A poeta norte-americana Louise Glück é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2020. O galardão foi-lhe atribuído pela sua “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna a existência individual universal”, justificou a Academia Sueca.

O anúncio foi feito ao final da manhã desta quinta-feira, em Estocolmo, pelo secretário permanente da Academia. Mats Malm revelou ter falado momentos antes com a laureada: “A mensagem foi recebida com surpresa mas, pelo que me pareceu, foi bem acolhida”, adiantou o secretário. Numa curta entrevista divulgada durante a tarde, Glück mostrou-se sem palavras, admitindo que era tudo “demasiado novo” e que não era capaz de dizer o que significava ser galardoada com o Prémio Nobel.

O presidente do Comité do Prémio Nobel da Literatura, Anders Olsson, a quem coube apresentar a autora, destacou a sua voz “inconfundível”, que é ao mesmo tempo “cândida e intransigente”. “Sinaliza que esta poeta quer ser compreendida, mas que é também uma voz cheia de humor e sagacidade mordaz. Isto é um grande recurso quando Glück trata um dos seus grandes temas, o da mudança radical, em que um passo em frente é dado a partir de uma profunda sensação de perda”, afirmou.

[O vídeo do anúncio do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2020:]

Louise Glück é a 16ª mulher a vencer o Nobel da Literatura desde a sua criação, em 1901, e uma das poucas norte-americanas a recebê-lo. Apesar de os Estados Unidos da América serem o segundo país com maior número de laureados, com 14 vencedores, Glück é apenas a terceira mulher galardoada e a primeira poeta norte-americana. Antes dela, foram galardoadas Toni Morrison, em 1993, e Pearl S. Buck, em 1938, ambas romancistas.

O cenário continua desanimador, mas talvez a escolha de Glück seja um sinal de que a Academia Sueca está finalmente pronta para abraçar a mudança e pôr um ponto final nos anos conturbados, marcados por uma série de escândalos que abalaram o nome do organismo: o Nobel da poeta norte-americana acontece dois anos depois da atribuição do mesmo prémio à polaca Olga Tokarczuk (manchada pela escolha do muito polémico Peter Handke, em 2019), que ganhou três anos depois da bielorrussa Svetlana Alexievich. Isto significa que, em cinco anos, venceram três mulheres.

Era, aliás, o nome de uma mulher que leitores e críticos queriam ver ser anunciado esta quinta-feira (as listas de apostas incluíam sobretudo escritoras). Mas a escolha da antiga Poeta Laureada dos Estados Unidos, e verdade seja dita, não deixa de ser uma surpresa. Nos dias que antecederam o anúncio, os nomes mais repetidos foram os da guadalupina Maryse Condé e da antiguana Jamaica Kincaid, um claro sinal de um desejo mais ao menos generalizado de ver o Nobel nas mãos de uma escritora negra. Também a canadiana Anne Carson, que já em 2019 tinha sido apontada como possível vencedora, foi referida por alguns críticos como a eventual laureada deste ano, mas o Nobel acabou por ir para outra poeta da América do Norte.

Ao saber da atribuição do prémio a Glück, o antigo Poeta Laureado Robert Pinsky disse: “Às vezes, o mundo acerta nestas coisas. E — penso que não seja uma indiscrição dizê-lo — um soberbo novo livro de poemas será lançado por ela em breve”, citou o The Washington Post. Glück não lança um novo livro de poesia desde 2014.

Louise Glück reage ao Nobel da Literatura: “É demasiado novo, não sei mesmo o que significa”

A poeta reagiu à atribuição do Nobel durante uma curta entrevista, divulgada durante a tarde desta quinta-feira. Questionada sobre o que significa para si receber o prémio literário, Louise Glück admitiu que era tudo demasiado recente e que ainda não tinha tido tempo de processar o que tinha acontecido. “É demasiado novo, não sei mesmo o que significa”, disse, revelando que ia usar o dinheiro para comprar uma casa em Vermont.

“Quer dizer, é uma grande honra. Há alguns laureados que não admiro, mas depois penso naqueles que admiro, alguns deles muitos recentes. Em termos práticos, quero comprar uma casa em Vermont. Tenho um apartamento em Cambridge [em Massachusetts] e pensei, bem, agora posso comprar uma casa.”

“Acima de tudo”, a escritora disse estar preocupada com o impacto que o prémio terá no seu dia a dia e na vida daqueles que lhe são próximos. Apesar de ser uma das mais conhecidas poetas norte-americanas, Glück manteve-se sempre afastada da vida pública. “Pode perturbar as coisas”, afirmou.

Uma da mais celebradas poetas norte-americanas

Louise Glück, de 77 anos, é uma das mais celebradas poetas norte-americanas. A escritora nasceu a 22 de abril de 1943, em Nova Iorque, e estreou-se no mundo da literatura em 1968, com a coletânea de poemas Firstborn, sendo desde logo apontada como uma das vozes mais fortes da nova geração de poetas dos Estados Unidos da América. Temas como a infância e vida familiar ou as relações estreias entre pais e irmãos destacaram-na de outros autores, e continuaram presentes na sua obra, constituída hoje por 12 volumes de poesia e alguns ensaios.

