Uma lata de massa de tomate. Se, quando Barry Allen (o Flash, interpretado por Ezra Miller) era miúdo, a mãe não se tivesse esquecido de comprar uma lata de massa de tomate e o pai não tivesse ido ao supermercado buscá-la, o ladrão que entrou em casa não a teria assassinado porque o pai estaria lá; e o pai não teria sido erroneamente acusado da morte da mãe e não estaria preso há anos numa penitenciária; e Barry não andaria a tentar arranjar provas para o ilibar, nem teria ido trabalhar para o laboratório científico forense em que certa noite de trovoada foi atingido por um relâmpago e ficou com o poder da super-velocidade.

[Veja o “trailer” de “The Flash”:]

O mesmo poder que, após ter salvo Gotham City de uma catástrofe no início de “The Flash”, juntamente com Batman e a Mulher-Maravilha, Barry se lembra de usar para voltar atrás no tempo, pôr uma lata de massa de tomate no carrinho de compras da mãe e anular a tragédia que se abateu sobre a sua família. Só que Barry não lê ficção científica. Porque se o fizesse, sabia que mexer com o passado altera obrigatoriamente o futuro. E quando volta ao futuro, ele constata que a mãe está viva e o pai em casa. Só que depara não apenas com um Barry alternativo (e pateta até roçar o insuportável), como também com um mundo onde Eric Stoltz interpretou a trilogia “Regresso ao Futuro” em vez de Michael J. Fox, sem super-heróis e no qual o general Zod desembarca para o destruir.

[Veja uma entrevista com Andy e Barbara Muschietti, realizador e produtora:]

Realizado por Andy Muschietti (o autor do díptico de terror “It” e “It Capítulo 2”, baseado no livro de Stephen King), “The Flash” assenta, assim, num tema clássico da ficção científica (FC): o futuro perturbado pela interferência, deliberada, ou inadvertida, no passado. Um tema que já proporcionou algumas obras-primas na literatura do género, mas nada que se veja no cinema de FC (recorde-se apenas o inenarrável “O Som do Trovão”, em má hora assinado por Peter Hyams em 2005, que deturpa e desfigura o genial conto homónimo de Ray Bradbury).

[Veja uma entrevista com Michael Keaton:]

E não é “The Flash” que contribui para melhorar este panorama, nem recorrendo à duplicação de algumas das personagens, já que após uma primeira metade potável, onde, entre outras coisas, Michael Keaton regressa ao papel de Batman e surge uma nova Supergirl, o filme soçobra numa espalhafatosa orgia de efeitos digitais, entre uma elefantina batalha final e um pandemónio de paradoxos temporais, mundos alternativos e super-heróis passados ou que nunca foram. E para um filme protagonizado por um super-herói cujo poder é a super-velocidade, “The Flash” não progride propriamente com a rapidez do relâmpago, e vai bem além das duas horas de duração.

[Veja uma cena do filme:]

Uma das raras boas piadas auto-referenciais da fita acontece mesmo no fim, com o inesperado aparecimento de um terceiro Batman na sua faceta de Bruce Wayne. Só para a pintura ser borrada após a (longuíssima) ficha técnica, com um “gag” burgesso e inútil protagonizado por Barry e por um colega super-herói do universo DC. O melhor Flash continua a ser o de Sheldon Cooper disfarçado do super-herói em “A Teoria do Big Bang”. Não possui super-poderes, mas tem infinitamente mais graça e despacha-se em poucos minutos, e sem estraçalhar a integridade espácio-temporal do universo.