Melhores práticas ambientais e de urbanismo nas cidades são precisas para que crianças e jovens possam brincar e fruir da atividade física e desportiva, realçou o especialista Carlos Neto à Lusa. Na mesma entrevista, a propósito do Dia Europeu do Desporto na Escola, que se assinala esta sexta-feira, realçou que “o desporto escolar tem de ser revalorizado dentro da escola”.

Parte de uma campanha do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) ligada ao desporto para todos, “que engloba cidades ativas, famílias ativas e escolas ativas”, o professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) defende que é precisa “uma visão ecológica de como se deve promover uma estratégia de desenvolvimento desportivo”, a começar nos mais novos.

O ultrapassar de problemas antigos, relacionados com o sedentarismo, inatividade física e obesidade infantil, que colocam Portugal entre o topo dos países com maiores taxas destes indicadores, é uma urgência.

A viver num planeta “em grande transição digital”, mas também “numa transição verde”, o próprio setor do desporto precisa “de sustentabilidade, consciência ambiental, para que o corpo em movimento faça parte dessa estratégia”.

Carlos Neto lembrou um recente discurso do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, no qual ele destaca o desporto como tendo “um papel essencial na consciência dos grandes problemas da Humanidade”, como as alterações climáticas.

“Os municípios também são responsáveis para que crianças e jovens possam fazer desporto regular e intencional. […] É preciso ter cidades com condições para que as crianças possam brincar, as famílias sejam convidadas a vir para a rua, com melhor relação de tempo entre escola e família, com mais cultura lúdica e desportiva”, disse.

Essa revalorização permite colocar o corpo, e o movimento, entre as prioridades, para uma aprendizagem básica que levará, depois, “ao desporto de formação e ao desporto de alto nível”.

Um “urbanismo sem planeamento adequado para que haja uma vida saudável”, para todos, coloca o desporto dependente de “políticas públicas” que tornem o espaço mais acessível aos mais novos.

“Hoje, as crianças não saltam, correm, sobem às árvores, andam de bicicleta na rua”, lamenta.

No campo das políticas públicas, Neto considera Portugal “muito atrasado em relação a muitos países”, não só porque há muitas famílias sem dinheiro suficiente para pagar os custos de uma carreira formativa federada, mas também pela carga horária, com crianças a viver “um inferno, a começar às oito da manhã na escola e acabar às 23h no clube”.

“Havendo discussão nacional a nível da descentralização de competências do Estado para municípios, é importante interrogar o papel dos municípios, e eu penso que é muito [grande]”, frisa.

Para o especialista, a “falta de consciência da importância do desporto no desenvolvimento social, na vida”, leva a que as cidades sejam planeadas sem ter os mais novos, e a atividade física, em conta.

A transição digital, como a robótica e avanços noutras áreas tecnológicas, vai transformar “o emprego, o mundo, a sociedade, e inclusivamente o corpo”, e fará o mesmo pelo desporto, dos “problemas éticos” à forma como funciona.

Aí, é necessária uma melhor “articulação de políticas públicas, com melhor planeamento urbano” que leve a “melhor qualidade de vida”, também decorrente de uma prática desportiva que vá “de crianças a idosos”, para um grupo alargado de pessoas, não só “para atletas de alto nível”.

“Temos de olhar para a arquitetura e planeamento das cidades, diminuir os automóveis e aumentar o tempo de caminhar a pé, de andar de bicicleta, de cidades mais verdes, mais amigas das crianças, ter escolas com espaço exterior mais adequado”, comenta.

Para o antigo presidente da FMH, “depois desta pandemia já era tempo de se ter consciência de que as crianças quando vão para o recreio não é só para despender energias”, tendo de ser desafiante para estimular a atividade física e, depois do aperfeiçoamento e especialização, a prática desportiva, seja no desporto escolar seja nos clubes.

“Temos uma cidade centrada numa visão adulta, e pouco centrada no desenvolvimento adequado para as crianças e jovens”, atira.

“O desporto escolar tem de ser revalorizado dentro da escola”

O professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana defende que “o desporto escolar tem de ser revalorizado dentro da escola”, para o relacionar com os clubes, e alçar a importância do “corpo em movimento”.

Essa revalorização deve acontecer “da creche ao secundário”, defende o antigo presidente da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), e vir associada a uma nova importância “das capacidades motoras e atividades físicas na escola”, levando também a um projeto de desporto escolar “mais consistente”, com mais financiamento e recursos.