Mas se “o contexto autobiográfico é importante”, a escritora “não deve ser vista como uma poeta confessional”, dado que “procura a universalidade e inspira-se também em mitos e temas clássicos”, destacou o presidente do Comité do Prémio Nobel da Literatura, Anders Olsson, característica que a aproxima mais uma vez de uma das favoritas deste ano, a canadiana Anna Carson, classicista conhecida pela sua tradução dos fragmentos de Safo. Na sua obra, é possível encontrar também “imagens quase brutalmente diretas de relações familiares duras e dolorosas”.

Livros como The Triumph of Achilles, publicado originalmente em 1985, e Ararat, de 1990, fizeram com que Glück encontrasse “um público crescente” dentro e fora dos Estados Unidos. As obras da autora não se encontram publicadas em Portugal, mas alguns dos seus poemas saíram em revistas e coletâneas de poesia. Um deles, “O Poder de Circe”, traduzido por José Alberto Oliveira, foi incluído na antologia Rosa do Mundo. 2001 poemas para o futuro, editada em 2001 pela Assírio & Alvim e atualmente esgotada.

Leia aqui o poema “O Poder de Circe”, de Louise Glück, Prémio Nobel da Literatura de 2020

Em 1993, venceu o Pulitzer Prize, com The Wild Iris, uma coleção de poemas que coloca as flores de um jardim em conversa com um jardineiro. Um deles é “Snowdrops”, citado por Anders Olsson durante o anúncio desta quinta-feira. The Wild Iris é dos mais populares de Glück e cimentou a sua fama com uma das mais relevantes poetas norte-americanas da contemporaneidade. Outra obra famosa é Averno, uma interpretação do mito de Perséfone.

Em 2014, foi-lhe atribuído o National Book Award, um também importante galardão literário norte-americano, por Faithful and Virtuous Night, que aborda temas como o luto e a mortalidade. “O leitor é novamente atingido pela presença da voz e Glück aborda o tema da morte com notável graça e leveza”, apontou também Anders Olsson sobre a última coletânea da poeta. “Ela escreve poesia narrativa e onírica, recordando memórias e viagens e apenas parando e hesitando para apresentar novas perspetivas. O mundo é desencantado, apenas para se tornar magicamente presente outra vez.”

[Louise Glück lê um poema de Faithful and Virtuous Night, o seu último livro de poesia:]

Entre os prémios que recebeu ao longo da sua carreira, conta-se também o National Book Critics Circle Bollingen Prize, atribuído pela Universidade de Yale, onde é professora de Inglês. Foi Poeta Laureada dos Estados Unidos entre 2003 e 2004, uma nomeação que não esperou ter influência no número de leitores que acompanhava a sua obra: “Não estou preocupada com aumentar a minha audiência”, disse na altura, de acordo com o The Guardian, admitindo que preferia que esta fosse “pequena, intensa, apaixonada”.

Em 2015, o então Presidente norte-americano, Barack Obama, condecorou-a com a Medalha Nacional de Humanidades, atribuída anualmente a uma dúzia de artistas e historiadores pelo seu contributo para as humanidades.

President Obama Awards 2015 National Medal Of Arts And National Humanities Medal

Louise Glück foi condecorada pelo então Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, em 2015, numa cerimónia na Casa Branca (Alex Wong/Getty Images)

No ano passado, o galardão foi atribuído ao escritor austríaco Peter Handke, “pelo trabalho influente que, através do uso de uma linguística ingénua, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”. A escolha da Academia Sueca foi polémica e gerou contestação dentro e fora do universo literário devido às acusações graves que pairam sobre o autor, nomeadamente a de  conivência para com o regime de Slobodan Milošević. Handke esteve presente no funeral do ex-presidente sérvio e discursou durante a cerimónia.

A entrega do prémio ao autor austríaco foi anunciada ao mesmo tempo que a escolha da polaca Olga Tokarczuk para o Nobel de 2018 devido à paragem de um ano na sequência do escândalo sexual envolvendo o dramaturgo francês Jean-Claude Arnauld, marido de uma ex-membro da Academia Sueca e dono de um clube literário parcialmente financiado por esta. Foi a primeira vez que a Academia anunciou dois Nobel ao mesmo tempo.

O Prémio Nobel da Literatura tem o valor pecuniário de cerca de 1 milhão de euros. Ao contrário de anos anteriores, o vencedor não irá reunir-se em Estocolmo com os outros vencedores devido à “situação pandémica”. “Em vez disso, a cerimónia do prémio e os discursos” serão transmitidos online, com sessões individuais para cada categoria, foi anunciado esta quinta-feira. “Os laureados vão ser convidados para a cerimónia do próximo ano em Estocolmo.”