1226,4kWh poupados 1226,4 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-1245568496
i

Lula da Silva e Alexandre de Moraes

Anadolu Agency via Getty Images

Lula da Silva e Alexandre de Moraes

Anadolu Agency via Getty Images

11 respostas para entender como o caso do juiz Alexandre de Moraes está a dominar a campanha eleitoral no Brasil

Possível julgamento a juiz relator do caso que levou à prisão de Bolsonaro agita campanha eleitoral no Brasil. Crise institucional beneficia Flávio Bolsonaro e obriga Lula a alterar a estratégia.

    Índice

    Índice

Alexandre de Moraes é talvez uma das figuras mais polarizadoras do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao longo do seu mandato, o juiz, que ocupa atualmente o cargo de vice-presidente daquele tribunal, ficou conhecido por ser o relator no processo que levou à condenação do antigo Presidente Jair Bolsonaro, a 27 anos e três meses de prisão. A três semanas de o Brasil ir a votos, o nome deste juiz está a fazer manchetes e a dominar a campanha eleitoral que opõe o atual Presidente brasileiro, Lula da Silva, a Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro.

Assuntos como a agenda laboral, a economia ou a política externa estão em segundo plano — a Justiça ganhou uma grande preponderância na campanha eleitoral. O motivo? O início de um possível julgamento ao juiz Alexandre de Moraes, após terem sido descobertas trocas de mensagens com um milionário envolvido num megaprocesso de corrupção, Daniel Vorcaro. O vice-presidente do STF é suspeito de ter favorecido e de ter protegido o empresário que liderou o Banco Master e que foi o rosto de uma das maiores fraudes no sistema bancário no Brasil.

Esta terça-feira, num julgamento acompanhado nos canais de televisão brasileiros, Alexandre de Moraes teve de enfrentar os colegas do STF, em particular André Mendonça, que desempenha atualmente o cargo de juiz relator no caso Master. Juridicamente, o que foi discutido prendeu-se com a seguinte questão: deve o vice-presidente do Supremo Tribunal ser julgado num processo individual? Isto é, deve Alexandre de Moraes enfrentar um julgamento em nome do próprio, ou deve ser anexado num processo que avalia a conduta e a imparcialidade de André Mendonça neste caso?

GettyImages-2166224375

Juiz Alexandre de Moraes

Bloomberg via Getty Images

Não houve qualquer desfecho esta terça-feira. Não se chegou a qualquer conclusão sobre se Alexandre de Moraes deveria ser julgado individualmente, algo que seria histórico no Brasil para um membro do Supremo Tribunal. Apesar do impasse jurídico, o assunto deverá continuar a dominar a política brasileira. Devido à influência e ao protagonismo que o juiz assumiu no processo que levou à prisão de Jair Bolsonaro, Lula da Silva sempre defendeu publicamente Alexandre de Moraes. A imagem do Presidente brasileiro ficou colada à do vice-presidente do STF — o que, numa campanha eleitoral que ocorre em simultâneo com uma crise jurídica desta magnitude, se converteu num ativo tóxico.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro e os seus apoiantes nunca perdoaram Alexandre de Moraes pela forma como conduziu o processo que levou à prisão do pai, utilizando este caso para criticar a atuação do Supremo Tribunal. Mas o assunto não é assim tão simples: o candidato que está a representar a direita brasileira nestas eleições presidenciais também está a ser investigado pela Polícia Federal (PF) pelas ligações a Daniel Vorcaro.

O centrista crítico de Bolsonaro e do PT. Como chegou Alexandre de Moraes ao STF?

Nascido em 1968 em São Paulo, Alexandre de Moraes é um jurista que ocupou várias funções de relevo no Ministério Público brasileiro. Em 2016, Michel Temer — o antigo Presidente que assumiu o cargo após o processo de impeachment de Dilma Rousseff — escolheu-o para ministro da Justiça. Mais tarde, o ex-chefe de Estado indicou-o para o Supremo Tribunal Federal, sendo que no Brasil essa autoridade cabe ao Presidente da República.