Essas “coisas básicas” permitem que “depois seja possível ter condições para fazer desporto de formação e desporto de alto nível”, e pedem uma relação entre clubes, escola e família.

“Temos que criar aqui um modelo que consiga fazer esta rede integrada para a promoção da educação física e do desporto. […] No Japão, as crianças têm aula de educação física todos os dias, cinco horas semanais; em Portugal, nem as previstas têm” no primeiro ciclo, devido à dificuldade que, diz, muitos professores em monodocência têm em lecionar ou em encontrar quem os ajude.

Esta falta de investimento, também de financiamento e quadros de recursos humanos, leva a maiores dificuldades no segundo ciclo, em que “a iniciação desportiva como deve ser” acontece.

Com isto, “o abandono desportivo no meio escolar e dos clubes é enorme”, sobretudo “quando passam aquela fase mais de refinamento e aperfeiçoamento da sua condição desportiva”.

“Há uma capacidade muito reduzida de captar talentos. Para além disso, a especialização precoce tem sido mal interpretada. Muitos revelam-se mais tarde, há inúmeros exemplos de jovens que não foram selecionados nos clubes como praticantes desportivos porque os critérios de seleção não estavam aperfeiçoados. Há atletas olímpicos, de alto nível de rendimento, que só se manifestaram muito mais tarde”, alerta.

Antes, as crianças “têm de passar por uma multiplicidade de experiências lúdicas e desportivas, para selecionar aquelas” em que são mais capazes, e, por outro lado, falta um sistema mais atento “aos motivos pelos quais as crianças abandonam”.

Isso vai de “falta de tempo” a falta de recursos económicos, falta de apoios, também a nível de transportes, mas também pela crónica “disfunção” na valorização de treinadores de formação.

“São salários miseráveis, os dos treinadores dos primeiros níveis de formação, e depois é preciso melhorar a formação ao nível das formações, rever esse modelo de formação”, critica.

Nestas idades, até aos seis anos, “há muitas habilidades” que ou são apreendidas ou podem perder-se. “Se não são apreendidas aí, dificilmente se consegue ser atleta de alto nível, como músico ou ator de teatro [com outras]”, lamenta.

Na dinâmica entre clubes, escola e família, é preciso apoio em toda a linha, para que possa prosseguir os estudos, ter tempo lúdico e a família seja reforçada, até porque um atleta de alta competição “precisa de muitas horas de treino, muito trabalho” até chegar ao sucesso.

“Estudos científicos dizem-nos que os atletas de grande êxito são os que tiveram infâncias altamente preenchidas de experiências. Os campeões não se fazem em laboratório nem à pressa”, completa.

Para lá do rendimento desportivo, avisa, o desporto tem de ser visto como “uma alavanca essencial na formação de um povo saudável e um cidadão saudável”.

“Isso é importante para a economia e o futuro da sociedade, que é imprevisível e incerta. A atividade física tem uma contribuição importantíssima para a mudança vertiginosa que a sociedade está a viver”, comenta.

Esta atividade física “não pode ser esquecida”, porque ajuda a clarear o pensamento e é importante, do nascimento até à terceira idade, e a base da existência.

“O corpo em movimento é o arquiteto do cérebro, das emoções e dos afetos”, remata.

Estratégia de Desporto Escolar 2021-2025 é oportunidade mas “levanta dúvidas”

O Programa Estratégico do Desporto Escolar (PEDE) para o ciclo 2021-2025 é uma oportunidade, alargando os eixos nos quais assenta ao desporto verde e à cidadania, mas “levanta dúvidas” quanto a recursos e exequibilidade.

Os especialistas referem o novo ciclo como uma oportunidade, notando o alargar da abrangência estratégica do desporto escolar, ainda que com reservas quantos aos recursos, humanos e financeiros, colocados à disposição.

Para Carlos Neto, o programa é “uma novidade interessante”. O especialista destaca os Jogos Olímpicos Tóquio2020, evento que, comenta, parece ter trazido “uma consciência mais alargada de que as culturas do corpo, o desenvolvimento motor e lúdico dos jovens, necessitavam de uma revisão mais profunda do desporto nacional”.

Nos Jogos Olímpicos Tóquio2020, um total de 13 atletas tinha tido experiência no desporto escolar, 11 deles em Portugal, com destaque para todos os medalhados: Pedro Pichardo, ouro no triplo salto, no sistema cubano, mas também Patrícia Mamona, prata no triplo salto, Jorge Fonseca, bronze no judo, e Fernando Pimenta, bronze na canoagem.

