Já se fala do sucesso de “Ainda Estou Aqui” desde a estreia no Festival de Veneza em setembro, mas a vitória histórica de Fernanda Torres nos Globos de Ouro colocou a atriz brasileira no centro dos holofotes. Na gala realizada a 6 de janeiro no luxuoso Beverly Hilton, a protagonista do premiado filme de Walter Salles apostou num vestido minimalista, discreto e elegante, que recebeu elogios na imprensa internacional. Contudo, o visual sóbrio é na verdade parte de uma estratégia focada na temporada de galardões, que tem como objetivo respeitar e prestar uma homenagem à história de Eunice Paiva.
A criação do designer belga Olivier Theyskens, adaptado para as medidas de Fernanda Torres, foi coordenado com joias do brasileiro Fernando Jorge. “Tenho que ser fiel à Eunice. Ela foi uma mulher discreta, estou ali para honrar sua história e representar o filme”, disse a atriz, em entrevista à revista Vogue. Um trabalho de “method dressing” realizado em parceria com o stylist Antonio Frajado, que colabora com a atriz há 15 anos. “Elas têm essa elegância, esse minimalismo, acho que minimalismo quase que também muito da Eunice, esse minimalismo emocional. A Fernanda tem uma personalidade mais expansiva, mas de alguma forma ela é muito reservada também. Tem ali uma coisa que é muito próxima da Eunice. Eu acho que elas são perfeitas uma para outra”, diz o profissional, em entrevista ao G1.
Preto nas red carpets
O preto é a cor de eleição, com alguns poucos visuais destoando da regra. Foi a escolha para uma aparição no programa de Jimmy Kimmel, na última quinta-feira, 16 de janeiro, em que usou um vestido Carolina Herrera. Também num dos eventos de cinema mais recentes, uma Q&A do filme na Curzon Mayfair, em Londres, em dezembro, onde apostou num conjunto de calça e camisola de cetim, de gola alta, assinado por Phoebe Philo. Ou ainda nos Governor Awards, em novembro, quando fez a conta de Instagram da Academia alcançar números impressionantes de interação com a fotografia em que surge num vestido da coleção de inverno da Dior com joias Fernando Jorge.
Nos eventos internacionais de outubro Fernanda Torres também escolheu looks sóbrios e pretos. Deu preferência a conjuntos de calça e camisa ou casaco — no Festival de Cinema de Londres usou um coordenado Bottega Veneta, em São Paulo apostou em calças pretas e camisa branca Max Mara e no Rio de Janeiro uma combinação Alexandre Herchcovitch.
Aliás, o designer brasileiro já veste a atriz há muitos anos. Foi o responsável pelo vestido da red carpet de Veneza, em setembro, a peça que Fernanda Torres levou para o evento que marcou a estreia internacional de “Ainda Estou Aqui”. Outro look preto da atriz em red carpets foi o vestido em cetim assinado pelo também brasileiro Reinaldo Lourenço, no Festival de Toronto, também em setembro.
Já as peças com cor também seguem um padrão sóbrio. Cortes clássicos e padrões com fundo escuro e mais conservadores foram as escolhas, como no vestido estilo casaco Bottega Veneta que levou ao New York Film Festival em setembro ou mais recentemente o clássico longo Chanel que usou para receber o prémio de melhor filme internacional no Palm Springs International Film Festival.
Estilo discreto e personalidade colorida
Apesar do preto representar também a dramaticidade da personagem, a verdade é que esta foi uma escolha de Fernanda Torres e Antonio Frajado que contraria o estilo pessoal de Eunice Paiva. “Eu até brinco que somos almas coloridas, porque a gente sabe rir, a gente tem humor, mas somos almas coloridas que só usam preto”, diz o stylist ao G1. A cor já faz parte do guarda-roupa da atriz, que costuma optar por visuais mais discretos e minimalistas em aparições públicas. Antes mesmo de começar a divulgação de “Ainda Estou Aqui”, quando participou em eventos e entrevistas sobre a série da GloboPlay “Fim”, ou a peça “A Casa dos Budas Ditosos”, adaptação do livro de João Ubaldo Ribeiro, Fernanda apostou em camisas pretas, com calça ou saia midi, por exemplo.
Se não está de preto, Fernanda escolhe visuais em tons sóbrios, como cinzas, castanhos ou beges, com poucos padrões ou misturas de cores, opções que contrastam com a personalidade irreverente e divertida da atriz. Mas o estilo atual é, na verdade, uma construção. Há 20 anos o trabalho em “Casa de Areia” levou Fernanda Torres a participar de uma temporada de prémios com algumas red carpets internacionais, e ao lado da mãe, Fernanda Montenegro, a atriz brasileira exibia um estilo bastante diferente do visto nos dias atuais. Quase sempre em visuais casuais, Fernanda optava por calças ou saias de ganga de cintura baixa com blazer ou camisa e colar comprido, itens que eram tendência nos anos 2000.
Getty Images
Em “Casa de Areia”, Fernanda faz uma personagem dramática, mas alguns dos seus papéis mais conhecidos no Brasil são cómicos, como Vani, da série “Os Normais” e Fátima, da sitcom “Tapas e Beijos”, ambas da Globo. Esta última apostava em visuais bem diferentes do que a atriz costuma usar atualmente na vida real. Ao lado de Andréa Beltrão, Fernanda Torres assumia o papel de uma vendedora de vestidos de noiva que usava padrões animais, cores fortes, cortes justos e muitos decotes.
Excessos que não combinam com o estilo pessoal da atriz, de acordo com o stylist que já a veste há 15 anos. Atenta à moda mas com gostos próprios, Fernanda veste marcas com as quais se identifica, como é o caso dos designs sofisticados mas subtis da italiana Bottega Veneta, ou da nova-iorquina Zero + Maria Cornejo, marca sustentável que já vestiu nomes como Tilda Swinson ou Michelle Obama. A parceria criativa com o criador brasileiro Alexandre Herchcovitch também já dura há mais tempo do que a atual temporada de troféus. Curiosamente as suas criações não são conhecidas por serem discretas: o designer já vestiu drag queens e a sua marca ficou famosa pela estética sadomasoquista, representada pelo uso de tecidos como látex, vinil e metais. Para Fernanda, dedicou peças clássicas, como o vestido preto, de decote reto e sem alças, que a atriz levou ao Festival de Veneza em setembro.