Os restos mortais humanos encontrados numa floresta de Kent, a 90 quilómetros da casa de Sarah Everard, pertencem à vítima, desaparecida na semana passada em Londres, informou o comissário assistente Nick Ephgrave, da Metropolitan Police de Londres.

O corpo estava escondido perto de um complexo de lazer abandonado em Ashford (Kent). Além desta floresta, a investigação decorre noutros dois locais: a casa do suspeito, Wayne Couzens, em Deal (uma cidade de Kent) e a uma garagem da família de Couzens, em Dover (Kent), por, alegadamente, ter uma rede de túneis militares nas proximidades.

“Como sabem, na quarta-feira à noite, os detetives que investigavam o desaparecimento de Sarah Everard descobriram um corpo escondido numa floresta em Kent”, disse o comissário assistente Nick Ephgrave, citado pelo MyLondon. “O corpo já foi recuperado e o procedimento formal de identificação iniciado. Posso confirmar que se trata do corpo de Sarah Everard. ”

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Sarah Everard tinha 33 anos e na noite de 3 de março, por volta das 21h00, saiu de casa de um amigo, em Clapham, no sul de Londres. Até sua casa, onde devia ter regressado, esperava-a um percurso de cerca de 50 minutos a pé. Nunca chegou a entrar. A polícia apelou a todas as pessoas com câmaras de vigilância ao longo do suposto trajeto que pudessem disponibilizar as imagens. Em paralelo continuou a investigação e, já na terça-feira, fez duas detenções.

Um polícia, Wayne Couzens, de 48 anos, e uma mulher na casa dos 30 anos foram detidos em casa. São suspeitos do sequestro e homicídio de Sarah Everard. O homem continua detido por decisão do tribunal e a mulher saiu sob fiança e deve voltar a comparecer na esquadra da polícia em meados de abril, segundo comunicado da Metropolitan Police. Passados dois dias na esquadra, o homem teve de ser assistido no hospital devido a ferimentos na cabeça, que fonte oficial diz terem sido causados pelo próprio na cela.

Wayne Couzens é um agente da Metropolitan Police, que estaria de folga no dia do desaparecimento de Sarah, casado e com dois filhos, tido como “um pai de família exemplar”, segundo várias entrevistas a familiares e vizinhos nos media britânicos. Não foi ainda confirmado se a mulher detida na mesma casa é a sua mulher, mas a detenção foi feita com base na suspeita de que terá ajudado Couzens no crime.

https://twitter.com/metpoliceuk/status/1369437837813223432

Para chegar a Couzens e à mulher de 30 anos, foram fundamentais as imagens das câmaras de vigilância de um autocarro londrino que fazia o mesmo trajeto que Sarah. A especialista em marketing tinha estado em casa de um amigo nas proximidades de Clapham e voltava a casa em Brixton. Nunca chegou e o telefone ficou desligado depois de ter terminado uma chamada com o marido enquanto caminhava até casa. A mulher de 33 anos usava um casaco verde, um gorro e umas calças pretas e brancas no momento em que desapareceu.

Wayne Couzens pertence ao Comando de Proteção Parlamentar e Diplomática tendo como principal função o patrulhamento das instalações diplomáticas. O facto de integrar um corpo de elite dentro da Metropolitan Police deixa toda a polícia numa situação desconfortável e têm-se multiplicado as declarações públicas para defender o corpo de polícia. A própria comissária Cressida Dick disse falar “em nome de todos os colegas” para expressar “choque com a terrível notícia”.

Sarah Everard foi vista pela última vez em Clapham (Londres) [1], mas o corpo foi recuperado a 90 quilómetros em Ashford (Kent) [2]. A casa do suspeito em Deal [3] e a garagem da família do suspeito [4] estão a ser investigados — adaptado de Google Maps

Restos mortais encontrados numa floresta a 90 quilómetros da casa de Sarah Everard

Já depois da detenção de Couzens e da mulher, a Metropolitan Police deu, na quarta-feira, uma conferência de imprensa para confirmar que tinham sido encontrados vestígios humanos numa floresta em Ashford, que fica a mais de 90 quilómetros de distância da casa de Sarah Everard.

Na conferência de imprensa, a responsável da Metropolitan Police, comissária Cressida Dick, confirmou que tinham encontrados “o que parecem restos humanos”. Na altura não foi possível confirmar se fossem de Sarah Everard, porque faltavam realizar as perícias necessárias para identificar os vestígios encontrados. A confirmação chegou esta sexta-feira.

[O anúncio da polícia londrina de que tinham sido encontrados restos mortais duma floresta]

https://twitter.com/metpoliceuk/status/1369769159161221126

Mulher acusa Couzens de ter exibido as suas partes íntimas. Fez queixa à polícia semanas antes do desaparecimento

A Polícia Metropolitana de Londres foi alvo de um inquérito para avaliar se investigou adequadamente uma denúncia contra o polícia agora detido, dias antes do desaparecimento. Segundo o The Guardian, essa queixa envolve outra mulher que acusa Couzens de ter exibido as suas partes íntimas, num restaurante de fast food, no sul de Londres.

