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"The Fall of Diddy": a história continua por contar

Este artigo tem mais de 1 ano

A nova minissérie documental em 4 episódios, disponível na Max (e brevemente no canal ID), reúne dezenas de entrevistados, mas deixa a linha do tempo incompleta em diversas ocasiões.

Os vários intervenientes neste documentário não têm dúvidas sobre o carácter abusivo e verbalmente agressivo do músico e empresário
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▲Os vários intervenientes neste documentário não têm dúvidas sobre o carácter abusivo e verbalmente agressivo do músico e empresário

▲Os vários intervenientes neste documentário não têm dúvidas sobre o carácter abusivo e verbalmente agressivo do músico e empresário

Os adjetivos amontoam-se ao longo de quatro episódios: “poderoso, assustador, intocável, bully de fato, monstro”. Todos são dirigidos a Diddy (ou Sean Combs, ou Puff Daddy, ou P. Diddy, é escolher) e são usados pelos vários entrevistados de The Fall of Diddy, cujos quatro episódios já estão disponíveis na plataforma de streaming Max e, a 9 de fevereiro, chegam ao ID, às 22h.

O rapper foi detido em setembro de 2024, sem direito a caução e, desde então, já lhe foi negada três vezes uma libertação sob fiança. Em causa estão crimes de abuso sexual, tráfico sexual e extorsão. O julgamento deverá começar a 5 de maio. Continua a declarar-se inocente e a negar todas as acusações que lhe são feitas (e são tantas que pode nunca mais sair da prisão).

A sua ascensão e queda é contada, nesta série documental, por personalidades como a editora chefe da revista VIBE, Danyel Smith; Rodney “Lil Rod” Jones, produtor que trabalhou com Diddy e o processou por agressão sexual; Thalia Graves, que o acusa de violação; Kat Pasion, que relata um episódio de sexo não consentido; ou Wardel Fenderson, o condutor que garante ter visto Diddy com uma arma na noite do tiroteio na discoteca e que terá sido coagido a dizer que a arma era dele — acabaria por mudar o seu depoimento em tribunal, mas Diddy não seria condenado mesmo assim.

[o trailer de “The Fall of Diddy”:]

De resto, há sobretudo testemunhos de colaboradores, conhecidos ou amigos que se cruzaram com ele em certos períodos, como o guarda-costas, a chef ou um amigo de infância. Os vários intervenientes neste documentário não têm dúvidas sobre o carácter abusivo e verbalmente agressivo do músico e empresário, mas há depoimentos incluídos nos episódios que parecem servir o propósito de aumentar o número de pessoas entrevistadas e não a quantidade de coisas que têm para contar — e que vêm juntar-se a produções que já foram estreadas e outras que estão a caminho.

Histórias isoladas, como uma alegada perseguição de carro, dão cinco minutos de tempo de antena ao homem envolvido e nada mais. “Podia já não estar aqui hoje.” Não desvalorizando o acontecimento, que serve como mais uma peça que demonstra o caráter de Diddy, está longe dos atos mais aterradores que lhe são apontados.

O primeiro episódio regressa aonde tudo começou, o Harlem, Nova Iorque (EUA). Foi aí que Diddy, ou Sean Combs, nasceu a 4 de novembro de 1969. Pouco depois da morte do pai — que só descobriu muitos anos depois estar ligada ao tráfico de droga —, mudou-se com a mãe para um bairro melhor, em Mount Vernon, onde cresceu. Frequentou a faculdade de Howard durante dois anos e já aí há relatos de ter um comportamento abusivo. Uma aluna dessa época recorda uma agressão que terá testemunhado, com Diddy a chicotear uma rapariga com um cinto. Ninguém disse nada.

Daí Diddy seguiu para um estágio na produtora Uptown. Visto por todos como um visionário, revolucionou o mundo do hip hop, impulsionou a carreira de artistas como Mary J. Blige e lançou outros nomes. Com pouco mais de 20 anos era um milionário e um respeitado produtor e promotor de eventos. Foi por isso que, em dezembro de 1991, um evento de basquetebol no City College foi amplamente cobiçado. Porém, no meio da confusão para entrar, com portas trancadas no ginásio e pânico instalado, acabaram por morrer nove pessoas esmagadas e espezinhadas. A Diddy, responsável pela organização, nada aconteceu, continuando a sua caminhada para a expansão dos seus negócios (com uma produtora própria, a Bad Boy; marcas de roupa e de bebidas).

▲ São várias as entrevistas que compõem a narrativa dos quatro episódios de "The Fall pf Diddy"

O temperamento volátil do ainda Puff Daddy, que “sempre perdeu a cabeça facilmente”, era conhecido por todos. No entanto, tudo aquilo em que tocava era um sucesso e o poder que surgiu com a sua ascensão permitiu que pudesse calar qualquer pessoa que ameaçasse fazer-lhe frente.

