Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

As Cartas Portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado, freira no antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja, têm uma nova tradução em Espanha. A edição, a cargo da editora madrilena La Umbría y La Solana, tem responsabilidade científica do historiador e museólogo português José António Falcão e ilustrações originais de cinco artistas plásticas espanholas, “numa homenagem à mulher que superou convenções para conquistar o seu direito de amar”.

A ideia da publicação de uma nova edição em Espanha das Cartas Portuguesas surgiu durante uma conversa entre o diretor editorial da La Umbría y La Solana — editora que diz comprometida com a divulgação da literatura portuguesa em língua castelhana e que tem no seu catálogo autores como Almada Negreiros, Dulce Maria Cardoso ou Lídia Jorge — Feliciano Novoa, e José António Falcão, que desde meados dos anos 80 se interessa pela figura da autora das Cartas Portuguesas. Falcão revelou a Novoa que tinha feito uma nova tradução das Cartas a partir do francês original e um estudo em torno do texto, que o diretor editorial se mostrou disponível para publicar.

O estudo, que fornece o contexto histórico necessário para a leitura das Cartas e também uma análise das mesmas, com perto de 100 páginas, foi vertido para castelhano por Maria de Jesús Fernández, professora de Língua e Literatura Portuguesas na Universidade da Extremadura, em Badajoz, e tradutora. É também da sua autoria a nova tradução, feita com base na versão francesa e com recurso à do historiador português, um processo que explicou num texto que encerra a nova edição, “Las Cartas portuguesas nuevamente en español: apuntes a su traducción”.

A nova edição espanhola das Cartas Portuguesas foi publicada em abril pela editora La Umbría y La Solana, que dedica especial atenção à literatura portuguesa, sobretudo contemporânea

Para a La Umbría y La Solana, que publicou a edição em abril, esta trata-se de “um estudo e uma tradução definitivos, quer para quem já tenha lido as Cartas Portuguesas, quer para quem as lê pela primeira vez”. Segundo a editora com sede em Madrid, “o presente título une a vertente literária à leitura histórica e contribui para a internacionalização deste património, imaterial e material, junto do público de língua castelhana”. O livro vai também de encontro aos “novos públicos”, isto é, aos leitores em países de língua castelhana como o México, Colômbia ou Chile, que têm mostrado interesse nas Cartas Portuguesas e procurado saber mais “sobre Portugal e o Alentejo”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A história das Cartas Portuguesas começa a 4 de janeiro de 1669, quando o editor francês Claude Barbin publicou, em Paris, um pequeno livro anónimo chamado Lettres Portugaises traduites en François, que reunia cinco cartas escritas por uma freira portuguesa a um nobre francês por quem se tinha apaixonado e com quem tinha mantido um relacionamento. Originalmente não foi revelado quem é que tinha escrito as missivas, que se tornaram imediatamente populares. Só mais tarde é que a sua autoria foi atribuída a uma freira do Convento de Beja chamada Mariana Alcoforado. Esta é, ainda hoje, alvo de discussão, com alguns investigadores a defenderam a autoria mariana e outros a proporem outras hipóteses autorais.

António José Falcão começou por duvidar da veracidade do relato que apontava como autora das Cartas uma desconhecida freira portuguesa. “De início, confesso, duvidei da consistência histórica da narrativa, achei-a uma excecional ficção literária, que usava Portugal e Beja como mero cenário”, admitiu o historiador, de acordo com o comunicado da La Umbría y La Solana. “Ao aprofundar esta hipótese, apercebi-me de que estava errado. Em 2002, a convite da Presidência da República, no tempo do Dr. Jorge Sampaio, organizei uma exposição em Beja sobre as Cartas. Isto levou-me a pesquisas em arquivos e bibliotecas, não só em Portugal, mas também em Madrid, Simancas, Paris e Vaticano. Apercebi-me de uma Mariana de carne e osso.”

Esta Mariana, nascida em 1640, provavelmente no palacete na atual Rua do Touro que tem ainda o nome da sua família, a alguns meses de estalar a revolução que levaria à Restauração da Independência portuguesa depois de quase um século de domínio espanhol, e falecida a 28 de julho de 1723, era “capaz de falar e ler em francês, em interação com um Chamilly”, o suposto destinatário das missivas, “perfeitamente inserido no Alentejo de 1664-1667”. Nöel Bouton, marquês de Chamilly, combateu em Portugal às ordens do general Armando Frederico, duque de Schomberg, e esteve no Alentejo, onde terá conhecido Mariana, dando início a uma história de amor que as Cartas publicadas em Paris imortalizaram.

“A trama das Cartas Portuguesas é realçada pela crítica histórica, não suscita contradições”, garante Falcão. “Em suma, parte de vivências efetivos, num quadro espaciotemporal bem definido”, defende o historiador português.