Embaixador do projeto Escola Ativa, do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), Neto lecionará esta sexta-feira um ‘webinar’ sobre “Comunidades, Famílias e Escolas Ativas” e espera, da nova estratégia, que traga “uma visão ecológica de como se deve promover uma estratégia de desenvolvimento desportivo a começar nos mais jovens”.

Os fundamentos da proposta “para o futuro” merecem apoio de Carlos Neto, que concorda com a “perspetiva de prepararmos as crianças para uma cultura motora básica”, e uma preocupação “não só na saúde física mas também mental, social e emocional, essencial para termos um cidadão culto, na utilização do corpo, e como forma de prevenção da saúde”.

Por seu lado, José Cordovil, que é presidente da Comissão Consultiva de Educação Física e Desporto na Escola do Comité Olímpico de Portugal (COP), alerta que o ciclo anterior, 2017-2021, “foi muito afetado na sua fase final com a pandemia de Covid-19”.

“Sumariamente, o que a pandemia fez foi interromper as atividades. A única atividade que se manteve quando as escolas estiveram abertas [os treinos] não permitiu, nunca, a realização de atividades competitivas, o que distorce completamente a realidade do desporto escolar”, lembra.

A situação “levou muitos jovens a desistirem”, uma quebra semelhante à que ocorreu também no desporto federado, e para o próximo ciclo, avisa, há “uma grande incógnita”.

“Há algumas dúvidas muito sólidas sobre qual o investimento a nível público que será feito no desporto, dado que o novo programa diversifica muito o leque de eixos estratégicos que existiam anteriormente”, aponta.

O PEDE 2021-2025 integra seis eixos estratégicos: “+ Desporto + Atividade Física”, “Formação de Alunos e Professores”, “Cidadania Inclusão Ética”, “Cogestão Codecisão na Escola”, “Desporto Verde e Sustentável” e “Envolvimento das/nas Comunidades”.

Esta “diversificação muito grande do projeto”, mas “com os mesmos recursos humanos”, avalia, contribui para a incógnita que coloca sobre “o que se vai passar, tal como para o ano letivo 2021/22” no que toca às atividades competitivas, devido à evolução pandémica.

José Cordovil lamenta ainda que o grupo de trabalho para acompanhamento do programa do desporto escolar (GTAPDE), que integrava desde novembro de 2018, não tenha sido ouvido aquando da definição do programa final.

O grupo, constituído por iniciativa do Conselho Nacional de Desporto, “participou na discussão de documentos preparatórios com características completamente diferentes do programa aprovado e publicado em julho”, mas não foi convidado a elaborar um parecer sobre o documento final.

Esse parecer saiu da própria pena de José Cordovil, lamentando que o grupo não tenha sido ouvido, “porque o documento seria certamente mais sólido e não teria algumas das lacunas que apresenta”.

“No essencial, a crítica que eu apresento ao programa é que, à semelhança do que se passa em muitos domínios da atividade política nacional e na decisão sobre os programas a aprovar, não se faz uma avaliação séria: o que se fez, quais os pontos fortes e fracos atingidos. A avaliação do ciclo 2017-21 não foi feita”, critica.

Carlos Neto alerta para o facto de que o desporto escolar “sofre há muitos anos” de falta de financiamento adequado, por um lado, mas também de “recursos humanos com condições para funcionar” e falta de consciência “da comunidade educativa de que o desporto escolar, como as artes, são essenciais”, criticando a “exclusividade de interesse nas disciplinas com média para a universidade”.

As instituições “têm feito o que é possível, mas é a altura apropriada, pós-pandemia, para fazer uma reflexão e tomar boas decisões”. “Se formos ver os fundos comunitários que vão ser passados aos Estados-membros, é preciso interrogar qual a percentagem da ‘bazuca’ que é dada ao desporto”, afirma Carlos Neto.

O ministro da Educação, com a tutela do desporto, Tiago Brandão Rodrigues, reforça, na introdução do PEDE, o desporto escolar como “base da pirâmide desportiva”, referindo uma oferta de atividades “alargada e flexibilizada”, também às famílias e toda a comunidade educativa.

“O desporto escolar projeta-se agora para o quadriénio de 2021-2025 com mais recursos e uma estratégia de maior alcance, definindo uma visão comum a partir da qual cada estabelecimento de educação e ensino poderá desenhar o seu programa, correspondendo às especificidades da sua comunidade. […] Por seu lado, reforça-se a relação com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estabelecidos no âmbito das Nações Unidas, aprofundando o papel do Desporto Escolar na promoção da saúde, do ambiente e da coesão social”, escreveu o governante.

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