Antigo ministro da cultura francês, Frédéric Mitterrand consagrou-a como “símbolo do chique”. Cidadã do mundo, Doris Brynner cedo conquistou pelo sentido de moda e beleza, em particular na capital francesa, onde se movimentou especialmente durante a era dourada dos 60’s. Foi o arquiteto Peter Marino (que redesenhara a flagship do emblema em 1997) que a apresentou a Bernard Arnault, o patriarca do grupo LVMH, que a trouxe para o universo Dior. Brynner, que já trabalhara na Pierre Cardin, Chanel e Valentino, ficou ao leme do departamento de homewear e mobiliário da maison francesa, um bastião de bom gosto a partir do número 30 da Avenue Montaigne, onde se manteve algumas décadas. Morreu este sábado, aos 93 anos, em Lausanne, na Suíça, depois de uma “curta doença”, segundo confirmou à imprensa a sua filha Victoria.

Amiga íntima, e vizinha na Suíça, da atriz Haudrey Hepburn, ao longo dos anos foi possível vê-la ao lado de Farah Diba, na década de 60, ou entre Alain Delon, Marella Agnelli, Pierre Bergé, Lee Radziwill, Jacques Grange, e ainda uma jovem princesa. Marie-Chantal da Grécia recorda-se de ter apenas oito anos quando conheceu Doris nos Alpes suíços, quando esta, já divorciada, se instalou no destino de Morges. “Tinha uma pequena loja em Morges e Gstaad, chamada The Veranda. Costumava lá ir e roubar M&Ms. Ela tinha visão muito antes de o mundo se tornar global”, citava a WWD em 2012, quando Brynner foi distinguida com a Ordem das Artes e das Letras, pelo contributo nesta área.

“Quando Doris foi convidada pelo seu amigo Bernard Arnault para abrir uma loja de casa na loja principal da Dior na Avenue Montaigne, em Paris, tornou-se um dos lugares mais chiques”, recordou no rescaldo da notícia Harry Slatkin, fundador e chairman da Slatkin + Co.. Laura Slatkin detalha um pouco mais a relação que a marca mantinha com Doris e o seu peculiar perfil na gestão minuciosa da Dior Home Boutique, no interior loja principal da Dior. “Doris tinha um estilo impecável. Ela encomendou-nos a criação de uma vela Dior, que foi moldada a partir da famosa fragrância Lily of the Valley da Dior. Doris era uma dor de cabeça. Nunca esquecerei quando ela me ligou um dia, já o seu pedido estava pronto para ser enviado. “Laura, não envie essas velas. Está tudo errado.” “O que quer dizer, Doris?” “O vidro tem que vir da França, não da China.” “Doris, o vidro é fabricado na China há cinco anos”.  Slatkin conta que perante a insistência de Doris, mesmo com os custos a escalar para cinco vezes mais, não teve remédio senão refazer toda a encomenda. “Era impossível trabalhar com Doris Brynner. Impossível. Mas eu a amava muito. Cada vez que eu desligava o telefone, abanava a cabeça e sorria. Esse era o nosso relacionamento. Descansa em paz Doris.”, escreveu ainda na sua conta de Instagram.

Pelas redes sucedem-se homenagens, como as da designer Dianne von Furstenberg ou da organizadora de eventos Françoise Dumas, que evocam o charme e curadoria refinada imprimida à sua montra de peças em vidro Murano, porcelanas Limoges ou taças Theresienthal, uma série de items mais ou menos funcionais para transformar a casa num pequeno palácio.

De origem croata, nascida na antiga Jugoslávia, Doris Kleiner veio ao mundo em 13 de agosto de 1931 em Zagreb. Foi criada em Santiago do Chile, onde chegou a concorrer ao concurso Miss Chile, e chegou à capital francesa ainda nos anos 50. Em 1960 tornou-se a segunda mulher do ator de origem russa Yul Brynner (o Ramsés II do filme Os 10 Mandamentos), adotando o seu apelido. Trocaram votos quando Brynner rodava o filme Os Sete Magníficos, ao lado de Charles Bronson e Steve McQueen. O ator destacar-se-ia também na qualidade de fotógrafo.

A filha em comum, Victoria, nasceu dois anos depois — Hepburn foi a madrinha. Divorciaram-se em 1967. É como manequim que se destaca nessa época, com aparições em publicações como a Vogue e presença assídua nos desfiles de moda, numa era em que era impensável sair de casa sem o respetivo par de luvas.