GettyImages-633678620

Foi o antigo Presidente Michel Temer que elegeu Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal

AFP via Getty Images

Enquanto Presidente, Michel Temer representava a direita da corrente neoliberal no Brasil. Criticava a esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, aproximando-se do centrão, em particular da centro-direita. Encontrou em Alexandre de Moraes um aliado próximo — o jurista era, à época, membro do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e tinha um longo histórico de colaboração com governos de centro-direita.

No mandato de dois anos e meio de Michel Temer, o espaço da direita radical — que viria a ser ocupado pela família Bolsonaro — ainda não se tinha institucionalizado. A situação era distinta da atual: o PT dominava a política brasileira, numa dinâmica em que quer elevava a retórica contra o centrão político, quer se aproximava de forma pragmática dos partidos centristas. Alexandre de Moraes sempre defendeu o centro-direita e até lançou críticas duras ao Partido dos Trabalhadores no passado.

Em 2017, Alexandre de Moraes chegou a chamar o PT de “corrupto” e acusou o partido de ter “falta de vergonha na cara”, roubando “milhões” ao Brasil. O juiz defendia claramente uma linha de centro-direita quando chegou ao Supremo, sob a mão de Michel Temer. Contudo, as coisas iriam mudar com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência. O juiz nunca escondeu o desagrado com as estratégias políticas da direita radical, assumindo uma postura de combate ao movimento liderado pelo antigo Presidente.

Alexandre de Moraes chegou a descrever o PT como "corrupto"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tensões e críticas. Como foi a relação de Bolsonaro Presidente com Moraes?

Do centro-direita a crítico da atuação de Jair Bolsonaro. Por um lado, o antigo Presidente tentava driblar o sistema judicial e teve uma tendência ao longo do mandato para subjugá-lo às suas vontades. Por outro, Alexandre de Moraes nunca permitiu isso e entrou em confronto direto com a presidência. O primeiro grande choque ocorreu em 2020, quando o ministro do STF suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem — aliado bolsonarista — para o cargo de diretor-geral da Polícia Federal.

Durante a pandemia, a relação ficou ainda mais tensa. Alexandre de Moraes opôs-se a várias medidas tomadas pela presidência, acusada de desvalorizar a gravidade da Covid-19. Por exemplo, o juiz do Supremo Tribunal impediu o Governo Federal de travar as medidas de isolamento social e quarentena decretadas pelos governadores dos vários estados.

Os aliados de Jair Bolsonaro acusavam Alexandre de Moraes de querer funcionar como um contrapoder ao poder executivo. Aliás, num discurso no dia da independência do Brasil, a 7 de setembro de 2021, o antigo Presidente chegou a proclamar que nunca mais ia cumprir qualquer “decisão do senhor Alexandre de Moraes”. “A paciência do nosso povo já se esgotou, ele tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais”, afirmou o  antigo chefe de Estado.

epa12305152 Former Brazilian president Jair Bolsonaro (R) leaves a branch of the DF Star hospital services in Brasilia, Brazil, 16 August 2025. Bolsonaro, who is under house arrest while being tried for attempting a coup, left the residence where he is confined two weeks ago to undergo a series of medical examinations at a hospital, authorized by the Supreme Court.  EPA/ANDRE BORGES
"A paciência do nosso povo já se esgotou, ele tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais."
Jair Bolsonaro sobre atuação de Alexandre de Moraes no discurso do dia da independência a 7 de setembro de 2021

Apesar da retórica crescentemente crítica à sua atuação oriunda do Palácio do Planalto, o juiz do STF nunca deixou de investigar o círculo próximo de Jair Bolsonaro. Ao liderar o inquérito designado “Fake news” em 2021, procurou desmontar as redes de desinformação montadas por aliados do antigo Presidente, tendo mesmo chegado a ordenar a prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira (que tinha ameaçado juízes do Supremo).

