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Museu situa-se no centro da cidade alentejana e terá entrada gratuita até ao fim de agosto

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Museu situa-se no centro da cidade alentejana e terá entrada gratuita até ao fim de agosto

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Berardo tem sete vidas e uma delas começa agora com um novo museu de azulejos no Alentejo /premium

Abre a 26 de julho em Estremoz e será dos poucos museus do mundo dedicados à azulejaria, com peças do século XIII até hoje. Depois das polémicas, o empresário regressa e estará a negociar a dívida.

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Parece ter sete vidas o homem que deve alegadamente cerca de 962 milhões de euros à Caixa Geral de Depósitos, ao Novo Banco e ao Millennium BCP e cuja coleção de arte moderna e contemporânea exposta no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, terá sido apresentada como garantia à banca em troca de empréstimos naquele valor. Um ano depois da controvérsia em torno da cobrança das dívidas — o que por enquanto não está resolvido e teve como consequência o arresto judicial daquela coleção e de vários imóveis — o empresário madeirense José Berardo, de 76 anos, quer fazer prova de vida.

Prepara-se para abrir a 26 de julho o Museu Berardo Estremoz, no Alto Alentejo, com a maior e mais importante coleção privada de azulejos do país. Anunciam-se mais de 4.500 peças de origem portuguesa e espanhola, do século XIII aos nossos dias. O museu é gerido pela Câmara de Estremoz e vai funcionar de terça a domingo, com horário de verão das 09h00 às 19h00. A entrada é gratuita até 30 de agosto de 2020 e a partir daí passa a custar três euros.

O curador José Meco, um dos responsáveis pela instalação e montagem do museu, diz que “não se trata de um museu para eruditos”, pois “pretende-se tornar o azulejo compreensível e apreciado por todos”. Com ele colaboraram o historiador espanhol Alfonso Pleguezuelo e dois museólogos da Fundação Berardo, Carina Bento e Álvaro Silva.

“Berardo tem um paixão sincera pelo azulejo, que eu pude testemunhar ao longo destes meses de trabalho”, acrescentou. “É uma pessoa muito dinâmica e empenhada no que faz.”

José Berardo tem um acordo com a Câmara de Estremoz, que pagará a manutenção do museu e os funcionários

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Em conversa com o Observador, o curador fez notar que a seguir à coleção do Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, este é o maior acervo de azulejaria no nosso país. “Mas tenho de dizer que são coleções distintas e não faz sentido confrontá-las. Uma é oficial, com muitas peças provenientes de edifícios públicos, enquanto esta é uma coleção privada”, anota. “Além disso os edifícios de ambos os museus são distintos e os edifícios condicionam o que se mostra ao público. O ideal é visitar os dois. O museu em Lisboa representa o grande acervo da azulejaria nacional, este na província tem núcleos verdadeiramente notáveis, desde logo os de origem valenciana e sevilhana.” Mais à frente, o especialista explica em concreto quais das peças agora expostas considera mais relevantes.

Num texto para o catálogo do museu, José Berardo (ou Joe Berardo, comendador da Ordem do Infante D. Henrique) diz que esta abertura é “o concretizar de um sonho”, porque lhe permite “partilhar a fruição das obras de arte com o grande público”.

“As grandes obras de arte são somente grandes quando acessíveis, compreendidas, vistas e admiradas por todos”, escreve Berardo. “A minha paixão pela azulejaria começou nos bancos da escola. Havia junto à janela da sala de aula um azulejo com a imagem de um cavaleiro. Cresci e percorri o mundo acompanhado por essa figura do cavaleiro que amiúde me vinha à memória”, recorda, acrescentando que iniciou a coleção de azulejos na década de 80.

Quem o aconselhou em algumas compras foi o colecionador e empresário Manuel Carmo Bliebernicht Leitão. De resto, as obras provêm quer da compra em leilões e antiquários, quer de coleções particulares adquiridas por Berardo, como a de António Francisco Avillez (criador do vinhos JP, hoje propriedade do comendador) e a de Feliciano David e Graciete Rodrigues.

