Enviado especial do Observador, em Tóquio

Pequenina, loirinha, olho claro, um sorriso arrebatador. No ano passado, aproveitando uma onda que se tornou um autêntico tsunami em torno de um palmo de gente de 13 anos, a Mattel decidiu desenhar uma boneca dentro do contexto Barbie Role Model. Sky Brown já não tinha propriamente idade para brincar às bonecas – e também nunca foi uma menina de brincar a essas coisas. “Quero ultrapassar todos os limites para as meninas com o meu skate e com o surf. Sempre achei que algumas meninas têm medo de fazer o que querem, pensam que algumas coisas só são feitas porque são meninos. Quero mudar isso. E isso faz-me querer ser uma pessoa melhor”, disse.

Sky já era uma estrela antes de saber o que era uma estrela. Tornou-se uma referência antes de saber o que era uma referência. Passou a ser um exemplo antes de saber o que era um exemplo. Sky sabia a ligação que tinha aos pais, Sky sabia o gosto que herdou para fazer surf e andar de skate. Tudo o resto, Sky aprendeu a ensinar.

Em 2020, quando tudo o que parecia a brincar se tornou mais a sério e quando no horizonte apareceu a mais do que certa oportunidade de participar nos Jogos Olímpicos e tornar-se a mais nova de sempre a ganhar a medalha de ouro, tudo correu o risco de ruir. Quando fazia mais um treino, curiosamente numa rampa vertical daquele que é ainda hoje o grande nome mundial do skate, Tony Hawk, a britânica nascida nos EUA sofreu uma queda a 4,5 metros e correu risco de vida quando tentou limpar um canal entre secções, como contou o The Guardian. “Quando se faz este truque não se percebe bem para onde se está a ir, fui descendo até perceber que já tinha passado os limites e fiquei no chão. Foi tudo rápido. Essa foi uma altura difícil para os meus pais, que queriam que não continuasse a andar de skate mas acabaram por apoiar-me quando perceberam que era a minha vontade”, disse sobre o acidente que lhe valeu uma fratura no crânio, no pulso esquerdo e na mão esquerda.

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Ao contrário do que costumava acontecer, e pela primeira vez neste contexto, Sky Brown colocou no Instagram o vídeo da queda. “Não faço isto porque prefiro que as pessoas vejam a parte divertida do que faço mas essa queda foi demasiado má. Foi o capacete que me salvou à vida. Além disso, não há nenhum problema de cair de vez em quando tendo em conta que me levantei e que fui empurrada para ser ainda mais forte”, frisou. Duas semanas depois estava de volta ao skate fora das competições. Um ano depois estava de volta às competições. Menos de três meses depois, com uma vitória nos X Games pelo meio, estava a lutar por uma medalha olímpica. E com tudo isto relatado na sua conta oficial do Instagram, uma das redes sociais que costuma utilizar.

Com apenas 13 anos, Sky Brown não sabe o que é o mundo sem Instagram, sem Facebook, sem iPhones, sem Netflix ou HBO. Com apenas 13 anos, Sky Brown não consegue conceber um mundo que não seja digital. Mas, com apenas 13 anos, Sky Brown estava a começar a escrever o seu mundo dentro de um mundo digital, após uma primeira aparição pública num outro contexto recordado pelo The Telegraph: o Dancing with the stars.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio não poderiam ter mais a ver com o início de vida de Sky Brown, que vive hoje em Oceanside, na Califórnia. Nascida em Miyazaki, filha de pai britânico (Jon) e mãe japonesa (Mieko), a jovem preferiu há muito adotar a nacionalidade inglesa por considerar que tinha mais a ver consigo e tornou-se esta quarta-feira a mais nova atleta olímpica de sempre da Grã-Bretanha, passando Margery Hinton, nadadora que foi aos Jogos de Amesterdão em 1928, apenas por 19 dias. “Ela é um unicórnio, uma das melhores raparigas de sempre, se não for mesmo uma das melhores skaters independentemente do género”, destacou Tony Hawk sobre a prodígio que, além do surf e do skate, também gosta de kickboxing, de dançar, de tocar guitarra e compor as suas músicas, de jogar videojogos e de passar algum tempo nas redes sociais, quase que uma “obrigação”.

