Tal como sucede ao agente Ethan Hunt (Tom Cruise) no início de cada uma das suas missões impossíveis, quando a voz no gravador lhe pergunta se a aceita, tal como as respetivas consequências para ele e para os membros da sua equipa, os filmes da série Missão: Impossível (do qual “Missão: Impossível — Ajuste de Contas-Parte Um” é a primeira metade do sétimo, e parece que derradeiro) pedem aos espectadores que aceitem o funcionamento da inatacável lógica interna pela qual se regem. Se recusarem, mais vale irem ver outro filme, porque não tolerarão os altíssimos níveis de absurdo e a abissal inverosimilhança das histórias. Se aceitarem, poderão disfrutar do espectáculo de ação cinematográfica mais elaborado, empolgante, vertiginoso e indutor de taquicardia de que Hollywood é capaz por estes dias.

[Veja o “trailer” de ” “Missão: Impossível — Ajuste de Contas-Parte Um”:]

Já há muito tempo que os enredos das fitas da série Missão Impossível deixaram de fazer sentido. Vamos vê-las pela pura e intensa emoção da abundante ação (física, aérea, aquática, rodoviária, ferroviária), encenada, orquestrada e propulsionada até ao seu expoente máximo, e capitaneada por um Tom Cruise que substituiu o seu Ethan Hunt como protagonista dos filmes e se transformou no verdadeiro herói destes, pela forma como desafia a gravidade e arrisca a vida em cada um deles, e a sua vontade de querer ir sempre mais longe nas sequências espectaculares e fazê-las ele próprio, sem recurso a “duplos”, após longa e cuidadosíssima conceção, preparação, e muitos ensaios e repetições. (Cruise tem 61 anos e a energia de um homem 30 anos mais novo).

[Veja uma entrevista com Tom Cruise:]

Nos filmes de James Bond — dos quais os de Missão Impossível se transformaram na versão 2.0, XXL, “Jumbo”, o que lhes quisermos chamar —, o agente 007 é sempre a vedeta, independentemente do ator que o interpreta. Nestes, a vedeta é sempre Tom Cuise, e é impossível pensá-los sem a sua presença. Perfeccionista maníaco, stakhanovista do trabalho cinematográfico, “showman” à moda antiga, “junkie” da velocidade virtuosa e da espectacularidade pasmosa, Cruise faz parte, tal como um Douglas Fairbanks ou um Jackie Chan, de um estrito clube de atores e “estrelas” que, além de representarem, controlam, enquanto produtores independentes, todos os aspetos dos seus filmes. E arriscam a pele em nome do espectáculo de grande qualidade que exigem a si próprios e àqueles com quem trabalham, e dão ao público em troca do dinheiro do bilhete.

[Veja Tom Cruise ensaiar a mais arriscada sequência do filme:]

A história de “Missão: Impossível — Ajuste de Contas-Parte Um”, mais uma vez realizado por Christopher McQuarrie com turbo e medidor de tensão instalado em todas as câmaras, banha num clima de amoralidade geopolítica e terror “high tech”. Desta vez, o vilão é digital: um programa de Inteligência Artificial que desenvolveu consciência própria e se tornou na Entidade, infiltrou todos os sistemas computacionais globais, só pode ser controlado e desligado por uma chave que está dividida em duas metades e tem como seu representante humano o implacável Gabriel (Esai Morales), uma figura do passado de Ethan Hunt. E quem tiver a chave completa pode dominar e destruir todos os inimigos e ser o senhor do mundo.

[Veja uma sequência do filme:]

Este “macguffin” básico e transparente serve para lançar a ação do filme, composto de um tenso prólogo subaquático e de um punhado de sequências de ação engenhosas, robustíssimas, pulsáteis, fulgurantes e crescentemente audaciosas, a pé, de carro, de moto, de comboio e de combate a tiro, faca ou artes marciais, que nos sugam para o seu interior como sucessivos túneis de vento. Christopher McQuarrie, os argumentistas e Tom Cruise ora nos surpreendem, ora brincam gostosamente com vários “clichés” do cinema de ação em cada uma delas (ver o Fiat 500 amarelinho e as confusões com as lambretas na perseguição pelas ruas e ruelas de Roma, ou as cabriolas, acrobacias e “cliffhangers” na sequência no Expresso do Oriente). E ao contrário do que sucede com os outros massacrantes filmes de ação e de super-heróis, dão ao filme, e aos espectadores, tempo para parar um pouco e respirar entre elas.

Só mesmo um filme como “Missão: Impossível — Ajuste de Contas-Parte Um” podia deixar-nos cheios de vontade de ver a “Parte Dois”. E também saber se Tom Cruise é capaz de ir mais longe nela do que foi na primeira. É que para ele, já nem o céu é o limite e já nem o absurdo é impossível.