O texto de Berardo termina com um repto ao Governo: “Espero e desejo que o Ministério da Cultura tenha em consideração a classificação do azulejo como Património Mundial da Humanidade, pois acho inconcebível que um património desta envergadura não tenha semelhante título.” Entende que o novo museu é uma “ajuda valiosa” para alcançar aquele objetivo. Uma tal candidatura é falada desde há pelo menos cinco anos, mas até hoje não se concretizou.

O Palácio Tocha fica no centro de Estremoz, junto ao Jardim Municipal, e remonta à segunda metade do século XVIII

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Para portugueses e espanhóis

O museu situa-se no centro de Estremoz, distrito de Évora — a uma hora e 45 minutos de Lisboa e a 50 minutos de Badajoz — num edifício conhecido como Palácio Tocha, ou Palácio dos Henriques, solar mandado construir na segunda metade do século XVIII pela família de um militar, o capitão Barnabé Henriques. A fachada distingue-se pelos vãos em mármore da região, também presente nas escadarias interiores.

“No solar chegou a pernoitar, em 1860, o rei D. Pedro V e a sua comitiva, facto que atesta a notoriedade que esta propriedade tinha entre as suas congéneres da vila”, dizem os registos da Direção-Geral do Património Cultural. Já no século XX, depois de funcionar como residência familiar do engenheiro José Rodrigues Tocha, descendente de Henriques, o imóvel albergou o Palace Hotel, de Frederique da Silva Pinto — “um dos melhores hotéis da província”, como se lia nos sobrescritos da casa — e ainda o Sindicato Agrícola de Estremoz.

Em 2013 uma dependência do solar serviu como um dos cenários da telenovela Belmonte, da TVI, e no ano seguinte foi classificado como monumento de interesse público. Não estava em ruínas, mas encontrava-se fechado há muitos anos.

Berardo comprou o Palácio Tocha em 1999 e hoje pertence à esfera da Associação de Coleções, entidade sem fins lucrativos com sede no Funchal, instituída em dezembro de 2005 pelo empresário e pelo filho Renato (diferente das associações ligadas ao Museu Coleção Berardo do CCB). Os trabalhos de restauro do edifício custaram cerca de 2,6 milhões de euros, comparticipados em 85% por fundos da União Europeia, noticiou o jornal Público no ano passado, e o projeto tem assinatura do gabinete de arquitetura Serralvarez, de Lisboa. As obras incluíram o restauro de azulejos originais do palácio que se encontram na escadaria e nas paredes das salas do primeiro andar.

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A localização junto à raia não será um acaso. O empresário madeirense quer atrair visitantes do país vizinho e isso mesmo é reconhecido pelo curador. “Pode ser um polo de estudo e divulgação muito importante e como toda aquela região é muito visitada por espanhóis estou convencido de que vão ter muita curiosidade em conhecer o museu”, diz José Meco. “Sou suspeito para qualificar o museu, porque participei na instalação, mas penso que é de excecional qualidade. Não há muitos museus no mundo especializados em azulejaria e este torna-se um desses raros exemplos.”

Os mais próximos dizem que Berardo ainda está preocupado com os efeitos da aparatosa audição parlamentar a 10 de maio do ano passado. Mas há mais motivos para agora se resguardar de declarações sem guião.

Berardo pode estar a negociar a dívida

Entre a Associação de Coleções e a Câmara de Estremoz foi assinado em julho de 2016 um protocolo com duração de cinco anos a contar da data de abertura do museu, renovável por iguais períodos. A Câmara fica obrigada a pagar os funcionários e a manutenção do museu, arrecadando as receitas da bilheteira. À época presidia à autarquia o independente Luís Mourinha, entretanto condenado a dois anos e oito meses de prisão com pena suspensa pelos crimes de prevaricação e abuso de poder.

Hoje o autarca é o também independente Francisco Ramos, segundo qual a inauguração do Museu Berardo Estremoz é “um marco histórico” e “um motivo de orgulho para todos”, tendo em conta o “espólio de valor incalculável de uma coleção que ombreia com o que de melhor existe espalhado pelos museus e galerias deste Velho Continente”, lê-se no catálogo do museu. De acordo com o mesmo documento, a instituição será dirigida pelo historiador Hugo Guerreiro, técnico da Câmara de Estremoz e atual diretor do Museu Municipal Joaquim Vermelho.