Em agosto de 2022, a poucos meses das eleições presidenciais, Alexandre de Moraes assumiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A escolha não teve qualquer influência política, resultando da rotação do STF — o magistrado era o juiz mais antigo que ainda não tinha exercido o cargo. Na liderança do tribunal eleitoral, não poupou esforços para travar as redes de desinformação montadas pelos aliados de Jair Bolsonaro na campanha eleitoral, ao mesmo tempo que combateu as alegações sobre fraudes no sistema de voto eletrónico, narrativa que o movimento bolsonarista propagava.

Moraes: o vilão para os bolsonaristas e um aliado para os apoiantes de Lula?

Lula da Silva venceu as eleições em outubro de 2022. Embora os apoiantes do antigo Presidente Bolsonaro propagassem a narrativa de que tinha havido fraude, Alexandre de Moraes fez sempre questão de conter essas alegações, tendo confirmado a vitória eleitoral do candidato do PT. A 8 de janeiro de 2023, durante a invasão da Praça dos Três Poderes em Brasília, o poder político no Brasil tremeu com a possibilidade de um golpe de Estado. A partir daí, Alexandre de Moraes redobrou a ofensiva e nunca mais deu tréguas aos seus organizadores, incluindo a Jair Bolsonaro.

Supporters of former Brazilian President Jair Bolsonaro storm Congress building

Invasão à Praça dos Três Poderes em Brasília

Anadolu Agency via Getty Images

Para a direita radical brasileira, Alexandre de Moraes tornou-se um autêntico vilão e começou a ser visto como um apoiante de Lula da Silva. O magistrado nunca teceu comentários sobre a relação que mantinha com o atual Presidente, mas os apoiantes de Jair Bolsonaro viam-no como alguém conivente com o sistema e que fazia de tudo para proteger o chefe de Estado, sendo acusado de perseguir ao mesmo tempo a família Bolsonaro.

Esta fama ainda se acentuou mais quando Alexandre de Moraes se tornou o juiz relator das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado em 2023. O magistrado não poupou críticas a Jair Bolsonaro e aos seus aliados pelo que fizeram na Praça dos Três Poderes, classificando-os de “terroristas, golpistas e criminosos”. “As consequências do crime são amplamente desfavoráveis, porque estavam direcionadas a aniquilar os pilares essenciais do Estado democrático de Direito, mediante violência, grave ameaça, ataques sistemáticos ao Poder Judiciário. A consequência maior do crime seria o retorno a uma ditadura no Brasil”, sustentou o juiz relator.

Por sua vez, Jair Bolsonaro acusava Alexandre de Moraes de ser um “ditador”. Juntamente com outros aliados do seu Governo, o antigo Presidente acabou por ser condenado a 27 anos e três meses de prisão. A sua equipa legal tentou durante meses que o ex-chefe de Estado ficasse em prisão domiciliária. Após várias tentativas, o ministro relator acabou por conceder essa possibilidade, mas os apoiantes bolsonaristas nunca o perdoaram.

“Democracia brasileira não se abalou” e Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão. Mas a sua luta política está longe de terminar

Em sentido inverso, vários partidos centristas e até o próprio Lula da Silva começaram a ver o juiz como uma pessoa íntegra e empenhada no cumprimento rigoroso da lei. O Presidente brasileiro elogiou por várias vezes a atuação de Alexandre de Moraes, louvando o seu sentido democrático. Num país que continua altamente polarizado em 2026, o magistrado do STF conquistou não só acérrimos apoiantes, como acumulou vários inimigos.

Como começou o processo judicial que envolve Alexandre de Moraes?

Em novembro de 2025, rebentou um dos casos mais mediáticos do Brasil nos últimos tempos. O dono do Banco Master foi detido pela Polícia Federal, suspeito de uma das maiores fraudes financeiras da história do país. O empresário Daniel Vorcaro, o homem no centro da polémica, terá vendido carteiras de crédito e emitido títulos bancários sem garantias de que a instituição pudesse honrar esses compromissos.

