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As tensões crescentes entre a família real britânica e a BBC culminaram na noite de segunda-feira, quando a emissão da primeira de duas partes do documentário “The Princes and The Press” (“Os Príncipes e a imprensa” em português) deu origem a um comunicado conjunto, assinado pelo Palácio de Buckingham, pelo Palácio de Kesington e pela Clarence House. Nele, os três mais importantes núcleos da monarquia acusaram a emissora britânica de dar credibilidade a “alegações exageradas e infundadas”, argumentando ainda que a escolha da BBC em divulgar alegações em torno do Megxit era “dececionante”.

No comunicado conjunto lê-se que uma “imprensa livre e responsável” é de “vital importância para uma democracia saudável“. “No entanto, muitas vezes afirmações exageradas e infundadas de fontes não identificadas são apresentadas como factos e é dececionante quando alguém, incluindo a BBC, lhes dá credibilidade.”

Antecedendo a emissão do documentário — a segunda parte está agendada para a próxima segunda-feira —, títulos britânicos davam conta de que a família real britânica alegadamente ameaçara boicotar a BBC face a projetos futuros se esta não lhes permitisse ver o programa antes de o primeiro episódio ir para o ar. De acordo com o The Telegraph, a BBC ter-se-á mantido fiel até ao último minuto na decisão de não o mostrar.

O documentário, que incluiu uma entrevista com a advogada de Meghan Markle, dedicou-se a explorar as relações de William e Harry com os media, sobretudo a cobertura mediática entre 2012 e 2018. De acordo com o The Times, o documentário deu palco a um “acordo tácito” entre a realeza e a imprensa, no sentido em que os membros da família real davam acesso aos jornalistas em troca de cobertura favorável.

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Exemplo disso será o que conta, a certa altura, um correspondente real, que relata que os média se voltaram contra o duque de Cambridge quando o chamaram de “Workshy’ Wills”, alegando que o príncipe não trabalhava o suficiente — um “ressentimento” nos media, sobretudo em relação à duquesa de Cambridge, terá originado artigos mais críticos. “Os fotógrafos sentiram que ela não estava a dar-lhes a melhor foto. Ela estava a usar o cabelo para esconder o rosto”, conta Tim Ewart, que trabalhou para a ITV.

O documentário contou ainda com a participação de um fotógrafo que chega a pedir desculpas por ter feito um alvo de Chelsy Davy, à data namorada do príncipe Harry,. Gavin Burrows conta, mesmo, como ele e a imprensa foram “implacáveis” e como o duque de Sussex era, nos anos 2000, encarado pelos media como “a nova Diana”. Vigilância através dos telefones, acesso a registos médicos, ex-namorados e detalhes sobre a educação de Chelsy fizeram parte do pacote. Burrows é uma testemunha em processos judiciais contra o já extinto News of the World, outrora pertença do News Group Newspapers.

O programa de dois episódios incluiu também declarações de Omid Scobie, um dos jornalistas que assinam a biografia real “Finding Freedom”, que alega que pessoas não identificadas dentro dos núcleos reais passaram informação de maneira a prejudicar os Sussex. Entre as muitas entrevistas recolhidas esteve a de Jenny Afia, advogada que representa Meghan e com quem o apresentador do documentário, Amol Rajan, falou com a permissão da duquesa. Numa rara entrevista televisiva, Afia insistiu que as alegações de bullying feitas contra a sua cliente eram “falsas” e rejeitou a “narrativa” de que a ex-atriz era alguém com quem seria “difícil de trabalhar”.