As suas festas brancas (pela roupa e pelas drogas) tornaram-se conhecidas, com inúmeras estrelas da música e do cinema a marcarem presença — além de mulheres nuas estendidas em cima de mesas, imóveis e objetificadas, servindo de base para o catering para os convidados.

Misa Hylton, uma maquilhadora com quem teve o primeiro filho, foi agredida e chamou a polícia. Nada aconteceu. Steve Stoute, um executivo da indústria musical, foi agredido por Puff Daddy. Nada aconteceu. Em 1999, numa discoteca onde esteve com Jennifer Lopez (namorada nessa altura), três pessoas ficaram feridas e uma garante ter sido baleada por Puff Daddy. Nada aconteceu. Natania Griffin, que depôs em tribunal, saiu de lá sem justiça e acabou ameaçada de morte e achincalhada.

Foi nessa altura que Puff Daddy deu lugar a P. Diddy (posteriormente apenas Diddy). Com o objetivo de reformular a sua imagem, fez um programa de televisão, correu uma maratona de forma solidária e associou-se à campanha de Barack Obama para as presidenciais de 2004. Porém, nos bastidores nada mudou.

Kat Pasion, que terá começado a encontrar-se com com Diddy pouco depois da morte de Kim Porter, em 2018 — cuja relação que deu origem a quatro dos seus sete filhos, é estranhamente pouco ou nada abordada —, recorda uma frase que o rapper terá pronunciado quando ambos assistiram ao documentário sobre R. Kelly (a cumprir uma pena de 31 anos por abusos sexuais de menores): “Há um pouco de R. Kelly em todos nós

Danyel Smith diz ter sido ameaçada por Diddy em 1997, quando rejeitou mostrar-lhe a capa da revista VIBE para aprovação dele. “Vais acabar morta numa bagageira”, terá dito o cantor. Thalia Graves, que acusa o rapper de violação (que terá, inclusive, sido filmada), surge no final do segundo episódio, como se fosse um teaser, reaparecendo só no final do terceiro capítulo.

Um detalhe é comum a todos os entrevistados: o medo de represálias. Quem não fez queixa do que viveu ou do que viu garante que ficou em silêncio por saber que Diddy era tão poderoso que, primeiro, nada lhe aconteceria e, segundo, que as carreiras ou vidas dos denunciantes seriam destruídas. Para o caso de não estar claro à partida, havia telefonemas com ameaças, tanto feitas pelos assistentes, como pelo próprio Diddy.

▲ A aguardar julgamento no Metropolitan Detention Center, em Brooklyn, Diddy deverá apresentar-se em tribunal em maio deste ano

Rodney “Lil Rod” Jones foi dos poucos a avançar para tribunal. Primeiro explica que Diddy se recusou a pagar-lhe pela produção do The Love Album — e que até hoje não recebeu nada — e depois diz que o produtor começou a exibir-se nu, chegando a tomar banho à frente dele e a tocar-lhe nos genitais sem consentimento. Ao fazer queixa a um dos chefes de pessoal, terá recebido como resposta: “É só a forma de ele mostrar afeto”.

No processo judicial que Lil Rod iniciou em 2024, acusa Diddy de assédio, tráfico sexual e ainda de o ter drogado e agredido sexualmente.

A escolha da linha temporal nem sempre é a mais acertada e, não menosprezando as vivências de cada entrevistado, The Fall of Diddy parece não ter conseguido agarrar os principais protagonistas deste caso — os advogados de defesa remeteram-se a um comunicado onde negam todas as acusações, há um amigo de infância pouco relevante, e a mulher que começou a bola de neve que levou à detenção de Diddy tem como ligação mais próxima a dar a cara uma maquilhadora que a ajudou depois de uma agressão e do motorista que a deixou num hotel depois de outro episódio.

Parece óbvio que Cassie, cantora que manteve uma relação com Diddy de cerca de dez anos, não queira dar entrevistas nesta fase, com o processo ainda a decorrer em tribunal e depois de um vídeo chocante em que o produtor a arrasta pelos cabelos nos corredores de um hotel ter circulado pelo mundo todo. Porém, até em relação a isso, a história fica pendurada. Não é mencionado em que ponto está a investigação, não são mencionadas as várias acusações de violação de menores que entretanto se juntaram ao caso.

A aguardar julgamento no Metropolitan Detention Center, em Brooklyn, Diddy deverá apresentar-se em tribunal em maio deste ano. A história está longe de estar terminada e, apesar de The Fall of Diddy fazer um resumo do caminho de Sean Combs desde o Harlem à prisão, passando por uma carreira milionária e meteórica, parece um primeiro rascunho daquilo que podia ser uma série bem documentada e montada.

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