Um segundo protocolo foi assinado para criar outro Museu Berardo na cidade alentejana, este dedicado à arte africana. A iniciativa está anunciada desde 2018 e aguarda fundos comunitários. Além disso, Berardo continua a apostar na abertura de um museu em Lisboa dedicado ao modernismo, para já sem pormenores.

8 fotos

A propósito deste novo museu, o Observador pediu uma entrevista a Joe Berardo, que não se mostrou disponível. O empresário vai fazer um discurso na manhã de 22 de julho, a próxima quarta-feira, durante uma visita guiada à imprensa (a cerimónia de abertura é no dia 25, com o público a poder entrar no dia seguinte). As palavras que proferir vão estar escritas e não é previsível que faça outras declarações aos jornalistas.

Os mais próximos dizem que ainda está preocupado com os efeitos da aparatosa audição parlamentar a 10 de maio do ano passado — o famoso momento em que Berardo afirmou “pessoalmente, não  tenho dívidas” e “não devo nada” aos bancos. Mas há mais motivos para agora se resguardar de declarações sem guião. Por detrás do furor mediático em torno da cobrança da dívida de 962 milhões, Berardo e os bancos estão presumivelmente a negociar um plano de pagamento, com eventual perdão de alguns valores, o que evitaria a eternização do processo nos tribunais, indicam fontes próximas.

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As melhores peças

Para já as atenções focam-se em Estremoz. José Meco está a trabalhar o acervo de azulejaria de Berardo há cerca de dois anos. É historiador de artes decorativas, antigo colaborador do Museu de Lisboa e antigo professor de história da arte na Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva.

“Encontrei o comendador uma vez numa exposição no Museu de Lisboa e já conhecia a Carina Bento, que é responsável pelas várias coleções”, conta. “Sei que mais tarde pessoas que privam com o comendador indicaram o meu nome. Ele acabou para me convidar a colaborar neste projeto. Um pouco por arrastamento, juntou-se o professor Alfonso Pleguezuelo, até porque Berardo comprou há cerca de um ano uma grande coleção de azulejos sevilhanos e justificou-se chamar um especialista nessa área.”

O curador garante que em Estremoz “não vai estar nem um quarto da coleção”. Há núcleos espalhados pelo Bacalhôa Buddha Eden no Bombarral, na propriedade Bacalhôa Vinhos de Azeitão, no Aliança Underground Museum em Sangalhos ou no Monte Palace do Funchal. “Decidiu-se que era preferível manter esses conjuntos onde já estavam”, explica. “A escolha de peças para o museu foi muito complicada, porque tivemos de as adaptar ao edifício, que tem muitas dependências com diversos tamanhos. Algumas peças não couberam e tiveram de ficar de fora. Sobretudo, procurámos formar núcleos coerentes em salas que ora dialogassem ora fizessem grande contraste entre si. Foi um trabalho lento e longo.”

Questionado pelo Observador sobre quais as principais peças, José Meco fez uma lista resumida. A saber:

Painéis de Querubim Lapa

Painel produzido em 1968

Aquele que é considerado o maior ceramista português do século XX está representado no museu com um conjunto de azulejos de cozinha, precisamente exibidos numa das antigas cozinhas do Palácio Tocha. Querubim Lapa (1925-2016) decorou vários cozinhas, uma das quais em 1968 numa quinta que o próprio possuía na região de Setúbal. Os cinco painéis daí provenientes e agora expostos têm, segundo o curador, um pendor figurativo e são inspirados livremente na decoração de cozinhas do século XVIII, sendo marcados por mensagens subliminares.

Painel da antiga loja da TAP

Pormenor da obra desenhada por Frederico George

“É a mais destacada obra do movimento moderno presente na coleção”, segundo José Meco. O painel foi comprado há pouco tempo por Berardo. Julgava-se que teria sido demolido durante uma das remodelações da loja da TAP. Afinal, estava entaipado naquele mesmo local e pôde ser recuperado. “É um dos marcos da azulejaria moderna, uma das preciosidades do museu”, sublinha. Foi desenhado pelo arquiteto Frederico George e realizado em 1947 pelo ceramista Mário Oliveira Soares na Fábrica Lusitânia. Sobre placas de barro vermelho (295 cm x 280 cm) surge uma pintura cerâmica que representa um homem a cavalo em movimento dinâmico com símbolos astrológicos em fundo e uma esfera armilar no canto inferior direito.

