É uma das novidades desta edição da Web Summit – que, pelo seu formato online, é por si só uma grande novidade. Trata-se do Mingle, um espaço de speed dating que pretende simular aqueles momentos de coffee break que aconteciam nas áreas comuns da FIL e da Altice Arena e que nos faziam tropeçar em pessoas e ideias de negócio variadas. Com esta edição “covid free”, os momentos de networking tiveram que se reinventar e é precisamente no conforto de nossa casa – com ou sem café e bolachinhas ao lado – que os encontros se dão.

As regras do Mingle são bem claras: durante uma hora somos deixados nas mãos do algoritmo da plataforma da Web Summit que, através dos perfis e áreas de interesse dos participantes, gera conexões hipoteticamente vencedoras. Em cada encontro temos três minutos para conhecer a pessoa que está do outro lado do ecrã. Se a química acontecer, podemos sempre carregar em “connect” para aprofundar a conversa no chat da plataforma; caso contrário, basta lançar um “goodbye” cordial e ir à procura de melhor sorte num novo encontro.

É assim que começa uma relação no Mingle, com as primeiras instruções

No meu caso, conheci 16 pessoas, viajei por oito países de diferentes continentes e terminei a minha cruzada em casa, no Porto, na companhia do Joni Dores, da Bondlayer. Não posso dizer que tenha corrido mal: dei por mim a falar no chat com pelo menos quatro dos meus mingles, troquei contactos e apontei umas quantas ideias interessantes que ainda poderão vir a dar artigos futuros. Contudo, nem tudo nesta maratona foi perfeito.

A primeira chamada foi abaixo bem antes de terminarem os três minutos. Na segunda, senti-me a falar para a parede, não porque o meu interlocutor fizesse ouvidos moucos às minhas palavras, mas porque simplesmente não apareceu. Fiquei sem perceber se foi um problema técnico ou se o Annaniah Sakala se assustou com a minha carantonha (na eventualidade de vir a cruzar-se com este artigo, fica aqui o meu “Olá” para si Annaniah). E no terceiro mingle, a imagem da Darya Golovach congelou durante praticamente 30 segundos – um percalço que condicionou a preciosa gestão de tempo que é mais do que necessária neste tipo de encontros rápidos. Felizmente, a partir da quarta chamada, tudo correu sobre rodas.

Fiquei sem perceber se foi um problema técnico ou se o Annaniah Sakala se assustou com a minha carantonha

Falando sobre gestão de tempo, é muito importante partir para o Mingle com a câmara, o microfone e as ideias afinadas. O Jason Ding, que me apanhou mesmo antes de se entregar ao sono (era uma da manhã em Kuala Lumpur) confidenciou-me que perdeu os seus primeiros três encontros porque não tinha posicionado corretamente a câmara. E não raras vezes dei por mim a chegar ao clímax das conversas já com a barra do “time remaining” (tempo que falta) no vermelho, sinal de que o tempo estava prestes a acabar e de que a oportunidade de transmitir o essencial das ideias tinha passado à história.

Aquele sinal vermelho debaixo da imagem significa que o tempo para o Mingle está a acabar

Uma outra curiosidade do Mingle é a possibilidade de avaliar, no final de cada conversa, se gostámos ou não do nosso encontro. A avaliação não é visível para a pessoa que falou connosco, apenas serve para guardar uma lista dos nossos mingles favoritos no nosso perfil para depois nos conectarmos com as pessoas.

Esta é o ecrã de avaliação do Mingle

É sem dúvida uma ferramenta útil por vários motivos: primeiro, porque durante a conversa o botão de “connect” apenas se torna selecionável na reta final do encontro. Com o ímpeto de dizer tudo o que queremos, podemo-nos esquecer de adicionar o nosso interlocutor à nossa base de contactos e, desta forma, podemos sempre fazê-lo à posteriori; segundo, porque esta ferramenta permite-nos corrigir uma má gestão de tempo da conversa, aproveitando o chat para dizer tudo o que ficou por dizer no Mingle; e terceiro, porque a rapidez entre conversas muitas vezes não nos deixa sequer coçar um olho, quanto mais iniciar imediatamente uma conversa no chat com quem acabámos de falar.

Ainda assim, em duas ocasiões fiquei entre dois a três minutos parada, à espera que a plataforma da Web Summit me pusesse em linha com alguém. E da penúltima para a última conversa, a espera de seis minutos pareceu uma eternidade (para quem está uma hora sempre em alta rotação, seis minutos de silêncio soam a meia hora na nossa cabeça).

Em duas ocasiões fiquei entre dois a três minutos parada, à espera que a plataforma da Web Summit me pusesse em linha com alguém

Por falar em alta rotação, não se esqueça de ter uma garrafa de água ou qualquer bebida hidratante ao seu lado durante o Mingle. Não é difícil desidratar quando se está a falar durante uma hora seguida. Finalmente, não ceda à tentação de optar pelo piloto automático a cada novo encontro. Obviamente que um discurso alinhado pode e deve ser reaproveitado de conversa para conversa, mas uma postura demasiado maquinal quebra por completo a hipótese de gerar empatia – e sabemos que a empatia é muito importante num primeiro encontro.

Este meu Mingle aconteceu à tarde, mas esta quarta-feira ainda haveria outro horário, mais perto da hora de jantar. A Ivana Maznevska, que falou comigo diretamente da Macedónia, já estava a preparar a sua bebida de fim de dia, “para simular os encontros no Bairro Alto das edições anteriores”, atirou a sorrir: “No online não é a mesma coisa, ainda assim é mais interessante do que eu imaginava”. Um desabafo que, de um modo geral, traduz a minha experiência no Mingle: não é igual a um encontro presencial, mas, com preparação cuidada e palavras certas, bem misturadas com uma atitude descontraída, pode dar um bom cocktail de networking.

NOTA: há três momentos diários específicos para o Mingle (excetuando neste primeiro dia, em que só houve dois), apesar da ferramenta estar sempre disponível para os participantes da Web Summit. Horários dos Mingles dos próximos dias:

3 dezembro: 11h – 12h; 16h – 17h; 20h – 21h;
4 dezembro: 11h – 12h; 16h – 17h; 20h – 21h;