Para o poeta e crítico literário Pedro Mexia, o motivo para a vencedora do prémio Nobel da Literatura deste ano — Louise Glück — ser muito pouco conhecida em Portugal, onde não está sequer traduzida (exceto no caso de alguns poemas, em revistas literárias) e publicada, passa sobretudo pela pouca popularidade da poesia entre os leitores contemporâneos.

Louise Glück “é um nome totalmente consensual — se é que há algum nome consensual na literatura — no campo da poesia americana contemporânea e da poesia contemporânea em geral”, defendeu Mexia, em declarações à Rádio Observador, após o anúncio de entrega do Nobel da Literatura à poeta norte-americana. O problema é que “o meio da poesia não é o meio do romance”.

“O problema dos poetas é que há muitas décadas que não são figuras genericamente conhecidas. Se pensarmos, por exemplo, nos poetas que ganharam nas últimas décadas, exceção ao Bob Dylan, que é um caso à parte, e também do Seamus Heney que realmente era muito conhecido, os poetas mesmo quando são muito conhecidos são conhecidos no meio da poesia”.

Pedro Mexia lembrou que quando o Nobel da Literatura foi entregue em 2011 ao sueco Tomas Tranströmer, este foi também “recebido como um desconhecido”, apesar de ser “um dos poetas mais conhecidos naquela altura entre as pessoas que acompanhavam a poesia contemporânea”. E que “dos últimos sete ou oito poetas que ganharam, o único que era realmente tão conhecido como os romancistas era o Seamus Heney. Pelo menos no mundo anglo-saxónico toda a gente conhecia o Seamus Heney e as vendas dos livros dele, não sendo semelhantes às dos romances, não tinham nada a ver com aquele campeonato das centenas de exemplares a que a poesia está geralmente votada”.

A época em que os leitores conheciam ou pelo menos sabiam o nome de muitos grandes poetas contemporâneos do seu tempo “já passou um pouco”, entende o crítico literário — o que contribui para a sensação de surpresa face à entrega do prémio a Louise Glück. A norte-americana é uma poeta que “ganhou tudo o que havia para ganhar”, poeta laureada dos EUA, “ganhou o Pullitzer e muitos outros prémios pela sua carreira” e “está em todas as antologias críticas”.

President Obama Awards 2015 National Medal Of Arts And National Humanities Medal

O presidente Barack Obama entrega a Louise Glück a Medalha Nacional das Artes e Humanidades, em 2016 (@ Alex Wong/Getty Images)

Os autores que toda a gente que lê e acompanha a literatura contemporânea conhece são os romancistas”, vincou Pedro Mexia.

Mas nem sempre o cenário foi este. “Se pensarmos por exemplo no tempo do [Pablo] Neruda, toda a gente que lia livros sabia quem era o Neruda. Ou o Carlos Drummond de Andrade, ou seja quem for. Isso para o bem ou para o mal acabou. Na melhor das hipóteses as pessoas sabem quem são os songwriters [escritores de canções, como Bob Dylan]. Já não existe a figura do poeta como figura muito conhecida”, afirma Mexia.

Nobel da Literatura. “Louise Glück é um nome totalmente consensual”, diz Pedro Mexia

Uma escrita entre “o quotidiano e o doméstico” e a “dimensão mitológica”

A recém-vencedora do Prémio Nobel da Literatura “não é, muito claramente, o que se pode chamar de escritora política”, pese embora a “dimensão feminina” esteja naturalmente presente na sua obra, referiu ainda Pedro Mexia.

A poesia da Louise Glück tem algumas parecenças, embora tenha também muitas diferenças, com a poesia da Sylvia Plath. Há uma ligação muito forte [na sua escrita] entre o lado, digamos, quotidiano e doméstico e depois uma dimensão mitológica. Isso acontece às vezes na poesia da Plath e acontece muito na poesia da Louise Gluck”, aponta o crítico.

Para Pedro Mexia, a entrega do prémio a Louise Glück pela Academia Sueca fizeram da edição deste ano um “prémio pacífico”, não só “porque os poetas em geral não dão grande polémica” (porque não são muito conhecidos), mas também porque “embora seja uma escritora americana, não é uma escritora que tenha uma espécie de anticorpos associados” — ao contrário de Peter Handke, vencedor da edição anterior do Prémio Nobel da Literatura.

O que acontecerá de seguida à autora é o habitual “quando é premiado um autor que não é evidente para toda a gente”, diz Pedro Mexia. “Pode haver pessoas a procurar quem é, as que já a conhecem podem ficar contentes e a maioria das pessoa pode dizer: não sei quem é nem quero saber, que é a reação mais generalizada num caso destes”.

Quanto a outros escritores que poderiam perfeitamente ter sido premiados, Pedro Mexia cita dois: Javier Marías e Milan Kundera. O primeiro “é uma aposta segura, no sentido em que me parece que é claramente um dos grandes escritores contemporâneos. Parece-me bastante evidente”. O segundo “do ponto de vista dos livros que publicou no passado, era evidentemente um autor completamente Nobelizável”.

Poeta norte-americana Louise Glück vence Prémio Nobel da Literatura

Já sobre as discussões relativas à entrega de um prémio a uma escritora de poesia, Pedro Mexia defendeu: “O género literário não tem sido uma preocupação predominante nas escolhas do Nobel da Literatura”, como atesta a distinção recente da contista Alice Munro. “Sempre que um não-romancista é premiado, a questão do género literário vem à baila. Mas um dos aspetos positivos nesta lista de premiados é que a Academia sueca tem mostrado que o género literário não é o critério fundamental”.

A entrega do Nobel a Bob Dylan, em 2016, abriu aliás a porta a inovações, defendeu o crítico literário, que questiona: “Com essa conceção de abrangência dos géneros, não estaria na altura de premiar por exemplo um argumentista? Todos temos noção que algumas da melhores coisas que lemos e ouvimos nos últimos anos foram argumentos televisivos [de séries], desta fase de ouro da televisão. Não é literatura? Porque é que não é literatura?”.