Título: Demasiado e Nunca Suficiente
Autor: Mary L. Trump, PhD
Editor: Porto Editora
Páginas: 240
Preço: 17,70€

A capa de “Demasiado e Nunca Suficiente”, de Mary L. Trump (Porto Editora)

Foi publicada recentemente em Portugal a tradução do alegadamente bombástico retrato psico-patológico da família Trump feito por um dos seus, Mary L. Trump, filha do irmão mais velho de Donald. São demasiados os problemas do livro e começam ainda antes da primeira linha.

Logo na capa, a autora decide assinar como Mary L. Trump, PhD, enquanto na dedicatória invoca o seu falecido e muito amado pai, Freddy Trump. Mais do que revelar um evidente pedantismo, ao puxar dos galões académicos, Mary Trump está a pedir-nos que confiemos na sua capacidade analítica e competência profissional à medida que espezinha toda e qualquer deontológica médica. Mary Trump dedica mais de duzentas páginas a um diagnóstico à distância de uma personagem que não esconde querer derrubar e com quem, como a própria admite, não teve contacto direto durante décadas e de quem nunca foi propriamente próxima. Mary é a filha que busca vingar as atrocidades cometidas contra o pai, a mulher rejeitada enquanto ghost-writter do atual presidente dos Estados Unidos, a neta deserdada e escorraçada da família. Nada disto lhe retira, naturalmente, o direito a ter uma opinião ou a escrever a sua versão da história, mas deveria retirar-lhe a possibilidade de se escudar atrás do seu saber científico.

É, por isso, espantoso ver jornalistas do Washington Post alegar que aquilo que confere credibilidade ao retrato de Mary é a confissão da autora de que o escreveu para impedir a reeleição de Trump. Esta ideia prodigiosa de que devemos confiar em alguém apenas porque não tenta esconder as suas intenções políticas ao elaborar um retrato pretensamente científico dá desde logo a vitória a Trump. A vitória é de Trump quando aceitamos sem hesitar este admirável mundo entrincheirado onde basta sinalizar a que regimento pertencemos para obtermos o apoio e louvor de todos os restantes camaradas. A vitória é de Trump quando a banalidade e a falta de rigor se tornam palavras de ordem e quando exaltamos comportamentos demagógicos que repudiaríamos em uníssono vindos do outro lado da barricada. A vitória é de Trump quando impera a lógica de que só se perdem as que caem ao chão.

Qualquer pessoa com um mínimo de bom-senso perceberia que validar uma análise psicológica feita por uma sobrinha ressentida é em tudo semelhante a aceitar que seja a mãe das vítimas a julgar os seus alegados assassinos. A própria Mary L. Trump explica, logo no prólogo, que para cumprir o que o seu livro propõe seriam necessários testes a que Trump nunca se sujeitaria. Logo, como Trump não está disposto a fazê-los, Mary (e quem a aclama) decide tratar esses testes como Trump trata os ensaios clínicos de vacinas: idealmente seria bom que existissem, mas, não havendo essa possibilidade, toca de nos injetarmos com seringas de lixívia.

Em vez de suspender o seu projeto académico-científico por manifesta falta de dados e distância e escrever um livro apenas como sobrinha de Trump, Mary desata aos pontapés à ciência e segue por aí fora como por vinha vindimada, sem mostrar qualquer disponibilidade para verdadeiramente escutar o outro lado.

A falha de Mary não é, de todo, original. Em Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, Freud, um acérrimo defensor de que o trabalho psicanalítico compete em grande medida aos pacientes, decide deitar às malvas esta teoria e analisar uma recordação de um paciente com quem, por motivos fáceis de compreender, nunca contactou diretamente. Freud é, como sempre, convincente e persuade-nos da absoluta verdade da sua teoria acerca da presença de um abutre nesta tão fundamental recordação. Acontece que Freud traduzira erradamente nibbio por abutre em vez de águia, o que invalidaria todas as conclusões a que chegara.

Se o erro de Freud é cómico, o de Mary L. Trump é grave por tornar por demais evidente o estado atual da discussão política. Refugiada num arcaboiço científico que visa intimidar o leitor, a sobrinha de Trump não se coíbe de descrever o tio com uma agressividade que deveria tornar evidente não a malvadez de Donald (que já nem sequer deveria ser assunto de discussão), mas a inaptidão de Mary para falar sobre uma causa que lhe é tão querida. É constrangedor, pelos piores motivos, ver a autora, decerto bem-intencionada, descrever o seu paciente involuntário como um “pequeno homem, mesquinho e patético – ignorante, incapaz, inapto para o cargo que ocupa e perdido na sua visão delirante da realidade”. Por muito incomodativo que seja ver uma criatura tão boçal como Trump na presidência dos Estados Unidos, o combate político não deve forjar novos métodos científicos à la carte, nem permitir que se alegue, sem qualquer prova, que Trump inveja Derek Chauvin, o agente que sufocou George Floyd até à morte.

Mary L. Trump explora o mais que pode a sua perspetiva profissional sobre o assunto porque, na verdade, o livro tem poucas informações relevantes sobre Trump. Demasiado e Nunca Suficiente faz um retrato horrendo e revelador do pai de Trump e do meio onde Donald Trump cresceu, mas não traz nada de verdadeiramente novo à discussão. Confirma o velho rumor que alega que Trump terá falsificado os exames de acesso à universidade; expõe mais uma vez as fraudes fiscais da família; e mostra a falta de devoção religiosa da família, um tema sensível junto dos eleitores do candidato republicano. No entanto, ninguém que não quisesse muito deixar-se enganar poderia acreditar no fervor com que Trump tenta toscamente falar da Bíblia. Percebe-se por isso que Mary L. Trump tenha insistido em colocar o seu título académico na capa, uma vez que sem ele restaria apenas o testemunho amargurado de uma das primeiras vítimas de Donald Trump e da sua visão do mundo em que the winner takes it all, and the loser has to fall. Ainda assim, talvez o livro que restasse depois dessa purga fosse bem mais importante do que este que agora nos chega. Talvez o combate a Trump deva agora ser feito dando ouvidos às suas verdadeiras vítimas, entre as quais Mary L. Trump merece naturalmente ocupar um lugar de destaque.

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