“Eu não consigo continuar neutral, não consigo estar confortável nessa neutralidade“, afirmou Christine Lagarde nesta quinta-feira, justificando porque é que decidiu antecipar a saída da liderança do BCE em quase nove meses. A francesa, que tinha revelado horas antes que iria deixar a autoridade monetária a 7 de fevereiro, explicou que os constrangimentos impostos aos responsáveis do banco central – e, ainda mais, ao seu presidente – a impedem de usar a sua “voz” em defesa de um valor que tem visto, frequentemente, ser posto em causa: “a verdade“.

Christine Lagarde deixou para o fim da conferência de imprensa, que se segue à reunião de política monetária, todas as perguntas acerca da sua saída prematura e, no final, não confirmou o que vai fazer após a saída do BCE. Não fez qualquer referência ao Fórum Económico Mundial (WEF, na sigla original), o influente organismo internacional para o qual se especula, há mais de um ano, que Lagarde poderia ir. E, também, não alimentou especulações de que a sua saída antecipada em fevereiro tenha sido decidida para que seja, ainda, Emmanuel Macron a ter um voto importante na escolha do seu sucessor no BCE (e não o seu sucessor que tem em Marine Le Pen forte candidata em eleições que se realizam em abril/maio).

“Nunca há boas alturas para sair, mas está previsto nos estatutos do BCE que os presidentes e os membros do conselho têm de sair, não podem ser reconduzidos nos seus cargos”, começou por lembrar Christine Lagarde, recordando que o mandato terminaria, de qualquer forma, em outubro de 2027. “A razão por que estou a antecipar a saída é que, como disse a colegas no BCE, eu quero ter a liberdade de expressão, a liberdade de discurso e a liberdade para intervir em temas que não estão relacionados com política monetária”.

Lagarde revela ter sido operada a um cancro da pele

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Christine Lagarde, que tem 70 anos, revelou ter sido submetida a uma pequena cirurgia para remover um cancro da pele. A explicação surgiu depois de ter aparecido com dois pensos no rosto num vídeo em que anunciou a sua saída do BCE.

Numa mensagem interna aos funcionários da instituição, citada pelo jornal Politico, Lagarde abordou o assunto com humor: “Sei que tenho um aspeto estranho. Não foi por fazer kickboxing na Tailândia. Foi apenas um pequeno cancro da pele que teve de ser removido”.

Lagarde aproveitou, ainda, para aconselhar a realização de exames dermatológicos regulares.

A francesa, que está prestes a lançar um livro autobiográfico, não quer continuar a ser obrigada a respeitar o dever de “neutralidade” que é imposto a alguém nesta posição. “Neste momento, em relação ao que está a acontecer em muitos cantos do mundo, não apenas na Europa, penso que a minha voz pode ajudar, a minha ação pode ajudar, em relação a princípios que são próximos do meu coração”, atirou, sem ser mais explícita.

E que princípios são esses? “O meu interesse é a verdade e vejo a verdade demasiadas vezes a ser danificada, contradita por falsidades”, afirmou Christine Lagarde, acrescentando: “tendo em conta os cargos que tive nos últimos anos, como diretora-geral do FMI, como presidente do BCE, há coisas que eu posso dizer – se as pessoas ouvem ou não é outra questão – mas eu sinto que tenho de dizer essas coisas e não posso fazê-lo na minha situação atual”.

Um dos primeiros a reagir à notícia da saída de Lagarde foi o seu compatriota Jean-Philippe Tanguy, deputado do Rassemblement National (RN) de Marine Le Pen. Nas redes sociais, o deputado acusou Emmanuel Macron de promover uma “deriva iliberal” do sistema político francês e europeu.

“Macron quer garantir o controlo do BCE depois de ter colocado E. Moulin à frente do Banco de França e A. de Montchalin à frente do Tribunal de Contas”, escreveu o deputado, acusando o Presidente de “traição” ao, também, tentar “condicionar” o futuro orçamento plurianual da União Europeia (QFP), antes das próximas eleições europeias.

Lagarde queria “águas calmas” para sair do BCE, mas deverá fazê-lo no meio da turbulência. O “xadrez” que vai mudar profundamente o BCE

Christine Lagarde ainda irá presidir às reuniões do Conselho do BCE em dezembro e, também, no início de fevereiro. E finalizou a conferência de imprensa desta quinta-feira garantindo que, apesar da notícia sobre a saída antecipada, não há razões para temer algum tipo de “limbo” ou de descontinuidade nas tomadas de decisão no BCE.

“Já começou o processo para escolher o meu sucessor – e há vários candidatos excelentes, muito melhores do que eu, na verdade”, afirmou.

