1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

“Este é também um legado de uma vida, de uma profissão, (…) é um momento muito especial”, disse a atriz Fernanda Torres ao jornal americano "New York Times"
i

▲“Este é também um legado de uma vida, de uma profissão, (…) é um momento muito especial”, disse a atriz Fernanda Torres ao jornal americano "New York Times"

▲“Este é também um legado de uma vida, de uma profissão, (…) é um momento muito especial”, disse a atriz Fernanda Torres ao jornal americano "New York Times"

"Ainda Estou Aqui": a memória de um país no filme que quer levar Fernanda Torres (e o Brasil) aos Óscares

O livro regressou à ditadura militar. O filme adaptou-o e fez-se sucesso imparável. Fernanda Torres venceu o Globo de Ouro e arrisca a nomeação em Hollywood. Estreia-se esta semana em Portugal.

Para Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui foi um ajuste de contas. Em parte com a infância, vivida no Brasil da ditadura militar e marcada pelo sequestro e assassinato do pai, o engenheiro e político Rubens Paiva, às mãos do exército; mas sobretudo com a mãe, Eunice, figura central na vida do escritor, que “atuou muito mais contra a ditadura” do que o marido, a quem o filho diz ter dado “uns quatro beijos na vida” e cujo fim de vida foi marcado pela batalha contra a doença de Alzheimer.

O livro autobiográfico foi o ponto de partida para o filme do mesmo nome, que chega esta semana às salas portuguesas e tem estado nas bocas do mundo à boleia dos elogios entregues à protagonista, Fernanda Torres, que interpreta Eunice Paiva, e da receção entusiástica no Brasil, onde os espectadores têm enchido as salas de cinema para conhecer a história dos “vencidos de 1970”, como descreve o autor de 65 anos (que é também co-argumentista do filme). “Estamos contando nossa versão dos factos e a juventude está tentando descobrir a história do país através disso”, diz.

O sucesso internacional de Ainda Estou Aqui tem também sido impulsionado pela época de prémios, altura normalmente reservada à produção da indústria norte-americana, que este ano tem no filme de Walter Salles uma espécie de “convidado especial”. A nomeação para Melhor Filme Internacional é quase certa e Fernanda Torres, filha da única atriz brasileira nomeada para um Óscar, pode também estar a caminho dos prémios da Academia de Hollywood, possibilidade que ganhou força após a vitória nos Globos de Ouro.

[o trailer de “Ainda Estou Aqui”:]

Com efeito, é em torno da atriz brasileira que gira Ainda Estou Aqui. O filme retrata a luta de décadas de Eunice Paiva para ver reconhecido pelo poder político o sequestro, tortura e morte do marido às mãos do Estado brasileiro. Uma realidade que Torres, de 59 anos, ainda recorda. “A minha casa era exatamente assim”, contou numa sessão especial nos Estados Unidos, recordando a repressão das autoridades e a censura de que os pais, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, eram alvo no teatro do Rio de Janeiro. “A Daniela Thomas [produtora do filme], o pai dela é um cartoonista muito famoso. Ele foi levado, tal como Rubens, por três meses. Todos estavam a ser levados, todos estavam aterrorizados”.

Já para Walter Salles, o projeto tem uma dimensão assumidamente pessoal. “Quando tinha 13 anos, tornei-me amigo dos cinco filhos da família e fiquei completamente apaixonado”, revelou o cineasta brasileiro, para quem era “urgente” contar esta história antes que fosse esquecida. “A história pessoal da família Paiva é a história coletiva de um país”, diz.

Eunice Paiva e a resistência de um país

Contar a história de Eunice foi desde o início um ato de memória. Partiu, com efeito, de uma necessidade de imortalizar o seu percurso, marcado (além da luta pessoal e de família) por décadas de ativismo pelos direitos humanos e das comunidades indígenas do Brasil. “Ela era a porta-voz da família, sabia os detalhes, tinha uma inteligência afetiva muito superior a todos nós. Cheguei a comentar com ela sobre o livro, no fundo acho até que ela sabe… Mas hoje são muito poucos os momentos de lucidez”, dizia o autor em 2015, por ocasião do lançamento do livro (Eunice viria a morrer três anos depois, aos 89 anos).

À escrita do livro correspondeu ainda um outro confronto com o passado, com a criação pela então-Presidente Dilma Rousseff da Comissão Nacional da Verdade, com o objetivo de elaborar um relatório acerca dos crimes cometidos pelo regime militar. Publicado em 2014, o documento nomeou Rubens Paiva (pai) como uma das 434 pessoas mortas ou desaparecidas, vítimas das ações militares. Uma ironia dramática que não deixou de ser reconhecida pelo autor, como o próprio reconheceu à revista TIME: “Apercebi-me de que a minha mãe estava a perder a memória ao mesmo tempo que o Brasil discutia a sua própria memória”.