Desde os três/quatro anos que a vida de Sky Brown é a mesma: escola, família, surf (que faz com o pai e com o irmão) e skate, até porque o pai montou umas rampas no terraço de casa para si e desde cedo a filha poder fazer o que mais gosta por perto. “Escolhi representar a Grã-Bretanha porque têm um estilo mais parecido com o meu. Eu faço skate e surf por gozo e eles entendem isso. Qualquer pressão que tenha vem de mim, não do país ou de mais alguém. Mas estou muito feliz por ser no Japão porque tenho lá amigos e família”, destacou antes da prova. “Escolhemos a Grã-Bretanha porque sentimos que não havia qualquer pressão e não pediram compromissos. E fizeram ver que se ela não for feliz ou se não sentir bem alguma vez pode sair. Isso foi fantástico para nós”, salientou o pai e treinador, Jon, que também não se mostrou conta a chamada de Sky à seleção Sub-16 de surf do país. “É como chegar e comer ramen e gelado, se comemos muito ramen depois vai dar vontade de comer gelado. Até era melhor no surf mas tenho treinador muito skate. É muito semelhante e um ajuda o outro”, contou. Ao Eurosport, a britânica foi ainda mais longe e assumiu que gostava de ter a experiência de fazer ambos nos Jogos.

Esta quarta-feira, Sky Brown passou a qualificação com a segunda melhor pontuação e chegou à final com as legítimas aspirações de se tornar a atleta mais nova de sempre a sagrar-se campeã olímpica (superando Marjorie Gestring, campeã dos saltos para a água em 1936). Não conseguiu, ficou com o bronze mas foi o destaque.

Terceira melhor do ranking mundial, a britânica foi apenas superada por Misugu Okamoto no apuramento e entrou na fase decisiva contra três japonesas, duas brasileiras, uma australiana e uma americana. Cinco países diferentes, um ponto em comum relativo a todas: a amizade, a camaradagem, o respeito. E tanto assim era que, na apresentação das oito finalistas, Bryce Wettstein levou o seu ukulele para tocar enquanto eram anunciados os nomes. Melhor forma de aliviar a tensão não poderia existir e foi com esse espírito que começou a fase decisiva perante o olhar atento de Thomas Bach, líder do Comité Olímpico Internacional que esteve presente ao sol como tantos outros (mais uma grande adesão à modalidade) no Ariake Urban Sports Park. Sendo um desporto novo e praticado por atletas mais novos, é um verdadeiro sucesso para manter nas próximas edições.

Foi nessa primeira ronda que tudo ficou decidido, tendo em conta as regras do skate park em que conta sempre a melhor nota das três tentativas. Sakura Yosozumi conseguiu o run quase perfeito, ultrapassou a fasquia dos 60 pontos (60.09) e colocou toda a pressão em cima das mais diretas adversárias como Kokona Hiraki, jovem de apenas 12 anos que era a mais nova da final e que começou com um 58.05 antes de um 59.04. Sky Brown caiu na parte final das suas primeiras tentativas e não foi por isso além do 47.53, sendo que havia uma terceira nipónica, por sinal a melhor entre as três compatriotas, a colocar-se numa boa posição (Okmaoto, 53.85). Ainda assim, e contexto desportivo à parte, o que mais impressionou foi mesmo o ambiente que se vivia no palco das decisões e a química com as bancadas, num espírito de fair play e apoio mútuo entre abraços daqueles que não se veem.

Até em relação às pontuações houve um “anormal” desportivismo para aceitar aquilo que era decidido pelo quadro de juízes: na terceira e última tentativa, Sky Brown, que aplaudia sempre com aquelas mãos e braços pequenos o que as adversárias iam fazendo, conseguiu finalmente fazer todas as manobras que tinha pensadas, colocou as bancadas a aplaudirem de pé, viu o pai e treinador com demais staff a celebrar como até aí ainda não tinham feito e foi recebida depois na zona onde estavam concentradas todas as atletas e técnicos pelas sete restantes finalistas com um abraço conjunto que quase parecia carimbar a vitória. Não foi isso que aconteceu, a pontuação ficou pelo 56.47 e a britânica não foi além da medalha de bronze na estreia da modalidade nos Jogos não deixando de ser por isso o centro de todas as atenções, dentro de fora do local da competição.

Em comparação com o dia em que se disputou a final do skate street, que acabou com Gustavo Ribeiro no oitavo lugar, algumas coisas mudaram, até as mais simples como abrir uma outra bancada lateral para jornalistas que pudessem abdicar da mesa para colocarem o computador ou distribuir sacos de gelo (que depois se bebem para não se desaproveitar nada) e pequenos gelados para combater o calor e a humidade infernais que se voltaram a sentir em Tóquio. No entanto, e apesar dessa evolução, existe a garantia de que o skate foi provavelmente a nova modalidade que mais surpreendeu pela legião de seguidores e pela espectacularidade do desporto.