A fraude terá atingido os 12 mil milhões de reais (cerca de dois mil milhões de euros) e obrigou o Banco Central a intervir para proteger os clientes afetados. Detido no aeroporto quando se preparava para sair do país, Daniel Vorcaro permanece em prisão preventiva. Em simultâneo, à medida que avançavam na análise da rede montada pelo empresário, os investigadores da Polícia Federal começavam a perceber a magnitude e extensão do caso.

GettyImages-2264228306

O Banco Master, a instituição bancária no centro da fraude

AFP via Getty Images

As autoridades brasileiras apreenderam o telemóvel do empresário. E concluíram que Daniel Vorcaro terá trocado mensagens comprometedoras com Alexandre de Moraes e também com Flávio Bolsonaro. No entanto, a relação com o juiz revelou-se particularmente incómoda: o empresário terá tentado pedir a proteção das autoridades ao vice-presidente do STF, que, até então, apesar das críticas dos bolsonaristas, mantinha uma reputação praticamente imaculada.

O que dizem as mensagens que terão sido trocadas entre Moraes e Vorcaro?

“Acha que segunda já tenho que estar fora?” Esta foi uma das mensagens encontradas no telemóvel de Daniel Vorcaro, alegadamente enviada a Alexandre de Moraes. O empresário terá escrito a mensagem dois dias antes de ser preso, a 15 de novembro de 2025. No dia seguinte, voltou a questionar: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.

A 16 de novembro, ainda na véspera da sua detenção, o empresário sugeriu mesmo um encontro com o juiz na sua casa e desabafou que estava “perplexo e indignado” com o que se poderia vir a passar: “Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente, até é melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso, meu Deus”.

Caso estas mensagens tenham sido mesmo enviadas a Alexandre de Moraes, isto sugere que o empresário conhecia bem o juiz e que mantinha uma relação próxima com ele. E a questão é que, mesmo tendo sido detido, Daniel Vorcaro tentou fugir das autoridades na manhã de segunda-feira, 17 de novembro. Não concretizou a fuga, mas poderá ter recebido informações de que a polícia iria agir.

epa12672961 People hold signs that reads 'Vorcaro in Jail' with the portrait of former owner of Banco Master Daniel Vorcaro during a protest organized by the Free Brazil Movement (MBL) against Banco Master following recent fraud allegations published in the press, in front of the bank's headquarters in Sao Paulo, Brazil, 22 January 2026. The bank was recently liquidated and the area has been fenced off.  EPA/Isaac Fontana

Protesto contra Daniel Vorcaro

Isaac Fontana/EPA

Mesmo após ter sido detido, Daniel Vorcaro terá tentado enviar uma última mensagem ao juiz do STF, apelando supostamente a Alexandre de Moraes para que ajudasse a “bloquear” a divulgação de mais detalhes sobre a fraude bancária. Todas estas revelações constam do relatório da Polícia Federal, que o juiz relator do processo tornou público há uns meses.

Em sua defesa, na sessão do STF desta terça-feira, Alexandre de Moraes garantiu que não trocou qualquer mensagem com Daniel Vorcaro, assinalando que os registos não passavam de notas no telemóvel do empresário. O juiz do Supremo alegou que, dos 52 registos apontados pela Polícia Federal no relatório, 47 não constavam de qualquer conversa do WhatsApp, tratando-se apenas de rascunhos guardados no dispositivo do banqueiro detido.

André Mendonça. Quem é o polémico juiz que lidera este processo?

Advogado e antigo pastor protestante, outro dos protagonistas desta trama judicial é André Mendonça. O juiz de 53 anos é o atual relator do caso Banco Master no Supremo e tem sido o responsável por supervisionar os processos que analisam as alegações de envolvimento entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Foi ele quem ordenou a publicação do relatório da Polícia Federal que revelou a alegada troca de mensagens.