A agência Reuters noticiou que Macron estaria disposto a apoiar o neerlandês Klaas Knot para a presidência, desde que um candidato francês fosse escolhido para suceder a Philip Lane no lugar de economista-chefe. Na corrida estará, também, o espanhol Pablo Hernández de Cos, que é visto como alguém que tem um perfil mais moderado.

Lagarde deu sinal. Subida dos juros em dezembro é provável

Tal como os analistas previam, o BCE decidiu nesta quinta-feira manter as taxas de juro de referência, com a taxa mais importante para a política monetária – a taxa dos depósitos – a permanecer nos 2,5% apesar das pressões inflacionistas que existem na zona euro, com origem no aumento dos preços da energia. Porém, Christine Lagarde confirmou, na conferência de imprensa, que foi “debatida” a possibilidade de uma subida dos juros já nesta reunião, mas optou-se por não o fazer.

O facto de a presidente ter dito explicitamente que o cenário de uma subida já foi discutido nesta reunião foi o sinal que bastou para levar os analistas a concordarem que é quase certa uma nova subida dos juros a 17 de dezembro, data da próxima reunião do BCE. Foi uma “surpresa” ouvir Lagarde dizer de forma tão clara que já está em cima da mesa uma possível subida, foi algo que demonstrou que a autoridade monetária já tem o dedo no gatilho, afirmaram os analistas do Commerzbank em nota de reação ao resultado desta reunião do BCE.

Países mais endividados vão enfrentar custos de financiamento mais elevados

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Os países com níveis elevados de dívida pública deverão enfrentar custos de financiamento mais altos nos próximos tempos, avisou Christine Lagarde, reforçando a importância de os governos manterem as contas públicas sob controlo, uma vez que o aumento dos juros da dívida pode agravar a despesa pública e reduzir a margem disponível para investir e responder a novas crises económicas.

“Os países com dívida elevada têm de incorporar nos seus planos de política orçamental o facto de as taxas de juro serem mais elevadas e de provavelmente se manterem mais elevadas durante algum tempo”, afirmou a francesa, evitando falar sobre o caso específico de França, seu país natal. Caso seja necessário, o BCE tem “instrumentos disponíveis para responder” à subida dos juros dos países, “caso a evolução dos mercados ameace a boa transmissão da nossa política monetária”.

Numa fase em que os Estados concorrem, até, com as emissões de dívida por parte das grandes multinacionais ligadas à inteligência artificial, a presidente do BCE sublinhou que a sustentabilidade da dívida pública se tornou determinante para preservar a confiança dos investidores e limitar a pressão sobre os orçamentos nacionais.

O risco que mais preocupa o BCE é que possa haver “efeitos de segunda ordem”, isto é, fenómenos em que a inflação nos preços da energia contagia outras áreas como as negociações salariais e as margens das empresas. Uma subida da taxa de juro, embora não possa fazer nada para alterar o enquadramento de preços elevados na energia, tentaria limitar a concessão de crédito e dar um sinal aos agentes económicos de que o BCE não irá permitir a formação de um novo surto inflacionista como aconteceu em 2022 e 2023.

“Estamos muito atentos e, neste momento, não estamos a ver mais riscos de efeitos de segunda ordem além daqueles que estão nas projeções”, afirmou Christine Lagarde. Porém, após a conferência de imprensa, a agência Bloomberg citou fontes de dentro da cúpula que confirmaram que, se as pressões inflacionistas não diminuírem, haverá, mesmo, uma subida dos juros, para 2,75%.

Para já, o facto de a inflação subjacente – que exclui os preços da energia – se manter relativamente estável (embora num nível um pouco elevado, em 2,5%) dá ao BCE alguma margem de manobra, permitindo esperar mais algum tempo até que, em dezembro, sejam divulgadas novas previsões atualizadas sobre a economia e a inflação.

A maior dúvida, nesta fase, é se essa provável subida dos juros em dezembro será a última deste ciclo ou se ainda haverá mais subidas no início do ano, atingindo os 3% (ou mais ainda). “Após dezembro, o cenário é menos previsível: um aumento para 3% ou mais exigiria, provavelmente, provas mais concretas de que o choque na oferta de energia se está a refletir na inflação subjacente”, afirma Ann-Katrin Petersen, uma das responsáveis da estratégia do BlackRock Investment Institute.

Na opinião de Bas van Geffen, analista do banco neerlandês Rabobank, o tom das declarações de Christine Lagarde mostra que, apesar da tentativa deliberada de sinalizar a possível subida dos juros em dezembro, “o BCE poderá estar mais preocupado do que deixa transparecer com o risco de apertar em demasia os juros“. E, por isso, na opinião deste e de vários outros analistas, a subida de dezembro deverá ser, “provavelmente, a última” deste ciclo.