Um palco e um cenário despido. Ouvem-se as habituais recomendações para que a plateia desligue os telemóveis. Os avisos são legendados num ecrã e devidamente traduzidos em língua gestual. É precisamente esta a língua que se torna protagonista do espaço teatral. A intérprete senta-se relaxadamente num sofá no canto inferior direito do palco, onde costuma estar, e a atriz surda começa a tomar conta da cena. Enumera algumas vantagens em não ouvir certas coisas, como piropos, o choro de uma criança ou gases intestinais, e posiciona o público no lugar onde costuma estar quando vai ao teatro. “Os papéis inverteram-se. Sentem-se desconfortáveis?”

“A ideia deste espetáculo é precisamente inverter a relação que normalmente existe numa peça de teatro com tradução de língua gestual portuguesa, em que o interprete está remetido para um cantinho e as vedetas estão no centro da cena”, explica José Nunes, encenador da companhia A Estrutura. Criar “uma nação plurilinguística em cena” é um dos objetivos do coletivo portuense, fundado em 2009.

“Tencionamos que seja um verdadeiro espetáculo bilingue, que cruze a língua gestual portuguesa com a língua portuguesa, falada ou escrita. Propomos uma reflexão sobre a própria ideia de língua, quais os seus limites, possibilidades e identidades, seja ela energética, visual ou gráfica”, sublinha.

De elementos da cenografia aos estampados nos figurinos, são várias as referências aos triângulos, uma referência ao passado que aqui é apropriada como identidade e sinónimo de poder. “Nos campos de concentração durante o Holocausto eram usados vários triângulos nos uniformes para distinguir minorias, os cor de rosa para os homossexuais, os castanhos para os ciganos, os pretos para as lésbicas e os azuis para os surdos”, destaca Diogo Bento, ator e também criador da peça.

“A comunidade surda vai ficar super orgulhosa de ver a sua língua a brilhar. O teatro está a virar ao contrário e isso é maravilhoso”, diz Joana Cottim

A partir de um texto escrito de raiz com o contributo de Joana Cottim, a atriz surda protagonista, onde as mudanças foram muitas, a dramaturgia vai mais longe e explora a comunidade surda ao longo de vários séculos, desde a sua origem à sua luta por uma língua própria. “Coisas específicas da língua, que eles nunca imaginaram, por exemplo, o silêncio corresponder ao escuro. Não senti que foi uma invasão, senti que foi uma interacção em que as duas línguas estariam em pé de igualdade e há um respeito entre elas”, acrescenta Joana.

“O espetáculo foi construído desde o princípio sob a premissa de que a língua gestual portuguesa em cena era um elemento primordial para a conceção da própria peça. Não estamos apenas a fazer uma coisa em que a comunidade surda também pode vir assistir, estamos a fazer algo a partir da língua da Joana, em que os convidados somos nós. Estamos como visitantes de uma comunidade com quem queremos aprender, se nos apropriarmos de”, explica Diogo Bento, defendendo que a proposta da companhia abre possibilidade “sem que ninguém se sinta posto em causa ou melindrado por aquele não ser o seu lugar”.

Em 2016, Joana Cottim já tinha tido uma experiência no palco com a companhia Palmilha Dentada, como mediadora. “Senti que isso foi uma vitória, mas a taça consegui agora”, afirma, garantindo que o desafio nesta peça “é completamente diferente”, uma vez que é o surdo que está no centro do palco. “A comunidade surda vai ficar super orgulhosa de ver a sua língua a brilhar (…) O teatro está a virar ao contrário e isso é maravilhoso.

Para Joana Cottim, o impacto de chegar à comunidade ouvinte “será enorme” e tudo se resume uma questão de acessibilidade. “A ideia do interprete é tornar o teatro acessível e que as pessoas não tenham escolher se vão olhar para o intérprete ou para a cena. É importante que o teatro seja visual e direto, essa é a sua essência.” Num mundo desigual, onde comunidade surda sai tantas vezes fragilizada, a cultura pode ser uma porta aberta para outras possibilidades de comunicação e compreensão. “Os surdos sentem-se estrangeiros no seu próprio país e isso é uma realidade dura. Nós vivemos e crescemos aqui, aprendemos o português, mas temos a nossa língua natural, a língua gestual. Sentimo-nos sempre outsiders. Este é o meu país, mas não me sinto incluída. Qual é a minha posição aqui? Qual é a minha presença neste país? Acho que o teatro e a cultura são uma forma de abertura.”

“Língua” estará em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, de 5 a 8 de novembro, e em 2021 passará pelo São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, e pelo Centro Cultural de Ílhavo.