Um braço de ferro que continua, pelo menos até terça-feira. De um lado, os sete judocas que assinaram a carta aberta contra a Federação de Judo agora com a solidariedade pública do Benfica, clube de cinco dos sete signatários. Do outro, Jorge Fernandes, presidente da Federação de Judo, que tem respondido às acusações de que foi alvo na carta defendendo ainda o sistema atual vigente a nível de preparação e de presença em competições internacionais. Aí, nesse dia 16, poderá ou não haver tréguas, com uma reunião promovida pelo secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Correia, que tentará acabar com o conflito aberto existente. No entanto, até as presenças nesse encontro estão em aberto. 

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“Não falei com os atletas nem vou falar, isso terá de ser alguém a tratar com eles, naturalmente. Eu tentei reunir com o senhor secretário de Estado e com o presidente do Comité Olímpico para se resolver este problema, claro que nós estamos interessados em resolver, mas da nossa parte os atletas só têm de cumprir as normas, treinar e competir. Da nossa parte não há nada, manteremos apenas o cumprimento das normas que até aqui sempre serviram”, começou por referir Jorge Fernandes à Rádio Observador.

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“A reunião está marcada para terça-feira à tarde. Temos estado sempre em contacto com o governo e com o Comité Olímpico, são pessoas preocupadas também com isso. A reunião inicialmente também era com os atletas mas eu com os atletas recuso reunir-me, neste momento não me quero reunir com os atletas. Não vejo interesse nenhum nisso, eles têm de cumprir e têm de se retratar relativamente às mentiras que eles publicaram em termos públicos”, acrescentou ainda o presidente da Federação de Judo.

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Em paralelo, Jorge Fernandes admite ainda avançar para os tribunais contra os signatários da carta aberta emitida na passada quinta-feira, colocando ainda a hipótese de haver sanções internas. “Inicialmente disse que não haveria essa possibilidade de avançar para os tribunais mas entretanto houve desenvolvimentos e agora há essa possibilidade. Não vou dizer que o vou fazer. Por vontade não mas não sou só eu que mando nem decido sozinho. Está em cima da mesa a possibilidade de haver processos disciplinares e colocação dos atletas em tribunal não só por algumas afirmações na carta mas também por estarem a gravar uma reunião que tiveram comigo sem autorização”, explicou o líder federativo a esse propósito.

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Do outro lado, Ana Oliveira, coordenadora do projeto olímpico do Benfica, veio mostrar a solidariedade com os signatários da carta entre várias críticas a Jorge Fernandes, destacando que os encarnados não são culpados mas sim parte da solução para o desporto de alta competição e revelando até que, na véspera da missiva dos atletas, o próprio líder da Federação contactou o clube da Luz para pedir ajuda.

“Na verdade, as declarações quase nem merecem comentários… A forma como o presidente está a reagir a isto é preocupante. Um presidente não pode dizer que está tudo maluco, não pode. E digo: não está mas está quase. É preciso um ato de coragem para se fazer isto, estamos a falar de 70% da elite olímpica. Há mais dois elementos do Sporting que não assinaram, e podia tentar perceber-se porquê, e a outra é do clube do presidente e pelos vistos até com relações familiares…”, referiu em declarações à BTV, recordando também o desgaste emocional que existiu em alguns atletas após os Jogos de Tóquio.

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“Já disseram ao presidente que foi o melhor do mundo. Sim, conseguiu criar algo que tentámos noutras federações, que foi uma bolha durante o período Covid e os resultados não foram melhores nos Jogos por outras razões. Quis dar continuidade mas não teve a sensibilidade para perceber que não há hipótese de ir 52 vezes a Coimbra por ano. ‘Eu é que mando’. Mas manda em quê? Não faz parte de uma equipa? Depois, a questão de dizer que podiam ser outros a gerir o dinheiro deles porque até tinha menos trabalho… Os presidentes das federações são eleitos exatamente para ter trabalho, para gerir aquilo que são dinheiros públicos”, prosseguiu a coordenadora do projeto olímpico dos encarnados.

“Os atletas não conseguem evoluir, sei que eles precisam de competir. É por isso que se faz um plano de atividade. Quem faz a gestão tem de ser o atleta e o treinador, vendo com os treinadores da Federação. Têm de competir contra mais altos, mais baixos, destros, canhotos. A Telma não pode treinar com o Jorge Fonseca, a Bárbara não pode treinar com o Anri… Ir para Coimbra também é saturante. Sim, a culpa também é do Benfica, pagamos carrinhas, gasóleo… Vamos esquecer as condições ideias, há uma que está acima de todas que é a experiência internacional e a evolução no treino”, destacou.

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“Os atletas têm de treinar mais, como ele diz? Já contribuímos com 25 medalhas para a Federação de judo, isto não é de quem não trabalhe. Desses sete atletas que assinaram a carta, cinco são apoiados pelo Benfica. Vão sempre usar aquele ‘A culpa é do Benfica’ do costume. Isso é maldade, no dia anterior tinha-me ligado a pedir ajuda e ficou no ar a possibilidade de fazermos uma reunião. A culpa do Benfica é suportar e alavancar o desporto nacional na parte competitiva. Nós fazemos parte da solução para o desporto olímpico, é preocupante ouvir um presidente dizer que a culpa é dos clubes, neste caso do Benfica. É preciso diálogo, entendimento e competência, que envolve sensibilidade”, concluiu Ana Oliveira.