GettyImages-1211310138

André Mendonça foi o juiz escolhido por Jair Bolsonaro

Bloomberg via Getty Images

André Mendonça foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro entre 2020 e 2021. Mais tarde, o ex-Presidente indicou-o para o Supremo Tribunal Federal. A ligação entre os dois homens sempre foi evidente e o magistrado nunca escondeu que se revê em muitas das ideias da direita conservadora brasileira, em particular na vertente religiosa.

Ora, é este magistrado que, por sorteio, se converteu no relator do processo. E Alexandre de Moraes não tem dúvidas de que André Mendonça está a conduzir o processo de forma parcial — não só para o prejudicar, como também para favorecer o grupo político ligado a Jair e Flávio Bolsonaro. Esta terça-feira, o verniz estalou no Supremo e Moraes atirou diretamente ao colega magistrado: “Está ao serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país. É isso”.

Alexandre de Moraes revelou ainda a sua frustração pela publicação do relatório da Polícia Federal, sustentando que André Mendonça fez uma escolha “seletiva” com o único propósito de o prejudicar publicamente. Em resposta, o juiz relator rejeitou as acusações, assegurando que se limitou a autorizar a divulgação de elementos que não comprometessem as investigações em curso.

GettyImages-2292647901

Alexandre de Moraes junto a André Mendonça

AFP via Getty Images

A discussão no Supremo que acabou num impasse. O que está a ser julgado?

Esta terça-feira, havia muita expectativa de que surgisse uma decisão. Em causa estava um veredito que poderia mudar o rumo do processo. Atualmente, o STF conta com dez juízes — estando uma vaga por preencher — para decidir o futuro de um eventual julgamento a Alexandre de Moraes. Contudo, apenas oito votaram: Kassio Nunes Marques declarou-se impedido (por ser o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral) e José António Dias Toffoli também se afastou (é sócio de uma empresa que fez negócios com um fundo ligado ao Banco Master).

Sobraram então oito. Seriam estes magistrados que iriam votar numa questão fundamental: se o Supremo abriria dois processos distintos — um focado no alegado envolvimento de Alexandre de Moraes com o banqueiro e outro sobre a atuação de André Mendonça no decorrer destas investigações — ou se unificaria tudo num único. Neste último cenário, o desfecho mais provável seria o arquivamento, dado que nenhum dos juízes teria interesse numa investigação deste género — que poderia, no fundo, prejudicar os dois magistrados.

Já se o processo visasse apenas Alexandre de Moraes, isso seria inédito na história do Brasil. Um julgamento deste género colocaria sérias dúvidas sobre a legitimidade do Supremo, o órgão mais importante do poder judicial brasileiro. Encontrando-se nesta situação, isso questionaria ainda todo o historial das decisões do juiz do STF.

GettyImages-2294916259

Julgamento tenta perceber se caso de Alexandre de Moraes deve ser individualizado

AFP via Getty Images

O que é o pedido de vista a que Flávio Dino recorreu?

Por agora, o desfecho apontaria no sentido de que Alexandre de Moraes seria julgado individualmente. Quatro juízes (Edson Fachin, que é o presidente do Supremo Tribunal Federal e que assume o papel de relator nesta votação, André Mendonça, Cármen Lúcia e Luiz Fux) votaram a favor da separação dos dois casos. Em sentido oposto, três magistrados pronunciaram-se pela união dos processos — o próprio Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Ficou a faltar um: Flávio Dino. Inicialmente, votou a favor da anexação, mas depois alterou o voto e por fim decidiu retirar o voto.

Não só alterou o sentido do voto, como recorreu ao pedido de vista. Legalmente, isso significa que Flávio Dino considerou necessitar de mais tempo para analisar e refletir sobre a sua decisão. Segundo o regimento do Supremo, existe agora um prazo máximo de 90 dias para que o julgamento seja retomado. Há outra sessão agendada para quarta-feira, dia 23 de setembro, mas a imprensa brasileira já avançou que deverá ser adiada.

O que acontece em caso de empate?

