Era algo inexplicável. Invulgar, incomum, sobretudo inexplicável. Novak Djokovic conseguiu ir saindo da sombra de Roger Federer e Rafael Nadal como o mosqueteiro de uma era à parte de todas as outras no ténis que melhores registos tinha, bateu quase todos os recordes mas nem por isso atingiu o patamar que o jogador espanhol ocupa. Ali, na segunda ronda do torneio de singulares masculinos dos Jogos Olímpicos de Paris, o sérvio estava melhor, era melhor e jogava melhor, mas aquilo que todos queriam era ver a reação do espanhol em vez de admirarem o que se passava no court. A resposta chegou, ainda que curta, e animou o segundo set de um jogo onde quem perdeu, Nadal, teve a grande ovação que vai por norma para o vencedor, Djokovic.

O Super Homem tornou-se de vez humano e foi a sua memória que saiu ovacionada (a reportagem do último tango em Paris entre Nadal e Djokovic)

A multidão que enchia por completo o court Philippe-Chatrier tinha características diferentes daquelas que se veem no torneio de Roland Garros mas sobrava um ponto comum: a esperança de que aquela não fosse a última vez que o espanhol pisasse uma terra que tornou sagrada na história do ténis mundial. Se fosse por ele, haveria uma última versão típica de Last Dance em 2025 – até por forma a “vingar” um sorteio que lhe foi madrasto este ano, cruzando logo na primeira ronda com o então jogador em melhor momento em todo o circuito ATP, Sasha Zverev. Nadal jogou muito, o alemão jogou mais. Nadal queria jogar mais mas o que fez já foi muito. Agora, por culpa das derrotas que teve no duelo ao longo dos últimos anos com a fragilidade do seu corpo, não haverá um próximo capítulo. O lado humano ganhou ao mito para deixar a lenda.

O anúncio foi feito num vídeo com mais de quatro minutos e meio que alternavam imagens dos melhores momentos da longa carreira com a mensagem de despedida entre um “Obrigado a todos” em 12 línguas.

“Olá a todos. Estou aqui para dizer a todos que me vou retirar do ténis profissional”, refere logo na entrada, depois de um longo respirar fundo a preparar uma emoção demasiado visível nos olhos pelo anúncio que se preparava para fazer. “A realidade é que foram anos difíceis, especialmente estes dois últimos anos. Creio que não fui capaz de jogar sem limitações. É uma decisão que é evidentemente difícil, que levou algum tempo até ser tomada mas nesta vida tudo tem um início e um fim. Acredito que este é o momento certo para colocar um ponto final numa carreira que foi longa e que trouxe muito mais êxitos do que alguma vez poderia imaginar”, começou por dizer o jogador natural de Maiorca que ganhou um total de 22 Grand Slams.

“Para mim é um grande momento que o meu último torneio seja as finais da Taça Davis, onde tenho essa possibilidade de representar o meu país. É como fechar o círculo na medida em que uma das primeiras grandes alegrias que tive no ténis profissional foi a final de Sevilha da Taça Davis, em 2004. Sinto-me muito um privilegiado por todas as coisas que pude viver. Quero agradecer a toda a indústria do ténis, todas as pessoas que este desporto engloba: os meus companheiros durante tantos anos, os meus grandes rivais. Passei muitas horas com eles e vivi muitos momentos que vou recordar para toda a minha vida”, salientou num momento em que passavam imagens de finais do Grand Slam contra Roger Federer e Novak Djokovic.

“Falar da minha equipa torna-se um pouco mais difícil porque, afinal, foi uma parte muito importante da minha vida. Não são trabalhadores, são amigos. Estiveram ao meu lado em todos os momentos em que foi necessário. Nos momentos muito maus, nos momentos muito bons, momentos em que tiveram de puxar por mim, momentos em que me tiveram de segurar. Vivemos tantos momentos juntos que é difícil explicar. A família é tudo para mim. A minha mãe fez todos os sacrifícios que tinha de fazer para que tivéssemos sempre tudo. A minha mulher, Mari, levamos 19 anos juntos Obrigado por tudo o que fizeste e por teres sido a minha companheira de viagem perfeita ao longo de todos estes anos. Voltar a casa e ver todos os dias como está a crescer o meu filho foi uma força que me manteve vivo e com energia para continuar”, confessou.

“A minha irmã também, com quem consegui sempre manter uma relação incrível. O meu tio, que é a razão pela qual comecei a jogar ténis. Foi graças a ele que consegui superar muitas situações difíceis ao longo da minha carreira desportiva. E ao meu pai, que acredito que para mim foi uma fonte de inspiração em toda a essência da palavra, em todos os sentidos. Foi um exemplo de esforço, de superação. Muito obrigado ao meu pai, de uma forma muito especial. Por último, vocês, os fãs. Não tenho forma de agradecer a maneira como me fizeram sentir. Em todos os momentos deram-me a energia que necessitava. Tudo o que vivi foi um sonho tornado realidade. Vou com a tranquilidade de ter dado o máximo. Obrigado a todos”, concluiu.