▲ “No princípio, achei que íamos oferecer um reflexo do passado para entender onde estamos”, refletiu Walter Salles. “Mas rapidamente se tornou claro que o filme era também sobre o presente"

Esse contexto é fulcral para entender a história, como explicou à mesma publicação o realizador de Ainda Não Estou Aqui. “A Eunice, ao longo da vida, reconstruiu a memória daquela família quebrada ao mesmo tempo que o país estava a tentar recuperar a sua própria memória da idade negra rumo à democracia para a qual estávamos a apontar. Então a jornada pessoal e a jornada coletiva de todo o país estão, nesta história, de algum modo superimpostas”.

No decurso do filme, vários momentos reforçam esses ecos de memória. Desde a casa no Leblon, Rio de Janeiro, que Salles descreve como “uma personagem fulcral”, ao momento em que uma das filhas de Rubens Paiva veste a camisa do pai, ou em que Eunice descobre o seu último fósforo de cigarro, Não Estou Aqui vai construindo aos poucos uma noção de que nunca ninguém realmente desaparece — e de que essas ações constituem em si mesmos pequenos atos de resistência.

O sucesso doméstico de “um filme sobre o presente”

A obra teve honras de estreia em competição no último festival de Veneza, onde foi aclamado pela crítica e venceu o prémio de Melhor Argumento. No Brasil, a receção foi ainda melhor do que os seus criadores estavam à espera. “Todos se sentiram tocados por esta família… da esquerda, à direita e ao centro, ninguém nos atacou”, disse Fernanda Torres. O sucesso foi de tal ordem que Ainda Estou Aqui se tornou no filme mais rentável da carreira de Walter Salles, com 3 milhões de espetadores e quase 70 milhões de reais (cerca de 10 milhões de euros) de bilheteira doméstica. “Estamos um bocado embasbacados”, confessou Salles, “porque colocámos um filme da Marvel em segundo lugar”.

Parte deste sucesso, acreditam, prende-se com a atualidade política do país. Isto porque a estreia doméstica do filme coincidiu com um relatório da polícia federal brasileira dando conta de uma tentativa de golpe por parte de aliados de Jair Bolsonaro para manter o ex-Presidente e admirador confesso da ditadura militar no poder após a derrota eleitoral para Lula da Silva em 2022 (que terá falhado por recusa de altos comandos militares brasileiros).

▲ A capa de "Ainda Estou Aqui", o livro de Marcelo Rubens Paiva que deu origem ao filme de Walter Salles. A edição é da Dom Quixote e chega às livrarias esta quarta-feira, 14 de janeiro

Foi um balão de oxigénio que, indiretamente, terá ajudado o filme, como reconhecem os seus principais criativos. “No princípio desta jornada, achei que íamos oferecer um reflexo do passado para melhor entender onde estamos”, refletiu Walter Salles. “Mas rapidamente se tornou claro que o filme era também sobre o presente”. Ideia partilhada também por Fernanda Torres. “Estivemos no precipício de algo feito por pessoas que admiram a ditadura e vêm dos anos 70 (…) Não só no Brasil, como no mundo, muita gente acha que a ditadura não foi assim tão má, que as torturas se calhar não existiram, que o problema é a democracia”. O autor e argumentista da obra resume: “O timing, infelizmente, foi perfeito, porque nos mostrou que esta não é só uma história do nosso passado”.

[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

O sucesso de Ainda Estou Aqui reflete-se também nas redes sociais, onde filhos e netos de prisioneiros políticos têm, em comunhão com a história da família Paiva, partilhado as suas próprias histórias, fotografias e vídeos do período que relatam a repressão militar. E, na vida real, a campa de Eunice em São Paulo transformou-se em local de culto, com vários admiradores a prestar a sua homenagem.

Para Walter Salles, a resposta positiva é acima de tudo uma prova do poder do cinema enquanto “máquina de empatia”. “As pessoas estão a ir ao cinema outra vez e a ter uma experiência coletiva. Estão a ficar até ao fim dos créditos e a escrever nas redes sociais sobre a experiência que tiveram na sala onde viram [o filme] (…) Tornou-se uma espécie de fenómeno cultural, sociológico e político. Não podíamos ter antecipado isto. E faz-me pensar em como a literatura, o cinema, a música, podem ser instrumentos incríveis contra o esquecimento”, afirmou o cineasta.