Se Flávio Dino tivesse mantido a sua posição inicial, quatro ministros votariam a favor da anexação e quatro a favor da separação dos casos. Resultaria num empate. Em circunstâncias normais, caberia ao Presidente do STF o voto de desempate. Contudo, como Edson Fachin já votou nessa condição, fica impedido de desempatar.

epa12346304 Brazilian Supreme Court Justice Flavio Dino attends a session at the Supreme Federal Court in Brasilia, Brazil, 02 September 2025. The Supreme Federal Court (STF) held the first session of the final phase of the coup trial against former president Jair Bolsonaro and several of his former aides on 02 September.  EPA/ANDRE BORGES

Flávio Dino adiou o desfecho do caso

ANDRE BORGES/EPA

Em declarações ao portal UOL, o constitucionalista Pedro Serrano explica as consequências deste impasse: “Caso o empate se volte a verificar na decisão de investigar ou não o ministro Alexandre, não há dúvida de que o desfecho será a favor do investigado, o que significa que o processo é arquivado”. Dito doutro modo, um empate poderia acabar por beneficiar Alexandre de Moraes. No entanto, com o pedido de vista de Flávio Dino, essa deliberação permanece suspensa.

Para já, Cármen Lúcia, Edson Fachin, André Mendonça e Luiz Fux já deixaram registados os seus votos contra a anexação dos processos, ao passo que Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin mantêm a posição favorável à unificação das causas. O voto de Flávio Dino será, neste contexto, fundamental. Mas este juiz decidiu adiar a decisão — e manter o impasse.

A vitória para Flávio Bolsonaro. Porque é que o adiamento deu “alento” ao candidato?

Flávio Bolsonaro nunca escondeu o desejo de ver Alexandre de Moraes formalmente investigado. Embora a suspensão do julgamento possa ter adiado esse objetivo, o cenário abre uma nova oportunidade política: o candidato presidencial pode continuar a explorar a proximidade entre Lula da Silva e o juiz do Supremo, alimentando a narrativa de que ambos atuam em sintonia.

epa13132807 Brazilian Senator Flavio Bolsonaro speaks during the national convention of Brazil's Liberal Party (PL) in Sao Paulo, Brazil, 25 July 2026. The Liberal Party, led by former President Jair Bolsonaro, kicked off its national convention to nominate his eldest son, Senator Flavio Bolsonaro, as its candidate for the upcoming presidential election in October 2026.  EPA/ISAAC FONTANA

Flávio Bolsonaro não escondeu a satisfação com o desfecho do caso

ISAAC FONTANA/EPA

Após o adiamento, Flávio Bolsonaro explorou precisamente esse argumento e não escondeu o entusiasmo: “Foi um dia de esperança”. “Votar em Lula é votar em Alexandre de Moraes e não vou deixar isso acontecer”, afirmou o candidato presidencial, garantindo: “O Alexandre de Moraes será investigado pelos crimes que em tese ele cometeu. Só não aconteceu hoje porque a tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo, em especial o Flávio Dino, que pediu vista depois que ele já tinha lançado o próprio voto dele”.

“Mas é um alento saber que, se fosse há um ano, ninguém imaginaria que isso pudesse acontecer. Então o julgamento vai avançar. E fica aí o recado: ninguém pode acreditar que, com o Lula reeleito, alguma coisa vai mudar nesse país”, prosseguiu Flávio Bolsonaro. Numa plena crise de confiança no Supremo e com Alexandre de Moraes ainda sob pressão, o filho de Jair Bolsonaro vai insistir neste tópico, para desgastar a imagem do atual Presidente.

Como apurou o portal Metrópoles, a equipa de campanha de Flávio Bolsonaro considera que o desfecho desta terça-feira resulta num cenário que os beneficia em toda a linha. Os seus aliados interpretam o impasse como uma dinâmica em que o prolongamento da crise e o consequente desgaste na imagem do Supremo Tribunal Federal prometem manter o tema no centro do debate político, acabando por prejudicar a campanha de Lula da Silva.

