O especialista em marketing eleitoral Victor Trujillo considerou à Lusa que a decisão para um terço do eleitorado nesta segunda volta das presidenciais brasileiras de domingo “parece ser semelhante a escolher entre morrer queimado ou morrer afogado”.

Questionado pela agência Lusa sobre a agressividade das campanhas do chefe de Estado, Jair Bolsonaro, e do ex-presidente brasileiro, Lula da Silva, nas redes sociais, o pesquisador e especialista em marketing eleitoral frisou que “a estratégia da direita e da esquerda tem sido menos propositiva e com mais ênfase na desconstrução dos candidatos”.

Essa estratégia tem sido visível nos conteúdos diários de propaganda política nos espaços de televisão e de rádio, com as campanhas a tentarem descredibilizar ao máximo o oponente.

O objetivo, detalhou, é “aumentar a rejeição do adversário para conquistar os eleitores inconvictos que podem mudar de ideia até na fila da votação”.

O índice de rejeição dos dois é claro: Bolsonaro tem mais de 47% e Lula quase 41%.

Segundo Victor Trujillo, a preferência dos eleitores está tripartida nesta segunda volta, “um terço dos eleitores prefere o Lula, um terço prefere o Bolsonaro e um terço tem motivos para votar e também motivos para não votar nos dois”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Este último terço, órfãos da chamada terceira via política que não vingou e “esperava uma terceira via ‘com chance’ e agora no segundo turno se viram diante de uma decisão que parece ser semelhante a escolher entre morrer queimado ou morrer afogado, pois têm que escolher entre o ‘menos pior’, considerou o especialista em marketing eleitoral.

Nesta batalha pelo voto dos não convencidos, as redes sociais têm tido um papel de relevo nestas eleições: “Na arena digital, os eleitores inconvictos são alcançados pela comunicação dos candidatos e são assediados pelos eleitores engajados que buscam contagiar todos à sua volta”, disse.

Instagram, Facebook, Twitter e TikTok, com seus algoritmos, criam uma bolha de exposição de conteúdo repetido que deforma a perceção dos eleitores, deixando-os suscetíveis a fake news e propaganda eleitoral disfarçada”, reforçou.

Uma direita que teve mais habilidade e determinação na área digital nas eleições presidenciais em 2018, que deram a vitória a Jair Bolsonaro, mas que agora a esquerda procura buscar esse mesmo protagonismo.

Figuras como o famoso youtuber Filipe Neto, ou o ex-candidato presidencial deputado André Janones, da parte da esquerda, que tem procurado confrontar a lógica bolsonarista nas redes, de figuras como o recém-eleito deputado federal Nikolas Ferreira, o candidato que teve a maior votação para deputado federal nas eleições de 2 de outubro (mais de 1,4 milhões de votos no estado de Minas Gerais)

“Filipe Neto, os deputados André Janones e Nikolas Ferreira lideram no atacado”, admite o especialista, que reforça, contudo que “é o protagonismo do eleitor comum, que compartilha nos grupos de WhatsApp, curte, reposta e até edita os conteúdos para ficar com a cara da sua realidade regional é que faz a diferença”, frisou o especialista.

“O eleitor comum é que garante a capilaridade daquilo que é lançado pelos influencers”, sublinhou.

Ainda assim, recordou Victor Trujillo, uma parte relevante da sociedade brasileira não possui internet banda larga, nem está conectada de forma permanente a dados nos telemóveis, recebendo dessa forma a informação eleitoral através da televisão de rede aberta, ou da rádio.

Estes eleitores fora do alcance do algoritmo das redes sociais se baseiam mais no mundo real, na sua realidade, nos problemas quotidianos para decidir em quem votar. E pelo perfil económico, é uma parcela que parece preferir a tutela de um governo de esquerda”, disse.

Luiz Inácio Lula da Silva venceu a primeira volta das eleições com 48,4% dos votos e Jair Bolsonaro recebeu 43,2%, pelo que os dois candidatos terão de se enfrentar numa segunda volta marcada para domingo.