Estalou o verniz nas nomeações aos Grammys norte-americanos: o cantor e artista canadiano The Weeknd chamou “corruptos” aos prémios musicais na sequência da revelação dos nomeados, nos quais não consta.

A reação intempestiva surgiu nas redes sociais, com The Weeknd a publicar um ‘post’ em que se lê: “Os Grammys continuam corruptos. Vocês devem-me, devem aos fãs e devem à indústria transparência”.

As críticas de The Weeknd aos prémios Grammys surgem depois da surpresa generalizada face à lista de nomeados, na qual o cantor que tem como nome de batismo Abel Tesfaye não figura. Isto quando tinha um álbum — After Hours, editado em 2020 — e uma canção muito popular, “Blinding Lights”, que eram dados como favoritos a categorias como “Melhor Álbum do Ano”, “Melhor Álbum de R&B”, “Melhor Canção do Ano” e “Melhor Canção de R&B”.

A probabilidade de The Weeknd ser nomeado em diferentes categorias aos prémios Grammy era considerada elevada, até por o álbum After Hours e a canção “Blinding Lights” terem conseguido a mistura considerada perfeita na indústria da música pop, que os Grammy tendem a premiar: não ter uma rejeição clara da crítica e conseguir um sucesso comercial estrondoso.

Para se ter uma ideia do impacto do álbum e da canção, a publicação musical Stereogum avança alguns dados. Desde logo, o single “Blinding Lights” bateu o recorde de mais semanas consecutivas no top 10 da lista Hot 100 da Billboard, que calcula quais as canções mais ouvidas semanalmente nos EUA. Já o disco After Hours passou quatro semanas como nº 1 da lista de vendas e audições nos EUA.

Como nota a publicação Sterogum, “os Grammys premiaram sempre o sucesso comercial tanto ou mais do que premiaram a qualidade artística” — e The Weeknd parecia ter todo o sucesso necessário a uma nomeação aos Grammys, aliando-o a algum respeito da crítica pop. O disco anterior do músico e cantor tinha aliás sido distinguido com um Grammy. Ao longo da carreira, The Weeknd já venceu três destes prémios e foi nomeado para dez categorias — este ano, nem para uma.

A surpresa pode ser explicada por um dado: o anúncio da participação de The Weeknd no evento Super Bowl, a final anual de futebol americano nos EUA. Segundo a publicação TMZ, o cantor terá sido alvo de um ultimato pelos organizadores dos Gramys: ou atuava na próxima cerimónia de entrega dos prémios, agendada para 31 de janeiro, ou no Super Bowl, agendado para o fim de-semana seguinte.

“Fontes conhecedoras da situação” disseram ao TMZ que a equipa que representa o artista canadiano discutiu o tema durante semanas com representantes dos Grammys e terá até chegado a um acordo para poder atuar nos dois eventos, mas as negociações foram difíceis e a ausência de The Weeknd entre os nomeados poderá ser explicada por isso.

O Presidente interino e executivo da Academia de Gravações Musicais norte-americanas, Harvey Mason Jr., publicou entretanto um comunicado reagindo às acusações de The Weeknd e negando a tese que liga a polémica à confirmação da atuação no Super Bowl. Escreveu: “Compreendemos que o The Weeknd esteja desapontado por não ter sido nomeado. Fiquei surpreendido e consigo sentir empatia face ao que está a sentir. A sua música este ano foi excelente e as suas contribuições para a comunidade musical e mais genericamente para o mundo são merecedoras da admiração de todos. Ficámos felicíssimos quando soubemos que ia atuar no próximo Super Bowl e também adoraríamos tê-lo a atuar no palco dos Grammys no fim de semana anterior”.

Infelizmente, todos os anos, há menos nomeações do que artistas que as mereciam. Mas como único prémio votado exclusivamente por membros, continuaremos a reconhecer e celebrar a excelência na música ao mesmo tempo que iluminamos os muitos artistas fantásticos que compõem a nossa comunidade global. Para ser claro, a votação para todas as categorias terminou muito antes de a atuação do The Weeknd no Super Bowl ter sido anunciada, pelo que de forma nenhuma poderia ter afetado o processo de nomeação. Todos os nomeados para os Grammy são reconhecidos pelo corpo votante pela sua excelência e damos os parabéns a todos”.

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Bob Dylan também ficou de fora

Outra das ausências mais notadas, como nota a publicação musical Pitchfork, foi a de Bob Dylan. Ao longo da carreira o mestre do cancioneiro norte-americano já venceu dez prémios Grammy e foi nomeado para 38 categorias.

Este ano, Bob Dylan tinha um disco de originais, o primeiro nos últimos oito anos (intitulado Rough and Rowdy Ways), como elegível, tal como um dos seus singles mais longos e bem sucedidos das últimas décadas, “Murder Most Foul”. No entanto, nem em categorias de género — como as referentes ao género Pop Tradicional — foi nomeado. O veterano compositor, instrumentista e cantor, também vencedor do Prémio Nobel da Literatura, não reagiu porém à ausência dos nomeados. E dadas as suas reações anteriores a distinções e a nomeações para prémios e galardões, é bem provável que não se tenha importado muito com o assunto.

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Para a próxima edição dos Grammys, Beyoncé — que não editou nenhum álbum de originais no período elegível — foi a artista mais nomeada, somando nove nomeações. A maioria premiou a canção “Black Parade”, editada este ano pela cantora. Entre os mais nomeadores seguiram-se, com seis nomeações, Taylor Swift, Dua Lipa e Roddy Rich. Há ainda dois portugueses na lista de nomeados: André Allen Anjos e Maria Mendes.