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Mais duas alegadas vítimas, os funcionários ameaçados e as acusações dos advogados: o que revela o novo documentário sobre Diddy

Filme que a plataforma de streaming Peacock estreou esta terça-feira revela acusações de violação e violência. Sean Combs continua preso, a aguardar julgamento.

Enquanto permanece na prisão a aguardar pelo julgamento, previsto para maio, as alegações em torno dos crimes de que é acusado Sean “Diddy” Combs não param de aumentar. Esta terça-feira, 14 de janeiro, estreou-se nos EUA o documentário intitulado Diddy: The Making of a Bad Boy, da plataforma de streaming Peacock (não disponível em Portugal), que traz outros casos à superfície.

Desde que a ex-namorada Cassie Ventura apresentou um processo judicial em novembro de 2023, acusando Diddy de uma série de abusos, dezenas de outras pessoas chegaram-se à frente com diferentes acusações, muitas das quais têm resultado noutros processos judiciais. Sean Combs está acusado de tráfico sexual, extorsão e outros crimes.

Alegadamente, terá usado o poder e prestígio que acumulou ao longo de décadas na indústria do entretenimento para induzir mulheres e homens — sob efeito de drogas — a realizarem performances sexuais, chamadas de “Freak Offs”. Combs, de 55 anos, continua a assumir-se inocente desde que foi detido, em setembro. A acusação do Ministério Público alega que o magnata da música coagiu e abusou de mulheres durante anos, com a ajuda de uma rede de associados e funcionários, enquanto usava chantagem e atos violentos, incluindo raptos, incêndios criminosos e espancamentos físicos, para impedir as vítimas de se manifestarem.

Neste novo documentário, uma série de pessoas que conheceram e conviveram com Diddy ao longo dos anos são entrevistadas. É o caso do seu antigo guarda-costas, de um ex-funcionário da editora Bad Boy, da sua maquilhadora e de um amigo de infância, entre outros.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, que assistiu ao documentário, Diddy: The Making of a Bad Boy tenta demonstrar como foi o ambiente à volta da infância de Sean Combs que terá levado à formação da sua personalidade. Nascido no Harlem, em Nova Iorque, em 1969, cresceu na cidade de Mount Vernon, no mesmo estado norte-americano. A mãe fora modelo e assistente de professora, enquanto o pai tinha servido na força aérea e era um conhecido associado de Frank Lucas, reputado traficante de droga da cidade. Melvin Earl Combs, o pai de Diddy, foi morto quando tinha apenas 33 anos, alvejado enquanto estava no carro. Sean Combs tinha apenas dois anos.

[o trailer do documentário “Diddy: The Making of a Bad Boy”:]

Um amigo de infância, Tim Patterson, recorda neste novo documentário como Sean Combs era vítima de bullying na juventude. Por outro lado, fala das festas que a mãe, Janice Combs, organizava em casa e que evocam as agora famosas festas promovidas por Diddy, nas quais alegadamente se passaram muitas das histórias de abusos.

“Durante a noite, não era estranho entrares por engano num dos quartos e encontravas lá um casal todo nu”, diz Tim Patterson, alegando que as festas ilícitas eram frequentadas por pessoas ligadas ao tráfico de droga e à prostituição, e que também eram momentos de consumo. “Era essa a realidade que nos era dada. Estaria a tirar-nos a sensibilidade? Tenho a certeza disso. Estávamos conscientes disso? Não. Era apenas um sábado à noite.”

Uma das entrevistadas é a psicanalista Carolyn West, cuja principal função ao longo dos 90 minutos de filme é estabelecer uma ligação entre as vivências de infância de Sean Combs, os traumas de juventude e os alegados atos de horror cometidos ao longo de décadas. Segundo o jornal britânico, a produção tenta traçar como é que um “menino mimado da mamã” se tornou num “gangster com o seu próprio nome de rua”.

