Quarta-feira, 7 Dezembro 2016. Quem vai do Lumiar para o Bairro Alto, tem direito a um pit stop a meio caminho. Antes de subir a Luz Soriano, entra-se na Casa da Índia e leva-se uma sande. Assim mesmo, sande. No singular. No deve e haver do entrar, não entrar, pedir, não pedir, pagar, não pagar e sair, não sair, o restaurante é uma alegria-só. E a culpa da ruidosa algazarra é dos adeptos italianos do Nápoles, ainda bêbados de felicidade pela vitória na Luz. A mesa de quatro pessoas encostada à janela levanta-se em peso, de copo em riste, e grita para o fundo da sala. Num abrir e fechar de olhos, umas 12 pessoas levantam-se e fazem o brinde. Patati patata, birubiru birubiru, babereboopi, bibaroopiba, pa, pa, eles (italianos) falam assim. E são divertidos. Quase todos.

Quase todos são divertidos? Ou quase todos falam assim? É o bloco b. Gennaro Gattuso, por exemplo, pertence à escola dos italianos mais calmos a falar. Menos exuberantes, vá. Em nítido contraste com o passado de jogador, em que acumula recordes a torto e a direito: o jogador com mais quilómetros nas pernas, mais aproximações ao árbitro, mais intimidações aos adversários, mais esbracejares para o ar e mais vontade de ganhar. Ai sim, e mais cartões? Nem pensar, esse recorde é de Felipe Melo. Então, Gattuso está em segundo. Nem pensar, é Marco Materazzi. Baaaah, Gattuso em terceiro lugar.

Gattuso, buongiorno.
Buongiorno. Quem és?

Rui Miguel Tovar, jornalista de Portogallo.
Portogallo? E o que queres?

Uns cinco minutos com o Gattuso.
Dai [como quem diz, despacha-te].

Mundial-2006, Itália-Alemanha nas meias. Se o Gattuso vir o cartão amarelo, falha a final. E agora?
É uma prova de maturidade. Quem começa um projecto, gosta de o acabar em beleza. Essa Itália, metida no calciocaos, deu uma prova inequívoca de maturidade durante todo o Mundial. Eu não fugi a essa imensa responsabilidade. Durante o Mundial, só empatámos um jogo até à final, com os EUA, curiosamente o único em que sofremos golos. Estávamos mais unidos e concentrados que nunca. Daí a vitória. Daí a ausência de cartões, tanto na meia-final como na final.

Qual a sua missão na final?
Zidane. Já não era a primeira vez que o marcava e aquilo dava-me sempre insónias na noite da véspera. Rezava para que ele não se lembrasse de fazer magia.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Quem foi o mais mágico da infância do Gattuso?
Salvatore Bagni. Era o meu ídolo. Jogava no Nápoles campeão italiano, era a muleta do Maradona. Quando o Bagni assinou pelo Inter, o meu pai, fervoroso adepto do Milan, proibiu-me de colar um poster do Bagni no meu quarto.

A família do Gattuso era toda do Milan?
Toda.

No Milan, o Gattuso joga com o Rui Costa.
Manuel Rui Costa. No tempo dele, fomos campeões italianos e europeus. Era um grande, até parecia que jogava com as mãos pela forma perfeita como passava a bola para os avançados. Deve ter feito mais de 50 assistências. Fez, de certeza [yup, 68 no total entre 2001 e 2006]. Era um fenómeno.

E o Kaká?
Se o Kaká não tivesse aquela Bola de Ouro [em 2007, à frente de Ronaldo e Messi], eu mesmo mandava fazer uma Bola de Ouro para lhe entregar. Ele jogava muito.

E o Pirlo?
Outro que jogava muito. Só que aquele ar de senhor é para enganar. Ele está sempre a brincar, não pára. Uma vez, acabei de almoçar e esqueci-me do telefone em cima da mesa. Ele viu e aproveitou para enviar um sms ao Galliani [vice-presidente do Milan] a oferecer a minha irmã. Fora isso, um génio. Juntos, ganhámos o Europeu sub-21, na República Checa. Ele marcou os dois golos da final. Aliás, sempre que o via jogar, passava-me pela cabeça a ideia de que, provavelmente, eu não poderia ser considerado um jogador de futebol.

