“In Heaven
Everything is fine
In Heaven
Everything is fine”
A frase cantada no filme Eraserhead (1977) ecoa como elogio fúnebre a David Lynch, cineasta que filmou sonhos e mistérios que com ele agora partem sem desfecho. O artista plástico que se tornou cineasta, cuja visão distorcida do mundo influenciou muito além do grande ecrã, morreu esta quinta-feira. Tinha 78 anos.
Surrealista americano, construiu uma obra que nos convidava a explorar o estranho, o belo e o inquietante, sempre com a promessa de que, em algum lugar no mundo, “tudo está bem”. Mais do que uma série histórica (Twin Peaks) e vários filmes de culto (Mulholland Drive, Veludo Azul), no perecimento de David Lynch esfuma-se também algo que não descobrimos ainda.
“Há um grande buraco no mundo agora que ele já não está connosco. Mas, como ele diria, “Mantém os olhos no donut e não no buraco””. Está um dia lindo, com sol dourado e céu azul até ao fim.”
Foi assim que a família anunciou a morte do cineasta nas redes sociais esta quinta-feira, sem mais pormenores. Em 2024, Lynch anunciou que tinha desenvolvido um enfisema pulmonar após uma vida inteira entre cigarros. Em entrevista à revista Sight & Sound, descrevia que não podia ausentar-se de casa para filmar pois precisava de ter sempre uma garrafa de oxigénio por perto. Mas não se resignava. Não se aposentava. Filmaria à distância, prometia.
A publicação da família do realizador no Facebook, publicada esta quinta-feira
Filho de um cientista e de uma professora de inglês, David Keith Lynch (Montana, 1946) começou por se apaixonar pela pintura quando estudava artes na Pennsylvania Academy of the Fine Arts. Depressa se interessou por outras telas, intrigado pelas potencialidades do movimento e do som. A curta-metragem Six Men Getting Sick (Six Times) (1967), que incorpora elementos de pintura, escultura, filme, som e instalação, foi a porta de entrada para o cinema, e o despertar de uma curiosidade artística que desaguou no inquietante Eraserhead (1977), longa-metragem de estreia que no título em português resgata o verso supracitado: Eraserhead — No Céu Tudo é Perfeito. Filmado ao longo de cinco anos com um exíguo orçamento, a obra foi um marco no cinema experimental e uma antecâmara para o que viria a firmar-se como o estilo único de Lynch: uma mistura de surrealismo, horror psicológico e exploração da ansiedade humana. “Mesmo nas chamadas coisas sombrias há uma beleza”, havia de dizer ao jornalista britânico Matthew Sweet, em 2023.
Considerado pelo próprio Lynch como o mais espiritual dos seus filmes, Eraserhead tornou-se uma obra de culto e colocou o realizador no radar dos críticos e do público então dito alternativo. O caminho estava preparado para O Homem Elefante (1980), filme de sensibilidade única, sobre Joseph Merrick, monstruosidade que Lynch filmou com tal humanidade e ternura que tanto crítica como público aplaudiram. Oito nomeações atribuiu-lhe a Academia, incluindo nas categorias de Melhor Realizador e Melhor Filme.
Muito menos êxito teve com o projeto seguinte: a adaptação do romance de ficção científica de Frank Herbert, Dune. Com um orçamento de 40 milhões de dólares e três anos de rodagem, Duna (1984) foi um fracasso de bilheteira colossal. Mas Lynch redimiu-se com Blue Velvet — Veludo Azul (1986), somente dois anos depois. Ao revelar o abismo sombrio que se esconde sob a aparentemente perfeita vida suburbana americana — e uma inesquecível Isabela Rossellini —, o filme polarizou a crítica especializada (ainda assim, obteve nove nomeações aos Óscares), mas reforçou a reputação de David Lynch como um autor ousado e sem aversão ao risco. Foi, também, um filme importante por marcar o início da colaboração do cineasta com o compositor Angelo Badalamenti — uma das mais notáveis e frutíferas parcerias do cinema contemporâneo, com Badalamenti a traduzir a visão surrealista de Lynch numa dimensão sonora essencial para intensificar o impacto emocional e psicológico de todas as películas que se sucederam.