A corrida aos Óscares e “um legado” familiar

De voz visivelmente emocionada, Fernanda Torres dedicou o Globo de Ouro a uma pessoa em particular. “A minha mãe esteve aqui, há 25 anos… isto é uma prova de que a arte consegue persistir durante a vida”, disse a atriz brasileira no palco do hotel Beverly Hilton, ao qual subiu após ser anunciada como vencedora do prémio de Melhor Atriz Principal (Drama), categoria em que competia com pesos pesados de Hollywood, como Nicole Kidman, Kate Winslet e Angelina Jolie.

▲ Selton Mello interpreta Rubens Paiva e Fernanda Torres é Eunice Paiva, que durante décadas procurou ver reconhecido pelo poder político o sequestro, tortura e morte do marido pelo do Estado brasileiro

A vitória — para muitos uma das grandes surpresas da noite — foi recebida em festa no Brasil, quase como se de uma “primeira batalha ganha” se tratasse. Isto porque nos últimos meses e à medida que fora de portas se iam reconhecendo os melhores filmes e atuações internacionais do ano, um clima de apoio no país de origem de Ainda Estou Aqui originou uma autêntica campanha de massas nas redes sociais, com milhares de brasileiros a mobilizarem-se em torno de um sonho impossível: levar Fernanda Torres aos Óscares de Hollywood.

Desde partilhas de conteúdos alusivos ao filme e à sua protagonista, passando por vídeos em plataformas como o Instagram e o TikTok apelando ao voto dos membros da Academia em Torres, e sobretudo centenas de milhares de comentários em publicações de meios internacionais, para os internautas brasileiros tudo vale para chamar a atenção e catapultar a atriz de 59 anos. A própria Fernanda Torres inclusive apelou à mobilização, através de mensagens nas suas páginas pessoais. “O amor dos brasileiros nos impulsiona pelo mundo”, afirmou.

Subjacente a esta ação organizada está uma ideia de “reparação histórica”: há precisamente um quarto de século, Fernanda Montenegro, “grande dama” do cinema brasileiro e mãe de Fernanda Torres, tornou-se na primeira atriz brasileira indicada para os principais prémios da indústria cinematográfica mundial pelo seu papel em Central do Brasil, também de Walter Salles. Então com 70 anos, Montenegro acabaria por perder o Óscar de Melhor de Atriz para uma então em ascensão Gwyneth Paltrow, cuja vitória por A Paixão de Shakespeare veio, nos anos seguintes, a ficar manchada devido à agressiva campanha de bastidores montada pelo seu produtor, Harvey Weinstein (sobretudo após a queda deste último no seguimento das acusações do movimento #MeToo). A crítica de cinema Isabela Boscov resume: “Houve um sentimento no país de que ela foi profundamente injustiçada”.

GettyImages-2192060774

▲ O realizador Walter Salles e a atriz Fernanda Torres, após a vitória na categoria Melhor Atriz, nos Globos de Ouro

Penske Media via Getty Images

Mais de duas décadas depois, a possível nomeação de Fernanda Torres surge como uma segunda oportunidade para o cinema brasileiro fazer história. Com a vitória nos Globos de Ouro, aquilo que parecia uma possibilidade remota ganhou contornos de realismo. E a sua agenda, já exigente até aqui, aumentou de forma exponencial. “Estou dentro do carro a caminho de Palm Springs. Os próximos passos são loucura (…) Depois da premiação, outras coisas vão chegando. Então, eu estou lidando de forma zen. Acordo, e pergunto: ‘o que eu tenho hoje?’ Eu dou conta do dia”, disse ao Globo a atriz, para quem seguir as pisadas da mãe e conseguir a nomeação seria já em si “uma grande vitória”.

Não é só a filha que reconhece a importância do momento. Aos 95 anos, Fernanda Montenegro, que continua no ativo, tem feito campanha com Torres. “Este é também um legado de uma vida, de uma profissão, (…) é um momento muito especial”, referiu ao New York Times, numa reportagem onde mãe e filha são retratadas lado a lado, duas faces de um mesmo rosto e de um orgulho nacional, mas também familiar. Elo que, aliás, é tornado explícito no próprio filme, onde Montenegro tem uma pequena participação no epílogo, um salto temporal onde interpreta a versão mais velha de Eunice Paiva, já em fim de vida. Walter Salles não esconde a intencionalidade do casting: “Temos direito a sonhar, às vezes”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.