“Votar em Lula é votar em Alexandre de Moraes e não vou deixar isso acontecer. O Alexandre de Moraes será investigado pelos crimes que em tese ele cometeu. Só não aconteceu hoje porque a tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo, em especial o Flávio Dino, que pediu vista depois que ele já tinha lançado o próprio voto dele."
Flávio Bolsonaro, candidato presidencial brasileiro

As sondagens, aliás, já o demonstram. Nos últimos estudos de opinião, Flávio Bolsonaro está a aproximar-se perigosamente de Lula da Silva — e numa até o superou na segunda volta. Ainda que não seja consistente — há algumas que continuam a diagnosticar uma diferença de pelo menos sete pontos percentuais a favor do atual Presidente —, esta crise no Supremo Tribunal veio dar fôlego à campanha do candidato do Partido Liberal (PL).

Que estratégia adota Lula? Ainda admira Moraes, mas modera o discurso

Na campanha de Lula da Silva, o estado de espírito é substancialmente diferente — o Presidente brasileiro tem evitado comentar o assunto. Sabe perfeitamente que, entre os seus eleitores mais fiéis, segundo o Estadão, Alexandre de Moraes é o “herói do 8 de janeiro”. O juiz é visto como o principal responsável por deter Jair Bolsonaro, o que lhe concede uma elevada popularidade entre os apoiantes mais à esquerda.

No entanto, as sondagens mostram que a estratégia terá de se alterar. Os eleitores mais independentes e moderados estão a começar a definir o sentido de voto em Flávio Bolsonaro, como mostram as sondagens. A polémica no Supremo intensificou esse processo. Criticar em público Alexandre de Moraes até pode ser contraproducente no seio da base eleitoral, mas benéfico para aqueles que ainda estão indecisos ou que não se identificam nem com o PT, nem com o PL.

Lula da Silva tem evitado comentar diretamente o caso — apenas disse que todos “devem prestar esclarecimentos” à Justiça. E a perceção que começa a prevalecer é a de que o atual Presidente está a proteger Alexandre de Moraes. Assim, a equipa da campanha definiu uma nova estratégia: descolar a imagem do Presidente da do juiz do Supremo. Para isso, existe um forte argumento: consiste em lembrar que o magistrado foi escolhido por Michel Temer, que está muito longe de ser um aliado do PT.

Esta quarta-feira, numa entrevista a um podcast, Lula da Silva recordou precisamente esse passado: “Eu não era Presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para juiz do Supremo. Eu não era Presidente quando indicaram o Kassio. Eu não era Presidente quando indicaram o André Mendonça”. Ainda assim, o chefe de Estado brasileiro deixou elogios à atuação do juiz, sublinhando os “grandes serviços à democracia brasileira”.

“Ele foi Presidente do TSE quando ganhei as eleições e ele sabe, o Brasil sabe, a tentativa que o Bolsonaro fez para destruir a credibilidade das urnas brasileiras”, afirmou Lula da Silva, contrapondo, ainda assim: “Todo o mundo que cometeu um erro tem de ser julgado. Eu defendo um julgamento justo, o direito de defesa, mas, se cometeu um delito, tem de pagar. Vale para mim, vale para o Fachin, vale para o Moraes. Essa é a minha tese”.

"Todo o mundo que cometeu um erro tem de ser julgado. Eu defendo um julgamento justo, o direito de defesa, mas, se cometeu um delito, tem de pagar. Vale para mim, vale para o Fachin, vale para o Moraes. Essa é a minha tese."
Lula da Silva sobre processo judicial que envolve Alexandre de Moraes

A três semanas da primeira volta, o Presidente brasileiro compreendeu os riscos de associar a sua imagem à defesa incondicional de Alexandre de Moraes. A admiração — e a perceção de que é partilhada pela sua base de apoiantes — parece manter-se. Contudo, Lula da Silva já percebeu que o apoio a um juiz envolvido numa polémica longe do fim se transformou num dos trunfos mais eficazes de Flávio Bolsonaro. E a oposição promete não largar este assunto.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.