Título: A Cadela
Autor: Pilar Quinta
Editora: Dom Quixote
Ano da Edição: abril de 2021
Páginas: 128
Preço: 12,51 €

Num romance em que a beleza e a violência são concomitantes e omnipresentes, Pilar Quintana apresenta-nos o esplendor da experiência humana em literatura.

Acabou de chegar a Portugal “A Cadela”, de Pilar Quintana, pela D. Quixote. Já traduzido para várias línguas, o livro foi à final do National Book Award dos EUA no ano passado, na categoria de literatura traduzida. Entre todas as coisas que se poderá dizer sobre o romance, a primeira é clara: é um portento.

Na costa da Colômbia, ante uma natureza avassaladora – matas imprescrutáveis, ondas violentas –, vive Damaris, que tem 40 e tal anos e toda a vida quis ser mãe. Apesar de várias tentativas, nunca consegue engravidar. Contra a frustração, nasce uma hipótese de materializar a esperança, e Damaris adopta uma cadela à qual dá o nome que queria ter dado a uma filha – Chirli. A partir daí, começa uma jornada de canalização do amor maternal, das expectativas criadas e frustradas, de culpa e de lealdade. Ao mesmo tempo, da dúvida dos outros, do pasmo perante a relação excessiva entre um humano e um animal, e ainda da forma como o apego se transforma em dependência e como a ideia de maternidade parece resolver todos os problemas, todas as carências, sendo aquela assumida quase como cumprimento da condição biológica.

Sem ervas daninhas, Pilar Quintana dá-nos um romance magistral em que toca no luto do que não nasceu, na substituição de um sonho que nunca se fez quotidiano, no papel biológico por cumprir. Aqui, vê-se a sensação de humilhação de um homem e de uma mulher que não conseguem procriar. Depois, vê-se a instrumentalização do sexo. O erotismo é reduzido à procriação e, não cumprido o intento, aparece a diabolização da cama por estar associada à falha. Quando a relação amorosa não tem capacidade – no caso, física –, de acompanhar os planos de futuro, também o presente amocha:

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“Ao fim de dois meses, quando Rogelio voltou a procurá-la na cama, Damaris rejeitou-o; e na noite seguinte tornou a rejeitá-lo; e foi assim ao longo de uma semana, até que ele deixou de tentar. Damaris alegrou-se. Já não se iludia com a possibilidade de engravidar, nem esperava com ansiedade a falha do período ou sofria de cada vez que este lhe aparecia.” (p. 24/25).

O casal aceita, enfim, que não conseguirá ter filhos. Para além do sonho que ali morre, ainda pesa a expectativa social, à qual se reage com uma certa humilhação. Falando com uma prima, que lhe gaba a pele, Damaris ainda ouve a justificação para o seu bom estado: “Claro, como não tiveste filhos…” Ainda estará em idade fértil, mas o uso do pretério perfeito não lhe passa despercebido, e dói que toda a gente dê “o seu caso por perdido” (p. 25).

A vida de Damaris é marcada por tragédias, mas parece encontrar a redenção no momento em que adopta a cadela. A partir daí, começa a canalizar o amor e a frustração de não ter sido mãe, iniciando-se uma narrativa de dependência emocional de um animal. Damaris parece querer salvar-se por via do amor dado ou pela sensação maternal de ser indispensável. E também aqui existe uma imagem romantizada da maternidade, uma expectativa de amor incondicional. Assim, não perdoa à cadela ter fugido um dia e quebra-se a expectativa do amor na vertical – eterno, inabalável, incondicional.

A relação com o marido, entretanto, faz-se de altos e baixos. Primeiro, pelas tentativas de terem filhos. Segundo, por perceberem que as tentativas não servem para nada. Finalmente, porque ela substitui o seu plano por um animal, mas ele não. E, ao fazê-lo, redu-lo a muito pouco, a menos do que a cadela: “Se Rogelio lhe fizesse alguma coisa, se se atrevesse tão-somente a levantar-lhe a mão, matá-lo-ia” (p. 29). Numa situação em que Rogelio está em perigo no mar e a cadela está perdida em terra, é com a última que Damaris se preocupa:

“Pensou em Rogelio, que estava num barco miserável no meio da fúria daquela tempestade, sem nada além de um colete salvavidas, uma capa para a chuva e uns plásticos para se proteger, mas preocupou-se mais pela cadela lá fora no monte, encharcada, transida de frio, morta de medo, sem a dona para a proteger, e recomeçou a chorar.” (p. 58)

A dedicação pela cadela é tal que Damaris chega a endividar-se mais para cuidar dela, numa altura em que o animal precisa de pomada. Por ela, não olha a meios. No bem estar de Chirli, está o seu.

Chega a um ponto em que Damaris não entende se a sua dependência do animal é salvação ou perdição. Mas Chirli foge uma e outra vez, a raiva por ela aumenta, e o que pode sobreviver a uma expectativa traída?

Pilar Quintana trata tudo isto de uma forma exímia neste romance em que a beleza e a violência são concomitantes e omnipresentes, apresentando-nos o esplendor da experiência humana em literatura. A prosa não tem solavancos, a edição é cuidada.