de toda a pressão do conjunto de Antonio Conte já com Alexis Sanchéz e Moses em campo, Ospina continuou a ser herói e o Nápoles garantiu presença na final da Taça, onde Gattuso poderá ganhar o primeiro título frente à Juventus.

“O Conte é um treinador de topo, o Gattuso está a tornar-se um treinador de topo. Está a crescer e está a mostrar isso mesmo no Nápoles. Chegou num período difícil e parecia o fim de uma era para a equipa, entre as lesões e as situações difíceis que passavam. Conseguiu que se voltassem a juntar de forma sábia, calma, consistente e até rígida em termos de comportamento. Hoje conseguimos perceber que é uma equipa do Gattuso”, comentou antes do jogo Marcelo Lippi, antigo treinador de ambos, numa entrevista à Gazzetta dello Sport. Esta noite, até em termos táticos, Conte foi melhor mas Gattuso saiu a ganhar num duelo que começa agora a fazer a sua história.