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Depois da abertura de um museu de azulejaria em Estremoz no verão do ano passado, o empresário madeirense José Berardo prepara-se para criar mais um espaço de exibição pública das suas inúmeras coleções, desta vez com a inauguração em Lisboa do há muito prometido Berardo – Museu Arte Déco (B-MAD). As portas abrem-se na sexta-feira da próxima semana, dia 23 de abril, para uma cerimónia com entidades oficiais e convidados, e o público pode entrar a partir do dia seguinte, de forma gratuita até ao fim de maio, soube o Observador junto da equipa que trabalha com Berardo.

O equipamento situa-se no número 28 da Rua 1º Maio, em Alcântara e a exposição inaugural inclui desenhos, gravuras e pinturas, joalharia, cerâmica e candeeiros, móveis, pratas, trabalhos em ferro e em vidro. Lalique, Jean Puiforcat, André Sornay, François Dufrêne e Alvar Aalto são apenas alguns dos autores representados.

O acervo, que Berardo começou a juntar em inícios da década de 90, é descrito como importante a nível mundial e de enorme diversidade. Desenhos de August Herborth, originais do arquiteto Jacques Émile Ruhlmann da Casa de Serralves do Porto (ícone da arquitetura civil déco), mais de cinco mil desenhos originais de pratas da Ourivesaria Reis & Filhos do Porto e mobiliário da Casa Vicent e da Casa Império (espaços comerciais centenários também do Porto) surgem como exemplo do conteúdo do B-MAD.

Desde há pelo menos cinco anos que se fala de um museu de arte déco e arte nouveau da responsabilidade de Berardo. O Observador noticiou os rumores em 2016 e na fachada do edifício do B-MAD chegou a ser afixado um cartaz com referências a um novo museu do empresário. Durante largos meses, nada se soube. Em janeiro de 2019, Berardo disse que as “complexas obras de remodelação e adaptação do edifício” tinham levado ao adiamento da inauguração para julho, a qual acabou por não acontecer.

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O edifício remonta à primeira metade do século XVII. Foi casa de verão do Marquês de Abrantes e residência da família Pereira Flores, tendo sido ampliado nos anos 1920. Parte do espaço albergava nos últimos anos a loja de móveis e electrodomésticos Urceira. Os visitantes terão acesso a um jardim com esplanada onde são servidos vinhos Bacalhôa (marca detida por Berardo) e se escuta música dos anos 1920.

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Vida pública depois do escândalo

José Berardo (conhecido pelo diminutivo Joe), tem 76 anos, fez fortuna na década de 80 como emigrante na África do Sul em negócios de exploração de ouro e desde 1985 é comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que lhe foi atribuída pelo Presidente da República Ramalho Eanes.

Com a inauguração do B-MAD regressa por breves instantes à cena pública depois do escândalo que rebentou em 2018 das alegadas dívidas de 962 milhões de euros à Caixa Geral de Depósitos, ao Novo Banco e ao Millennium BCP. Berardo teria dado como garantia aos bancos, a troco do empréstimo daqueles montantes, a coleção de arte moderna e contemporânea que depositou em 2006 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e que constitui o Museu Coleção Berardo.

A audição de Joe Berardo em cinco momentos e uma “perseguição” já fora do Parlamento

O caso culminou numa aparatosa audição parlamentar em maio do ano de 2019, durante a qual Berardo afirmou não ter quaisquer dívidas, o que foi recebido com indignação e determinou a abertura de um processo disciplinar para eventual retirada da comenda, o que acabou por não se verificar. Aparentemente, desde o arresto judicial de vários imóveis e da coleção de arte moderna e contemporânea em inícios do ano passado, e no contexto da pandemia, o assunto tem estado adormecido e o processo segue nos tribunais. Questionado esta terça-feira pelo Observador, o porta-voz de Berardo não quis fazer comentários.

A mostra inaugural do B-MAD retrata a estética decorativa de fins do século XIX até à II Guerra Mundial e tem curadoria de Márcio Alves Roiter, fundador e presidente do Instituto Art Déco Brasil, do Rio de Janeiro, e de Emmanuel Bréon, especialista dos anos 20 e 30 e antigo diretor do Musée des Années 30 em Paris. Alguns objetos foram exibidos ao longo dos anos em espaços museológicos do empresário madeirense (como o extinto Sintra Museu de Arte Moderna ou o Centro das Artes Casa das Mudas na ilha da Madeira), mas há também aquisições recentes nunca antes expostas.