Foi nos seus tempos de faculdade, no início dos anos 90, que Sean Combs se tornou conhecido por organizar grandes festas. Em 1991, o seu nome estava pela primeira vez envolvido num escândalo relacionado com uma tragédia. Puff Daddy, como era conhecido na altura, havia promovido um jogo solidário de basquetebol no City College of New York com a presença do rapper Heavy D. Sobrelotado, o evento acabou por se revelar trágico — nove pessoas morreram, num recinto com capacidade para 2730 pessoas que estava a albergar perto de cinco mil. Embora tenham existido diversos processos judiciais, não houve quaisquer condenações.

Um dos novos casos divulgados neste documentário é o de uma mulher que acusa Sean Combs de violação em 2018. Ashley Parham terá sido apresentada ao produtor e empresário através de um homem que ambos conheciam. Um mês depois de ter estado com ele pela primeira vez, voltou a encontrá-lo no apartamento deste amigo em comum, que a alegada vítima mais tarde percebeu ser uma espécie de “recrutador” para Diddy.

O caso ficou resolvido fora dos tribunais. O novo documentário inclui depoimentos de dois familiares de vítimas que recordam o incidente e que explicam que receberam indemnizações entre os 40 e os 50 mil dólares, valores reduzidos para o império milionário que Sean Combs iria construir pouco tempo depois.

“A sua imagem é importante para ele”, diz Jason Swain, que perdeu o irmão naquela tragédia. “As mentiras remontam à universidade. Se alguém o tivesse considerado responsável, poderia ter desacelerado o processo de todas as outras coisas que aconteceram às outras pessoas.”

Um dos novos casos divulgados neste documentário é o de uma mulher que acusa Sean Combs de violação em 2018. Ashley Parham terá sido apresentada ao produtor e empresário através de um homem que ambos conheciam. Um mês depois de ter estado com ele pela primeira vez, voltou a encontrá-lo no apartamento deste amigo em comum, que a alegada vítima mais tarde percebeu ser uma espécie de “recrutador” para Diddy.

Os sucessos, as polémicas, as acusações e a prisão: ascensão e queda de um magnata chamado Sean “Diddy” Combs

Segundo Ashley Parham, Combs ameaçou-a com uma faca e acabou por violá-la com um comando de televisão, em conjunto com amigos. Ashley Parham terá sido ameaçada por Combs através da sua chefe de pessoal, Kristina Khorram, que alegadamente lhe disse que ela poderia ser enviada para qualquer sítio do mundo e que nunca mais veria a família. Desde então, a alegada vítima levou uma vida de “extraordinária reclusão”. “Não confio em ninguém.”

Porém, o principal caso abordado em Diddy: The Making of a Bad Boy é o de Kim Porter, uma namorada que Sean Combs teve e que morreu em 2018, vítima de pneumonia. São vários os relatos ao longo do filme que a descrevem como alvo de violência doméstica. Está neste documentário o primeiro testemunho do músico Al B. Sure! sobre o escândalo de Diddy. Ex-companheiro de Kim Porter e pai do seu filho, o artista alega mesmo que Diddy poderá estar relacionado com a morte da ex-namorada — embora o documentário também afirme, citando a polícia e os profissionais médicos envolvidos no caso, e alguns familiares, que nunca foram encontradas provas de que a morte de Porter tenha sido provocada por “causas não naturais”.

▲ Um antigo funcionário da editora Bad Boy, que preferiu permanecer anónimo por medo de represálias, descreveu Sean Combs como “muito violento” e diz que este o ameaçou para que nunca deixasse a empresa

Os abusos durante a relação, porém, são alegados por diferentes depoimentos. O antigo guarda-costas de Diddy, Gene Deal, que trabalhou com o músico e empresário de 1991 a 2005, sugere que o seu antigo patrão tenha sido violento para com Kim Porter durante o tempo que estiveram juntos, recordando um episódio em que foi mesmo com a alegada vítima ao hospital. “Ela parecia estar com hematomas e coisas do género, mas não disse praticamente nada. Ele brincava demasiado”, afirma durante a entrevista. Outras pessoas, como a jornalista Kim Osorio e um advogado de uma das alegadas vítimas de Combs, dizem conhecer relatos de atos de violência de Diddy contra Kim Porter.