Palhaço, de Júlio Pomar

Painel de 1987

“É uma peça interessante, mas não extraordinária, porque Pomar tem outras muito idênticas”, afirma o curador. No entanto, Pomar é Pomar, “um dos grandes artistas portugueses contemporâneos, cuja obra é sempre relevante”, acrescenta. O artista plástico teve “relações esporádicas, mas marcantes” com a azulejaria, a começar em 1950. Este painel que o museu apresenta (141 x 84,5 cm ) foi realizado em 1987 na Fábrica Viúva Lamego e caracteriza-se pelo “acentuado efeito gráfico” das pinceladas soltas a azul sobre um fundo branco.

Conjuntos neoclássicos

Um dos exemplares neoclássicos

Um dos painéis que integram os conjuntos neoclássicos é de 1802 e tem assinatura de Francisco de Paula e Oliveira. Foi produzido na Real Fábrica de Louça, em Lisboa, representando Nossa Senhora da Conceição, São José com o Menino e São Marçal. Há na coleção de Berardo uma grande diversidade de registos de fachada neoclássicos, das composições ornamentais às composições figurativas.

Painel Macacaria: Assédio a uma Fortaleza

Há exemplares da mesma produção no Museu Nacional do Azulejo

Produzido em Lisboa entre 1660 e 1670, constitui “uma das peças mais notáveis” do museu. “É uma composição caricatural, uma espécie de Walt Disney do século XVII, com animais a assumirem comportamentos humanos, incluindo um par de gatos apaixonados”, descreve o curador. Tem 149 centímetros por 244. “É uma composição típico do período da Restauração e integra um conjunto que esteve na Quinta de Santo António da Cadriceira, perto de Torres Verdas, e que se dispersou no início do século XX”. Uma parte está no Museu Nacional do Azulejo.

José Meco esteve envolvido na organização da conhecida exposição Azulejos de Lisboa, apresentada pela Câmara Municipal em 1984 na Estufa Fria. Considera que esse foi “um dos momentos-chave que no século XX ajudaram a fomentar o gosto pela azulejaria” junto do grande público. “A relação dos portugueses coma azulejaria é íntima”, qualifica.

“É uma relação de amor que começou bem e nunca mais acabou. Os grandes centros cerâmicos no fim da Idade Média situavam-se em Espanha,  sobretudo Sevilha e Valência, onde havia tradições mouriscas, com técnicas e mestres da cultura islâmica, que sempre valorizou a cerâmica, tanto em peças soltas como em arquitetura. Muitos dos territórios da Ásia Menor são desertos, não há pedra nem madeira, e isso refletiu-se ao longo dos séculos na aproximação do mundo islâmico à cerâmica e azulejaria, o que depois se chegou à Península Ibérica”, explica o curador. “D. Manuel I fomentou muito a azulejaria, mas muito antes já ela nos chegava por barco, vinda de Espanha. Sempre usámos os azulejos com um gosto diferente do dos espanhóis. Eles organizavam-nos quase como num catálogo, nós misturávamos e fazíamos composições livres e criativas, como se vê, por exemplo, na Sé Velha de Coimbra.”

José Meco está convencido de muitas das peças do museu poderiam até ter saído do país se José Berardo não as tivesse comprado, precisamente por estarem disponíveis no mercado e por o Estado comprar pouco. “Neste momento, o Museu Nacional do Azulejo não tem um tostão para adquirir obras, é uma vergonha, mas é verdade”, critica o curador.

A exposição que abre ao público a 26 de julho ocupa os três andares do solar e intitula-se 800 Anos de História do Azulejo. À partida será a base de uma exposição permanente com alterações pontuais ao longo do tempo.

Notícia alterada em 23 de julho com retificação da atividade profissional de Manuel Carmo Bliebernicht Leitão.

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