Seguiu-se Um Coração Selvagem, em 1990, um provocador roadmovie com Nicolas Cage e Laura Dern que é também uma reinterpretação soturna do clássico O Feiticeiro de Oz. Com muita revolta alheia, Cannes atribuiu-lhe o prémio máximo. Dito e feito, um ano depois, o realizador que saiu vitorioso do festival de cinema francês com a Palma de Ouro atinge o auge de popularidade, ao pôr o mundo inteiro a perguntar: “quem matou a Laura Palmer?”. David Lynch estava a meio da carreira cinematográfica quando se juntou a Mark Frost para levar a sua visão distorcida do mundo para o pequeno ecrã com Twin Peaks, série transmitida pela ABC em 1991 e 1992, que foi nada menos que uma revolução na caixinha mágica, antes sequer do streaming sonhar existir.
▲ David Lynch, quando venceu o prémio máximo em Cannes, em 1987
AFP via Getty Images
Criada por Lynch e Frost, Twin Peaks transformou a televisão que era feita até então, abrindo caminho para narrativas e diálogos mais complexos, e uma abordagem e ambição inéditas. A estética cinematográfica aplicada a formatos televisivos viria a influenciar séries como Os Sopranos, Lost ou Breaking Bad. A série continuou, primeiro com Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992), filme-prequela da série e, mais recentemente, com Twin Peaks: O Retorno (2017).
E tudo isto foi nos anos 1990, ainda antes daquela que é considerada a sua obra-prima, porventura a mais enigmática das películas, uma estrada que se perde na noite e que permanece como um marco do cinema moderno: Mulholland Drive (2001). Antes disso o realizador ainda faria Uma História Simples, em 1999, um retrato da viagem de um homem através do coração da América, mas uma carta fora do baralho numa filmografia assente — e feliz — em mais ambiguidade.
Voltando a Mulholland Drive (2001). É amplamente considerado uma das maiores obras do cinema contemporâneo, e chegou a ser considerado filme do século. Mas a reflexão lynchiana sobre a fábrica de sonhos que é Los Angeles não seria suficiente para valer uma estatueta dourada ao realizador. O derradeiro filme de seria Inland Empire (2006), mais uma obra experimental, um mergulho desconcertante nos labirintos da mente de Laura Dern como uma atriz cujas fronteiras entre vida pessoal e os papéis que interpreta começam a dissolver-se. Caótico, desafiador, Inland Empire rejeita qualquer explicação linear e abraça o mistério como sua essência, reforçando o atributo surrealista atribuído a Lynch — ou consolidando a sua reputação como um dos artistas mais visionários do seu tempo.
▲ Com Isabella Rossellini, durante uma entrevista de promoção do filme Veludo Azul (1986)
Corbis via Getty Images
Realizador: como os filmes, um enigma
“Ele explica, concretiza, e, todavia, as palavras não decifram nada”, escreve o crítico de cinema Jorge Leitão Ramos, quando entrevistou Lynch para o Expresso em 2007.
É que fora da fita, ou na “vida real”, como também se diz, David Lynch pouco revela sobre as suas obras. Cada entrevista sua é um vislumbre de uma possibilidade de descortinar aquilo que, no fundo, nunca poderia sê-lo. O realizador assumiu sempre uma postura esquiva sobre explicações sobre o seu cinema. Lynch “não estava interessado em respostas, porque compreendia que as perguntas são o motor que nos torna quem somos”, notou o protagonista de Twin Peaks, Kyle MacLachlan, na reação à morte do realizador.