Existem outras mortes que alguns destes testemunhos associam aos atos de Diddy. O músico Al B. Sure! alega que o magnata do hip hop é o responsável pelas mortes de Heavy D e Andre Harrell, co-fundadores da editora Uptown Records, a primeira em que Diddy trabalhou, embora não haja quaisquer provas, até porque ambas as mortes foram justificadas com razões médicas.

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O antigo guarda-costas, Gene Deal, fala do muito mediático caso do assassinato de Notorious B.I.G., colaborador próximo de Diddy, que era agente do rapper. Sean Combs sempre negou os rumores de que tivera alguma coisa a ver com o famoso homicídio decorrido a 9 de março de 1997. Gene Deal recorda que, com base em informação obtida naquele momento, tinha avisado Sean Combs que alguém iria morrer naquela noite antes de irem à festa da revista Vibe em Los Angeles. Combs terá desvalorizado a informação. Quando questionado sobre se acredita se o seu antigo patrão poderá ter estado envolvido na morte do rapper, Deal respondeu: “Se ele esteve diretamente envolvido naquilo? Pode ter estado”.

Outra das histórias está relacionada com o programa de televisão Making the Band 2, da MTV. Sara Rivers, que trabalhou na produção entre 2002 e 2004, diz que o comportamento de Diddy era chocante, pela forma como tratava os seus colegas de banda.

“Quando ele se zangava com um dos meus membros da banda, dizia: ‘Deixas-me tão irritado que quero comer a tua carne’. E depois disse a outro: ‘Estás a revirar os olhos, posso ir pagar 20 dólares a um drogado para te partir todo’. Quem é que diz isto? É insano”, alega Sara Rivers no documentário, que também diz ter sido assediada pelo músico num momento em que estiveram sozinhos. “Ele tocou-me num sítio que não deveria ter tocado. Era inapropriado. Senti-me intimidada, ‘meu Deus, o que é que acabou de acontecer?’ Isto esteve 20 anos na minha cabeça”, diz.

“É desapontante ver a NBC e a Peacock a rebolar na mesma lama dos repórteres dos tabloides sem ética. Ao proporcionar uma plataforma para mentirosos comprovados e oportunistas fazerem acusações criminosas falsas, este documentário é jornalismo irresponsável do pior género”, acrescenta o comunicado dos representantes de Diddy.

Um antigo funcionário da editora Bad Boy, que preferiu permanecer anónimo por medo de represálias, descreveu Sean Combs como “muito violento” e diz que este o ameaçou para que nunca deixasse a empresa. Tendo-o conhecido entre 2015 e 2016, diz que muitas das suas “missões” escapavam às suas obrigações profissionais e que por vezes incluíam recrutar raparigas menores para as tais festas “Freak-off”.

“Sempre que o estúdio ou qualquer quarto estava com luz vermelha, é porque ele estava numa de fazer sexo”, explicou o antigo funcionário. “Houve uma vez que ele olhou para duas raparigas, piscou-lhes o olho e disse: ‘venham aqui’. Foi para o quarto com elas e só saiu passado 24 horas. De certeza que elas eram menores.”

Os representantes de Sean “Diddy” Combs reagiram à estreia deste documentário, voltando a negar todas as acusações de que o músico e empresário tem sido alvo. “Este documentário recicla e perpetua as mesmas mentiras e teorias da conspiração que têm sido arremessadas contra o senhor Combs durante meses”, pode ler-se numa declaração oficial citada pela imprensa norte-americana.

“É desapontante ver a NBC e a Peacock a rebolar na mesma lama dos repórteres dos tabloides sem ética. Ao proporcionar uma plataforma para mentirosos comprovados e oportunistas fazerem acusações criminosas falsas, este documentário é jornalismo irresponsável do pior género”, acrescenta o comunicado.

Esta é apenas uma de várias produções focadas no escândalo em torno do magnata do hip hop. No ano passado, a plataforma TMZ estreou o documentário de três partes The Downfall. A Max prepara-se para lançar, a 27 de janeiro, uma série de quatro episódios produzidos pela ID. Ainda sem data prevista, a Netflix vai estrear Diddy Do It, uma produção que foi anunciada e será produzida por 50 Cent, rapper muito ligado à indústria cinematográfica e que tem uma conhecida discórdia com Diddy há largos anos.

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