Agora, o órgão que analisa a conduta da polícia vai investigar se a Polícia Metropolitana de Londres investigou de forma adequada esta queixa, feita no dia 28 de fevereiro.

Redes sociais inundadas com casos de mulheres que se sentem inseguras nas ruas de Londres

A família de Sarah fez um apelo para que todos os que tivessem informações sobre o desaparecimento contactassem a polícia e agradeceram a ajuda dos agentes e dos amigos nesta busca. Num comunicado descrevem a mulher como “brilhante e bonita — uma filha e irmã maravilhosa”.

“[A Sarah] era gentil e atenciosa, cuidadosa e confiável. Colocava sempre os outros em primeiro lugar e tinha um sentido de humor incrível. Era forte, guiada por princípios e era um exemplo luminoso para todos nós”, lê-se no apelo da família.

A polícia, por sua vez, tem andado porta a porta, na região de Clapham onde Sarah Everard foi vista pela última vez, a avisar as mulheres para não saírem de casa sozinhas, o que levantou uma onda de críticas de quem defende que o problema são os homens que atacam as mulheres, não as mulheres que são vítimas.

Georgia Ladbury, do Partido pela Igualdade das Mulheres, contesta: “E se pedirmos, em vez disso, para serem os homens a ficar em casa? Como um recolher obrigatório quando cai a noite? Talvez víssemos mais a ser feito na segurança das ruas se fossem os homens a perder as suas liberdades e não as mulheres.”

A comissária Cressida Dick também foi alvo de críticas por ter dito que a o sequestro de mulheres nas ruas de Londres é raro, porque há outras formas de perseguição e ataque que não chegam a esse ponto, mas que deixam as mulheres com medo de sair à rua. A comissária disse, no entanto, que entendia que a pouca frequência destes ataques não era suficientemente tranquilizadora.

Sei que os londrinos vão querer saber que, felizmente, o rapto de mulheres nas nossas ruas é extremamente raro. Mas compreendo perfeitamente que, apesar disso, as mulheres de Londres e o público em geral, em especial quem vive na zona onde Sarah desapareceu, estejam preocupados e possam ter medo”, disse a comissária num vídeo partilhado no Twitter.

O caso está a gerar uma grande onda de revolta e choque na sociedade britânica. Na noite de quinta-feira foi realizada uma vigília para apelar a que as ruas de Londres se tornem mais seguras. Agora, a Metropolitan Police diz que a manifestação foi ilegal, devido à ordem de confinamento, e as manifestantes dizem estar a ser ameaçadas com multas elevadas depois de a polícia ter voltado atrás na decisão de permitir a vigília, noticia o jornal MyLondon.

Desde que Sarah Everard desapareceu, as redes sociais foram inundadas com mulheres a partilhar as suas próprias experiências de medo constante na rua, especialmente à noite. “É errado que a resposta à violência contra as mulheres exija que as mulheres se comportem de maneira diferente. As mulheres não são o problema”, lê-se na página de Facebook que está a organizar a vigília.

Foram várias as figuras públicas partilharem as suas próprias experiências e a prestarem apoio nas redes sociais, incluindo a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, que diz que dificilmente haverá uma mulher que não compreenda os receios e estratégias para lidar com a insegurança nas ruas apresentada pela corresponde da Sky, Kate McCann.

As partilhas nas redes sociais também expuseram como as mulheres se sentem mais vulneráveis nas ruas por causa do confinamento. Com menos pessoas a circular, alguns homens sentem-se mais confiantes em abordarem ou assediarem as mulheres por não terem testemunhas, noticia o MyLondon. Muitas admitem recorrer às mesmas estratégias de Sarah — roupas coloridas ou brilhantes, falar ao telefone e caminhar por ruas bem iluminadas —, mas nem isso as faz sentir mais seguras.

O primeiro-ministro britânico já se manifestou no Twitter. Diz-se “profundamente triste pelos desenvolvimentos na investigação”, apelando a que se “trabalhe rápido para encontrar todas as respostas para o horrífico crime”.

[Artigo atualizado às 19h33 com informações sobre a vigília organizada na sequência do desaparecimento; e às 20h06 com a informação de que a Polícia Metropolitana de Londres está a ser investigada]

[Artigo atualizado no dia 12 de março, às 12h15, com a continuação da detenção do suspeito e a libertação da mulher sob fiança; às 13h30 com a insegurança das mulheres nas ruas de Londres; às 15h00 com a informação de que os restos mortais eram de Sarah Everard e com a investigação aos túneis]