De resto, Lynch foi muito mais do que cineasta, multiplicando-se como artista plástico, músico, fotógrafo, e, no campo das imagens em movimento, realizador de uma série de curtas experimentais, videoclipes, anúncios publicitários (de casas de moda como Gucci ou Yves Saint Laurent). Além de dez longas-metragens, assinou três álbuns a solo e sete discos em colaboração, além de mais de uma dezena de exposições — voltara a dedicar-se à pintura na última década. Artista total, os interesses de Lynch iam além da arte visual, do cinema, da televisão. Também se dedicou ao design de interiores, erguendo Silencio, um bar em Paris, França, inspirado no que retrata em Mulholland Drive.
Com o cabelo loiro grisalho cuidadosamente desarrumado, envergava camisa branca um blazer escuro, durante anos, qual uniforme. Sempre impecavelmente aprumado, mas com um ar de informalidade deliberada, David Lynch parecia incorporar uma dualidade: um equilíbrio entre o convencional e o estranho. Em entrevistas e aparições públicas, Lynch mantinha uma presença calma, quase enigmática, muitas vezes respondendo de forma sucinta ou filosófica, avesso a interpretações diretas dos seus filmes. Do sorriso sempre aberto saiam palavras contidas de uma voz grave combinada com um leve sotaque do Oeste. Eis o segredo para a aura única de um artista que, mesmo sob os holofotes, parecia sempre habitar um mundo próprio.
“Tal como Lynch nunca abraçou verdadeiramente Hollywood, também Hollywood nunca o abraçou verdadeiramente”, escreve o The New York Times, no obituário. Apesar de ter sido nomeado várias vezes para um Óscar, nunca o recebeu. Foi já como lenda que recebeu o desejado prémio — de caráter honorário, em 2020. Dois anos depois, vestiu a pele de outra lenda, John Ford, a pedido de Steven Spielberg (uma terceira?) para uma singela cena em Os Fabelmans (2022), indiscutivelmente o título mais hollywoodesco da página do IMDB de David Lynch.
David Lynch deixa alguns documentários para quem o queira ver escapulir-se com maestria de tentativas de lhe descortinar algo mais que a superfície: Pretty as a Picture: The Art of David Lynch (EUA, 1997), Lynch/Oz (2022), Lynch (2016), David Lynch – Meditation, Creativity, Peace (2012). É em David Lynch: A Vida de um Artista (2016), o documentário em que o realizador fala sobre a infância e adolescência, aquele que consegue, ainda assim, ser o mais revelador dos filmes que se lhe dedicam. O canal de Youtube que mantinha desde a pandemia do Covid-19 — onde, diariamente, de óculos escuros, diante do ecrã, informava a temperatura, em graus Celsius e Fahrenheit, na cidade de Los Angeles — também resulta um invulgar, mas importante repositório de documentos que ajudam a tentar compreender o universo lynchiano.
Por estes dias, também é possível fazê-lo nos cinemas Trindade, no Porto, Casa do Cinema, em Coimbra, e Nimas, em Lisboa. É que o ano cinematográfico começou com uma temporada dedicada ao autor. Com chancela da Nitrato Filmes, dá-se o acaso de podermos ver ou rever uma série de títulos: Eraserhead — No Céu Tudo é Perfeito (1977), O Homem Elefante (1980), Uma História Simples (1999), Mulholland Drive (2001) e Inland Empire (2006), até 26 de fevereiro. “Os Enigmas de David Lynch”, assim se chama o ciclo. Estão aí para ser decifrados.
“Acredito que a vida é um contínuo e ninguém morre realmente, apenas deixa o seu corpo físico e todos nos encontraremos de novo, como diz a canção”, disse o cineasta numa rara entrevista à BBC Radio, em 2023, referindo-se ao compositor Angelo Badalamenti, que falecera um ano antes. E continuava: “É triste mas não é devastador se pensarmos assim. Caso contrário, não percebo como é que alguém pode, depois de ver alguém morrer, pensar que essa pessoa desaparece para sempre e que é isso que todos estamos destinados a fazer. Lamento, mas não faz qualquer sentido. É um contínuo, e, no fim da história, vamos todos ficar bem.” Afinal, No céu — na história — tudo é perfeito.