Num tempo de dois canais, quando o “screen time” ainda não existia, a programação infantil tinha um tempo limitado e a oferta – e crescimento – dos videoclubes expandia um universo de filmes de ação, crime, aventura e fantasia, “Duarte & Cª.” existiu com a fórmula certa, influenciando quem apanhou a transmissão original, nos 1980s, e outra miudagem que apanhou a transmissão da série na década seguinte. Porquê? Fórmula certa, mas não secreta, associada àquela bela ingenuidade de quem queria fazer coisas, mas não tinha meios para as fazer. A série que vive bem na memória de quem hoje tem mais de 35 anos está a chegar aos poucos ao RTP Arquivos. Por agora, duas das cinco temporadas já estão disponíveis.

Criação de Rogério Ceitil, que na década anterior tinha sido responsável por “Zé Gato”, “Duarte & Cª.” foi a sua tentativa de replicar em Portugal uma certa narrativa da ficção dos filmes de ação norte-americanos que iam chegando cá. Misturava ainda humor e aquele tipo de investigação expectável, sem maravilhamento, mas com uma dose bastante satisfatória de entretenimento. Mesmo quando se era criança e se viu “Duarte & Cª.” pela primeira vez, ainda com a ausência do conceito kitsch na cabeça, ou a terrível ideia do “tão mau que é bom”, uma coisa era constantemente transparente, mesmo que o cérebro fosse pequeno para processar essa informação: quem fazia a série estava muito consciente das suas limitações.

“Duarte & Cª.” é especial por ser um produto do seu tempo. Com a falta de meios pode-se fazer muita coisa. Com a falta de meios e a nostalgia, muito mais. O tempo não perdoa “Duarte & Cª.”, só que neste caso é uma coisa boa. Há criações que pertencem a um momento e que oferecem um microretrato desse momento, tal e qual como é. Ver “Duarte & Cª.” com olhos de hoje é encontrar uma série de dimensões que afetam – e bem – suscetibilidades, mas também deve servir para compreender que a sua inocência era – e ainda é – muito benéfica. Na cabeça de Ceitil valia tudo para levar as suas personagens para onde queria. E tudo fazia para vencer essa ideia.

Sem grande oferta na televisão naqueles períodos (na sua transmissão original e, depois, nos 1990s), as crianças, deixadas para serem educadas e cuidadas pelo chamado pequeno ecrã – os videojogos já andavam pelos lares, mas ainda não tinham a aceitação de hoje -, a simplicidade de “Duarte & Cª.” entrava-lhe pelos olhos e oferecia uma ação com violência q.b. e um humor que tentava sair da tradição de então. Tudo simples e com os estereótipos da época, Duarte (Rui Mendes) era o detetive-patrão, facilmente distraído por mulheres (apesar de casado), Tó (António Assunção) era o braço direito trapalhão e Joaninha (Paula Moura), que oferecia um bom balanço entre os dois, e saía do perfil feminino de outras personagens da ficção portuguesa de então. Uma agência de detetives que resolvia crimes cometidos por vilões com nomes como Lúcifer (Guilherme Filipe), Albertini (Alberto Quaresma), Rocha (António Rocha) ou Átila (Luís Vicente).

Básico, elementar, com muitas pisadas no politicamente correto (a personagem Japonês, interpretada por Frederico Cheong) e um Citroën 2CV vermelho que parecia o carro menos funcional para aquele tipo de trabalho, mas que ficou na memória pelas diversas cenas marcadas pela sua presença. Muitas das piadas, do humor, de “Duarte & Cª.” pertencem ao seu tempo. Hoje ou são mau gosto ou inapropriadas, mas há algo que ficou daí e que é de tirar o chapéu a Rogério Ceitil, que foi a abertura para perceber e executar que poderia trazer outras linguagens para televisão. Ainda hoje, “Duarte & Cª.” é deliciosamente cartoonesco, é fácil de pegar em vários momentos e imaginá-los como tiras de banda-desenhada.

Foi também por aí que entrou rapidamente no imaginário infantil. Ao longo das suas cinco temporadas, “Duarte & Cª.” foi percebendo a sua audiência e adaptando-se a ela, sem perder o foco de combate ao crime, com doses de acção tosca q.b., e desenvolvendo-se com narrativas que estavam próximas do que chegava a Portugal na altura, desde os filmes de acção, à animação que passava na televisão ou aos livros de banda-desenhada. Fundia tudo como possível, com os meios que estavam ao alcance e com plena consciência, ou inconsciência, de como criar com carência de meios. Não é caso único na ficção nacional, mas ainda há algo de transgressor em “Duarte & Cª.” que devia ter feito escola e promover a ocorrência de mais riscos naquilo que hoje se vê na televisão/stream com selo nacional.

Ou seja, “Duarte & Cª.” mostrou-nos o resultado de quem – Rogério Ceitil – decidiu arriscar num formato e de como isso, com todos os seus defeitos à época, resultou. Se há coisas de que devemos aprender com esta série é de que não há que ter medos e de que o risco às vezes compensa. Mesmo que a audiência acabe por ser mais jovem do que inicialmente se imaginou. Resultou. Por alguma razão é que ainda estamos a falar disto.