O octogenário realizador, ator e escritor polaco Jerzy Skolimowski, autor de filmes como “O Uivo” ou “Moonlighting”, disse que a única vez que se lembra de ter chorado no cinema foi nos anos 60, quando era um jovem cineasta em início de carreira e foi ver “Peregrinação Exemplar”, de Robert Bresson, que tinha ficado à frente do seu “Walkover” na lista dos 10 melhores filmes do ano dos “Cahiers do Cinéma”. Skolimowski saiu da sala emocionalmente arrasado com esta alegoria cristã de Bresson, em que um burrinho, símbolo da inocência, é exposto à crueldade e à estupidez dos homens até à morte.

“EO”, o novo filme de Skolimowski, vencedor dos Prémios do Júri e da Banda Sonora em Cannes, e candidato ao Óscar de Melhor Filme Internacional, é, segundo ele, uma homenagem a “Peregrinação Exemplar” e uma manifestação de amor aos animais e à natureza por parte do cineasta e da sua parceira de escrita de argumento, Ewa Piaskowska. A fita centra-se no burrinho EO (a onomatopeia para o zurro destes animais), que vive num circo polaco, participando num número com Kasandra (Sandra Drzymalska), uma artista que o adora e mima, embora o seu diretor  já não seja tão simpático para o animal.

[Veja o “trailer” de “EO”:]

Após uma manifestação de ativistas dos direitos dos animais, e para desgosto de Kasandra, EO é apreendido e posto numa fazenda, acabando por se lançar numa jornada pela Polónia que o conduzirá até Itália. Pelo caminho, o burrico (que na verdade são seis diferentes) passa pela mão de várias pessoas, que ora são boas para ele, ora o maltratam, assiste a uma caçada aos lobos e tem uma breve permanência numa quinta onde se criam animais, em especial raposas, para depois serem mortos e aproveitarem as peles (perto do final, há uma aparição de Isabelle Huppert numa condessa, mãe de um jovem padre suspenso por ser viciado no jogo, que parece não ter absolutamente nada a ver com o resto da fita, mas tudo acaba entre ovelhas, como em “Peregrinação Exemplar”).

[Veja uma entrevista com Jerzy Skolimowski e Ewa Piaskowska:]

“EO” é, no entanto, muito diferente do visualmente austero, classicamente sequencial e profundamente espiritual “Peregrinação Exemplar”. Jerzy Skolimovski aproveitou o facto de ter como personagem um animal, que não fala, é pacífico e quase sempre passivo, e que não pára de deambular por caminhos, estradas, montes e vales, para realizar um filme não-linear, visual e sonoramente movediço, e que se movimenta entre o concreto e o abstrato. “EO” é, ao mesmo tempo, uma história discretamente moral,  e um ensaio cinematográfico, uma proposta de cinema experimental, em que os momentos, paisagens e peripécias realistas alternam com ambientes e sequências de pura poesia, e de natureza surreal e recorte sobrenatural.

[Veja uma cena do filme:]

Skolimowski usa a banda sonora facetada do compositor Pawel Mykietyn (e que é absolutamente intrínseca à identidade do filme) para sugerir a “voz” interior de EO e as reações do animal ao que lhe vai acontecendo, aos locais por que passa e às coisas que testemunha, enquanto o diretor de fotografia Michal Dymek transforma a sua câmara num objecto mutante que não só nos faz partilhar o ponto de vista do burrinho (há uma sequência belíssima em que ele vai num e vê uma manada de cavalos galopar majestosamente pelo campo aberto que ladeia a estrada), e o de Deus, como também o ponto de vista que a própria natureza tem de EO.

Quase totalmente livre de sentimentalismo pronto-a-usar (tirando um par de momentos mais açucarados e fáceis) e de didatismo intrometido com reboque de “mensagem”, “EO” acaba por impressionar sobretudo pela insistente e consistente inventiva e audácia formal manifestada por Jerzy Skolimowski. Aos 85 anos, o autor de “O Navio Farol” e companheiro de geração de Roman Polanski e Andrzej Zulawski, parece ter voltado aos seus tempos de realizador jovem e arrojado da Nova Vaga polaca, aberto a todas as influências e pronto para todas as experiências. Mesmo que seja a acompanhar um burrico deixado à solta pela Europa.