Então?
Se jogarem onze Gattusos contra outros onze Gattusos, o jogo acaba 0-0 pela certa.

Nãããã. Li que o Gattuso foi eleito o melhor jogador do campeonato italiano de juniores em 1997.
Peruuuuuugia, grandes tempos. O Marco foi o meu grande irmão dessa altura.

Marco?
Materazzi. Ele levava-me para todo o lado, no seu carro, porque eu ainda não tinha carta de condução, e até me ajudou com dinheiro. Juntos, ganhámos o Mundial-2006.

Antes, o Gattuso foi jogar para a Escócia.
Só tinha 19 anos e tornei-me conhecido como o mais jovem emigrante do futebol italiano.

https://www.youtube.com/watch?v=ULz-E8ZbySE

No Rangers, um clube protestante.
Imagina: eu, um católico, a jogar numa equipa de protestantes. Quando me via na rua, os adeptos do Celtic, equipa católica de Glasgow, cuspiam no chão e faziam-me o sinal da cruz. Que mundo. A minha sorte é que não entendia nada do que eles diziam.

Inglês?
Escocês, aquilo é escocês. É um outro dialecto. Para quem aterrou de pára-quedas, aquilo era um outro mundo.

O Gattuso deu-se bem nos dérbis Rangers-Celtic?
No primeiro dérbi, o treinador [Walter Smith] preparou-me a semana toda. No dia do jogo, virou-se para mim e disse-me: ‘Take it easy Rino son”. E eu nas calmas. Era só mais um jogo. Pensava eu, que até me estreara pelo Rangers no campeonato de reservas com o Celtic, num estádio a abarrotar de pessoas e de patriotismo. Aos 20 segundos, vi o primeiro cartão amarelo. Aos 10 minutos, vi o segundo e fui expulso. Foi uma das mais arrepiantes tardes da minha carreira. No mau sentido, claro. Ainda hoje quando me lembro dos gritos dos adeptos de ‘Raaaaaaino, Raaaaaaaino’, fico com pele de galinha. Fiquei conhecido como o Braveheart, adoro o Rangers.

https://www.youtube.com/watch?v=RDPuBn3diic

Foi difícil sair de lá?
Muito, muito. Foi lá que conheci os pais da minha mulher. Eram donos do melhor restaurante italiano em Glasgow e faziam um tagliatelle divinal. Primeiro conheci os futuros sogros, só depois conheci a futura mulher [Monica].

Glasgow é mesmo fascinante.
Muito. No dia em que rescindi o contrato, na casa do presidente do Rangers [David Murray], estavam lá dois amigos dele, o Sean Connery e a Catherine Zeta Jones.

Uauuuu.
Filmavam o ‘Entrapment’. Enquanto debatia os números da rescisão com o presidente, era ouvir o 007 a intrometer-se na conversa com aquele sotaque: ‘Would you like a cup of coffee?’.

Quem era o melhor amigo do Gattuso no Rangers?
Gazza.

Gascoigne?
Ele estava sempre sempre sempre à minha disposição. Para o bem e para o mal.

Para o mal?
Uma vez, estou a equipar-me no balneário para um treino quando toco nos meus calções e noto-os mais pesados que nunca. E é aí que vejo que ele borrou-se no meio dos meus calções. Juro. Ele é um caso à parte. Quando jogávamos fora de Glasgow, ali perto, costumávamos ir de autocarro. Sempre que ultrapassávamos um carro com mulheres ou simplesmente com uma mulher, o Gazza estava todo nu, a fazer acrobacias com o corpo e gestos obscenos. No balneário, ninguém podia sair antes dele. Caso contrário, quando regressasse, já não tinha escova de dentes, nem desodorizante ou perfume. Ele ficava com essas coisas num instante.

Obrigado, Gattuso.
De nada, portoghesi.