Serão sempre as imagens. O rosto e o corpo de Laura Palmer quase azuis, de gelo, dentro do saco plástico da polícia, a pairar sobre toda a Twin Peaks, o lugar e a série. Anjo, assombração, mistério, esfinge que tudo sabe, mas já não pode revelar. As cortinas vermelhas dos sonhos do agente Cooper, e os mosaicos a preto e branco ziguezagueantes, hipnotizantes, do chão. A estrada que nos vai perdendo no interior das árvores altas e das montanhas, ao som de Angelo Badalamenti, porque a música também foi sempre outro tanto em David Lynch. Tudo isto vem de Twin Peaks, a série original que foi, para uma determinada geração, a porta de entrada na obra do realizador e a descoberta de que a televisão podia ser mais do que Bonanzas e concursos apresentados pelo Fialho Gouveia (não desfazendo das respetivas qualidades). Daí é que partiríamos depois para o cinema, que é onde o nome do homem ontem desaparecido merece figurar entre os maiores de sempre.
O mal de se ter muita coisa é que se tem muito a perder. E assim, ao longo da vida, vamos perdendo familiares, amigos, gatos, cães e heróis. Até que já não nos sobre quase nenhum – e quase nenhuma palavra para o dizer. David Lynch fez apenas dez longas-metragens, a última das quais pouco menos que caricatural: Inland Empire. Das restantes nove, não seria absurdo colocar seis numa lista dos 100 melhores filmes de sempre: Eraserhead, Blue Velvet, Estrada Perdida, mas, principalmente – escolha completamente discutível, mas é para isso que nos pagam – O Homem-Elefante, Uma História Simples e Mulholland Drive (ainda assim, alguém poderá perguntar, com toda a propriedade, “E o Wild at Heart, meu granda §#%&$^±?!” e outros termos que não podemos aqui reproduzir). Até o seu Dune, longe de genial, continua a ser bem mais interessante do que esta obra ao pastel com o Timothée Chalamet (quantos universos sci-fi se podem querer tirar de um só Denis Villemeuve?). Há a indústria e há os artistas; há o que se mastiga e deita fora e há o que fica. Não me recordo do que vi o fim-de-semana passado, mas recordo cada filme de Lynch, onde, quando e com quem os vi – e suspeito que muita gente poderá dizer o mesmo.
Há uma outra palavra muito importante quando se fala deste senhor, também pintor, cabelo branco alucinado, voz esganiçada, a troçar do fumo e da gravidade que talvez se lhe esperassem, que é: assombro. O estado de assombro com que o público saía, com dificuldade, para o mundo real depois da projeção de um dos seus filmes. Nunca vi multidão mais desnorteada que a que saía para a rua diretamente da sala 3 do King no fim de Mulholland Drive. Nem miúdos mais baralhados que os estudantes de cinema que, aqui ainda há dois anos ou três, ar de quem já tudo viu e tudo sabe, debitavam tiradas de enciclopédia no foyer da Cinemateca antes de Eraserhead e, depois, na sessão, começaram por rir, depois por se assustar, mexerem desconfortavelmente nas cadeiras e, à saída, simplesmente, não saberem o que dizer.
E as imagens, sempre as imagens que nos assombrarão quando estivermos naquele meio-estado acordado a sonhar. Isabela Rossellini cantando Veludo Azul, o diabólico Frank Booth de Dennis Hopper, os traços da estrada desaparecendo ritmicamente, rumo à noite infinita de Lost Highway, os irmãos Straight sentados lado a lado no alpendre, olhando a vida e a morte no final de Uma História Simples. O néon azul do clube “Silencio” em Mulholland Drive, o cabelo azul da mulher que, no camarote, pede silêncio. As bocas de Naomi Watts e Laura Elena Harring. O mágico em palco gritando: “No hay banda! There is no band! But yet… We hear a band…” Para depois, entrar Rebekah del Rio e nos espatifar emocionalmente, deixar-nos de gatas sem pingo de esperteza que ainda se atreva a tecer teorias sobre o que signifique o filme, a cena, o que estamos aqui a fazer, enfim, como se isso importasse para alguma coisa, com o seu monumental Llorando.
Há quem não goste de David Lynch; quem se enerve com a estranheza, a confusão, a dificuldade de perceber muitos dos seus filmes. A eles, digo sempre o mesmo: Lynch torna-se muito mais agradável quando deixamos de o tentar perceber. É como fazer surf, andar de mota ou, suponho, esquiar: quanto mais rígidos, menos divertido. É preciso trocar o equilíbrio pelo balanço, o ponto pelo traço, o corpo pela onda. Lynch não é para ser entendido, mas sorvido, apreciado, sentido. É – foi – um fabricante de imagens, um prestidigitador de sensações. Os anões inexplicáveis, as louras dos diners, os homens estranhos que dizem lembrar-se de nós de outra vida, as cantoras de pele muito branca e microfones anacrónicos nos cabarés – a sedução, o poder encantatório das canções, dos corpos, dos movimentos, do fumo das salas, flautista fazendo dançar a serpente, condição fundamental para que nos perdêssemos nas histórias, como os protagonistas, sem que ninguém nos ouvisse queixar.
Cultor do surrealismo, fascinado pelo interior americano onde nasceu, muito longe das grandes cidades e ícones tradicionais do cinema do seu país. Sempre fascinado pela ideia do duplo, da cópia, do gémeo, do reflexo, do sósia, da projeção. Rondou, muitas vezes, a noção do mal, um mal terrífico, tenebroso, horrendo, inerente a tudo, não religioso, não moral, puro mal, escondido na porta das traseiras de todas as coisas e que, de vez em quando, toma conta de nós. Mas polvilhou tudo também com um enorme sentido de humor, que talvez nem sempre tenhamos entendido, mas que resta bem evidente na sua última obra de fôlego: um muito satisfatório regresso a Twin Peaks, para uma terceira temporada tardia, em 2017, quase três décadas depois do corpo de Laura Palmer ter sido encontrado nos confins da nossa cabeça pela primeira vez. E algo mais, aquelas poucas vezes em que decidiu abdicar de todos os truques e mostrar, como Picasso, que, se quisesse, podia simplesmente pintar o belo, sempre que lhe apetecesse: o coração extraordinário de John Merrick debaixo da aparência monstruosa de homem-elefante. O senhor Alvin atravessando o país num corta-relva porque é imperioso que se despeça do irmão que está doente e com quem há tanto se zangou.
Nos últimos dias, Los Angeles, Hollywood, estiveram em chamas. Pouco depois, David Lynch morreu. Agora é que ardeu o cinema americano.