Em 1968, os EUA eram um país dividido pela Guerra do Vietname, sob o choque dos assassinatos de Martin Luther King e de Bobby Kennedy, e mergulhados no caos da contestação radical e do movimento contracultural. O discurso do “flower power” tinha-se extremado através de movimentos que apelavam à luta armada, à revolução violenta e aos motins anti-institucionais e anti-governamentais. Em finais de agosto de 1968, durante a Convenção Nacional do Partido Democrata, Chicago assistiu a violentos confrontos entre a polícia e manifestantes anti-guerra, para os quais o vice-Presidente Hubert Humphrey, a possível escolha do partido para concorrer contra Richard Nixon às eleições presidenciais, iria limitar-se a seguir a política de Lyndon Johnson, sobretudo no que respeitava ao Vietname.

[Veja os EUA em 1968:]

Logo após estes acontecimentos, foi reunido um “grand jury” federal para os investigar, que concluiu que as desordens se tinham devido muito mais a abusos de autoridade e de força por parte da polícia de Chicago do que às provocações e ataques dos manifestantes. No início de 1969, com Nixon já na Casa Branca, a sua administração decidiu passar uma mensagem musculada ao país e aos contestatários, e fazer uma demonstração de força política, pondo em tribunal sob várias acusações, incluindo conspiração e incentivo a motim, oito dos ativistas envolvidos nos graves conflitos de Chicago (cujo presidente da câmara, Richard Daley, era, recorde-se, um homem do aparelho do Partido Democrata, muito criticado pela sua forma prepotente de gerir a cidade).

Os acusados eram originalmente oito: os líderes do partido radical Yippie Abbie Hoffman e Jerry Rubin, cinco ativistas anti-guerra — o veterano David Dellinger, Tom Hayden (futuro marido de Jane Fonda), Rennie Davis, John Froines e Lee Weiner — e o Pantera Negra Bobby Seale, que seria afastado do processo a meio. É o julgamento deste grupo que Aaron Sorkin (“Os Homens do Presidente”) recria no filme da Netflix “Os 7 de Chicago”, que assume o formato convencional de um “drama de tribunal”, mas com uma pesada mochila ideológica, onde o realizador pretende fazer paralelos (que não colhem, dado os muito diferentes contextos histórico-políticos) com a atual situação nos EUA.

[Veja o “trailer” de “Os 7 de Chicago”:]

Pese embora todo o talento de Aaron Sorkin, que assina o argumento e realiza, para escrever diálogos vivos, criar situações realistas e emotivas e puxar pelos atores, “Os 7 de Chicago” é um “case study” de como a esquerda liberal-radical de Hollywood manipula, omite e ficciona factos e acontecimentos para puxar a brasa à sua sardinha política. Sorkin mantém intocado quase tudo o que lhe convém e corresponde ao que aconteceu nesses longos meses de 1969, no Tribunal Federal de Chicago, nomeadamente o facto do processo ser forçado e arriscado, dado as muitas provas que havia contra as forças da ordem (que tinham também agredido jornalistas, destruído câmaras de filmar e apreendido imagens), e o comportamento tendencioso e hostil do juiz Julius Hoffman.

[Veja uma entrevista com Aaron Sorkin:]

O filme apresenta os acusados como pertencendo a três grupos políticos muito diferentes uns dos outros em discurso, intenções, métodos de atuação e índices de radicalismo. Num deles estão os ditos “moderados”, o já cinquentão pacifista (e objetor de consciência na II Guerra Mundial) David Dellinger, pai de família e chefe de escuteiros, os militantes anti-guerra Froines e Wiener, e Hayden e Rennie, nomes da chamada New Left e líderes da organização estudantil Students for a Democratic Society (apesar de ambos já estarem à beira dos 30 anos); no outro, os “stoners” Rubin e Hoffman, pintados como uma espécie de Palhaço Rico e Palhaço Pobre da “revolução cultural” à americana, com muito LSD, amor livre à descrição e bombas incendiárias; e finalmente, sozinho, o extremista negro Bobby Seale.

[Veja os atores falarem sobre as suas personagens:]

Na verdade, eram todos politicamente mais chegados do que “Os 7 de Chicago” nos quer fazer crer. Hoffman e Rubin, por exemplo, estavam longe de ser os “junkies” coloridos e idealistas lunáticos, mas basicamente inofensivos, que Sorkin pinta (Rubin chegou a dar aulas sobre como fazer “cocktails Molotov”). E Tom Hayden de forma alguma representava a face civilizada, aceitável, “clean”, do movimento anti-guerra. Por várias vezes, nos anos 60, Hayden visitou o Vietname do Norte e o Cambodja, e deixou-se manipular angelicamente pelos Vietcong. Por outro lado, o realizador mostra o advogado de acusação Richard Schultz, como moderado e nutrindo até uma certa simpatia pelos ativistas, quando, como alguém o definiu então, era um “cão de fila do governo”.

[Veja uma sequência do filme:]

O julgamento foi um circo político e Aaron Sorkin até peca por defeito neste aspeto da reconstituição. Vários artistas, escritores e activistas — Norman Mailer, Phil Ochs, Allen Ginsberg, Judy Collins, Timothy Leary ou Jesse Jackson – vieram depor em favor do septeto ou fazer partes gagas, e o advogado de defesa William Kunstler chegou a levar uma bandeira Vietcong para a sala de audiências. E a inevitável sequência final “edificante” do filme, em que Tom Hayden transforma a intervenção que ia fazer em nome dos sete acusados, numa leitura dos nomes dos soldados mortos em combate no Vietname, nunca aconteceu.

[Veja uma sequência do filme:]

Apesar de todo o inegável “métier” de Aaron Sorkin e de um elenco que inclui nomes como Frank Langella, Mark Rylance, Eddie Redmayne ou Sacha Baron Cohen (que é a cara chapada de Abbie Hoffman), este demonstrativo e falsamente equilibrado “Os 7 de Chicago” ficciona, altera e atenua em demasia acontecimentos, comportamentos e personalidades, para poder ser tomado como uma referência minimamente confiável sobre o julgamento. É menos “docudrama” que “docufiction”, um filme onde Sorkin, tal como o juiz Hoffman no tribunal, faz batota e não consegue ocultar para onde lhe pende a simpatia.

“Os 7 de Chicago” já está disponível na Netflix